Os jurumitas (em ) foram uma antiga tribo árabe tradicionalmente associada à Meca e à administração da Caaba antes do domínio dos cuzaaítas e, posteriormente, dos coraixitas. As tradições islâmicas os apresentam como originários do Iêmen e integrantes do grupo dos chamados "árabes extintos", atribuindo-lhes papel central nas origens da cidade de Meca. Segundo essas narrativas, os jurumitas acolheram Ismael, filho de Abraão, casaram-no com uma mulher da tribo e exerceram por longo período a custódia do principal santuário da Arábia. Em razão dessa estreita associação com Ismael, a tribo ocupa posição de destaque nas genealogias tradicionais árabes e na historiografia islâmica medieval. Segundo a tradição, o domínio jurumita sobre Meca terminou após um período de decadência moral, durante o qual seus líderes teriam profanado a Caaba, apropriado-se das oferendas destinadas ao santuário e explorado os peregrinos. Como consequência, foram derrotados pelos cuzaaítas e expulsos da cidade. Antes da retirada, teriam ocultado a Pedra Negra e aterrado o Poço de Zenzem, cujos vestígios somente seriam recuperados gerações mais tarde. Após deixarem Meca, as fontes afirmam que retornaram ao sul da Arábia, onde acabaram desaparecendo como tribo independente.

Embora as tradições que ligam os jurumitas a Ismael sejam consideradas em grande parte lendárias pelos historiadores modernos, a existência histórica da tribo é amplamente aceita. A referência mais antiga conhecida encontra-se na obra Étnica, de Estêvão de Bizâncio, que os menciona sob o nome grego goramenos (). Sua historicidade foi posteriormente confirmada por uma inscrição sabeia na qual o nome da tribo aparece duas vezes, constituindo a primeira evidência epigráfica conhecida dos jurumitas e reforçando sua origem sul-arábica. Estudos contemporâneos distinguem as tradições genealógicas preservadas pelos cronistas muçulmanos das evidências históricas disponíveis. Para autores como Irfan Shahid, o casamento de Ismael com uma mulher jurumita representa uma construção genealógica destinada a simbolizar a união entre os árabes do norte, considerados descendentes de Ismael, e os antigos povos do sul da Arábia. Ainda assim, a presença dos jurumitas em Meca, sua antiga ligação com a administração da Caaba e a memória de sua posterior expulsão são geralmente consideradas tradições muito antigas, preservadas pela poesia pré-islâmica, por autores clássicos e por evidências epigráficas, embora sua cronologia e diversos aspectos permaneçam objeto de debate historiográfico.

História

Segundo a tradição árabe, os jurumitas eram originários do Iêmen e pertenciam ao grupo dos chamados "árabes extintos", categoria genealógica que reunia diversos povos considerados anteriores às tribos históricas da península Arábica, entre eles os , , e os . Os genealogistas muçulmanos afirmavam que esses antigos povos haviam florescido na Arábia Meridional antes de serem destruídos por grandes catástrofes ou por castigos divinos, sobrevivendo apenas pequenos grupos que deram origem às populações posteriores. Nesse contexto, os jurumitas eram apresentados como um dos remanescentes desse ciclo mais antigo da história árabe, em estreita associação com as tradições relativas às origens de Meca e da Caaba. As tradições afirmam que, após a destruição de sua antiga pátria, um grupo de jurumitas migrou para o Hejaz, estabelecendo-se no vale de Meca. As fontes, contudo, divergem quanto à cronologia dessa ocupação. Segundo uma versão amplamente difundida, a tribo já habitava a região quando Abraão conduziu Agar e Ismael ao vale deserto por determinação divina. Outra tradição sustenta que os jurumitas somente chegaram depois da instalação de Agar e Ismael, atraídos pelo surgimento da água do Poço de Zenzem, cuja descoberta transformou o vale num local propício ao estabelecimento humano. Em ambas as narrativas, os jurumitas solicitaram autorização para fixar residência nas proximidades da fonte, dando origem ao primeiro núcleo populacional permanente de Meca.

Segundo a tradição islâmica, Ismael cresceu entre os jurumitas, aprendeu sua língua e seus costumes e casou-se com uma mulher da tribo, identificada em diferentes versões como filha ou neta de Almudade, um de seus chefes. Essa união estabeleceu estreitos vínculos genealógicos entre a descendência de Ismael e os antigos habitantes de Meca, tornando-se elemento central das genealogias árabes posteriores. A tradição afirma ainda que, durante a vida de Ismael, a administração religiosa da Caaba permaneceu sob responsabilidade de sua família, enquanto os jurumitas exerciam papel relevante na organização da comunidade e no governo da cidade. Apenas uma geração após sua morte a custódia do santuário teria passado integralmente para a tribo, embora as fontes divirjam quanto às circunstâncias dessa transferência. Algumas a relacionam diretamente ao falecimento de Ismael, enquanto outras a vinculam ao declínio gradual de sua descendência. Irfan Shahid observa que a figura de Almudade, frequentemente apresentada como chefe dos jurumitas nesse período, pode refletir uma tradição preservada pelas genealogias árabes, embora sua historicidade permaneça incerta. As fontes islâmicas descrevem esse período como uma época de prosperidade para Meca. Os jurumitas administravam a Caaba, acolhiam peregrinos e exerciam autoridade sobre o vale, preservando inicialmente o monoteísmo atribuído a Abraão e Ismael. Com o passar do tempo, porém, segundo a tradição, a tribo teria se afastado desses preceitos. Os cronistas afirmam que seus líderes passaram a apropriar-se das oferendas destinadas ao santuário, exploraram economicamente os peregrinos, praticaram atos considerados sacrílegos e deixaram de respeitar a inviolabilidade da Caaba. Essas transgressões são apresentadas pelas fontes religiosas como a causa da decadência dos jurumitas e dos acontecimentos que culminariam na perda de Meca.

Segundo a tradição, a corrupção dos jurumitas foi seguida por uma série de acontecimentos interpretados como manifestações da punição divina. As fontes relatam que a tribo foi atingida por uma epidemia caracterizada por intensas hemorragias nasais, à qual se somou uma infestação de formigas que assolou a região. Esses episódios são apresentados pelos cronistas como sinais de que Deus havia retirado sua proteção dos antigos guardiões da Caaba em razão dos abusos cometidos contra o santuário e contra os peregrinos. Embora descritos em linguagem marcadamente religiosa, tais acontecimentos desempenham papel importante nas tradições ao explicar a perda do prestígio dos jurumitas e preparar a ascensão de uma nova tribo ao controle de Meca. Pouco tempo depois, segundo as tradições árabes, a ruptura da Barragem de Maribe, no sul da Arábia, desencadeou uma série de migrações que alteraram profundamente o equilíbrio político do Hejaz. Entre os grupos deslocados encontravam-se os cuzaaítas, acompanhados dos quinanaítas, que avançaram em direção a Meca e passaram a disputar sua posse com os jurumitas. As fontes descrevem o conflito como relativamente breve, atribuindo a vitória aos recém-chegados, favorecidos tanto pelo enfraquecimento interno dos jurumitas quanto pelo castigo divino que recaía sobre a tribo. Com a derrota, os antigos senhores da cidade foram obrigados a abandonar Meca, encerrando, segundo a tradição islâmica, um longo período de domínio jurumita sobre a Caaba. Shahid observa que, embora permaneçam obscuros os detalhes dessa transição, a sucessão dos jurumitas pelos cuzaaítas constitui um dos elementos mais consistentes da tradição histórica relativa a Meca, posteriormente seguida pela ascensão dos coraixitas. Essa sequência de hegemonias aparece reiteradamente nas fontes árabes e também na poesia pré-islâmica, sendo considerada pelo autor compatível com transformações políticas ocorridas na Arábia ocidental antes do islão.

Antes de deixarem a cidade, os jurumitas teriam tomado providências destinadas a impedir que seus adversários assumissem imediatamente o controle do santuário. As tradições afirmam que ocultaram a Pedra Negra, enterrando-a em local desconhecido, e aterraram o Poço de Zenzem, apagando deliberadamente seus vestígios. Esses atos são apresentados como uma tentativa de privar os novos dominadores dos dois principais símbolos religiosos de Meca. A tradição acrescenta que tanto a Pedra Negra quanto o poço permaneceram ocultos durante longo período, sendo posteriormente recuperados. O soterramento de Zenzem tornou-se um dos episódios mais conhecidos da história tradicional de Meca, sendo associado ao seu redescobrimento por Abede Almotalibe, avô de Maomé, pouco antes do nascimento do profeta. Após a expulsão, as tradições afirmam que os jurumitas regressaram ao Iêmen, onde desapareceram definitivamente. Algumas versões atribuem seu fim a uma inundação devastadora, apresentada como novo castigo divino pela corrupção que teria marcado seus últimos anos em Meca. Outras simplesmente registram que a tribo acabou absorvida por populações vizinhas e deixou de existir como unidade política independente. Em qualquer caso, as tradições apresentam esse momento como o encerramento da participação direta dos jurumitas na história de Meca, que passou sucessivamente ao domínio dos cuzaaítas e, mais tarde, dos coraixitas.

Os estudos modernos interpretam essa tradição com maior cautela. Irfan Shahid considera plausível que, após perderem o controle de Meca, grupos jurumitas tenham efetivamente retornado ao sul da Arábia ou permanecido em regiões como Najrã, importante centro político e religioso da Antiguidade Tardia. O autor também sugere que o desaparecimento dos jurumitas como tribo independente pode estar relacionado a processos de dispersão, incorporação e mudança de filiação entre diferentes grupos tribais, hipótese que poderia explicar a tradição segundo a qual os liianitas eram originalmente jurumitas. Embora as fontes islâmicas apresentem os jurumitas como uma das mais antigas tribos da Arábia e os associem diretamente a Ismael, Shahid distingue os elementos genealógicos das tradições que podem conservar um fundamento histórico. O autor considera que a sucessão entre jurumitas, cuzaaítas e coraixitas constitui um dos elementos mais consistentes da tradição relativa à história de Meca e observa que essa sequência também aparece na poesia atribuída a Zuair ibne Abi Sulma e Alaxa. Em contrapartida, interpreta a associação direta dos jurumitas com Ismael e outros episódios das tradições genealógicas como resultado de elaborações posteriores preservadas pela historiografia islâmica. Dessa forma, sustenta que essas tradições devem ser examinadas criticamente, distinguindo-se os elementos de elaboração genealógica daqueles que podem conservar um fundamento histórico.

Historicidade