A Batalha de Quatiguá, na Revolução de 1930, opôs legalistas fiéis ao governo brasileiro de Washington Luís a revolucionários partidários de Getúlio Vargas. Num dos maiores combates do conflito, revolucionários do Exército e Brigada Militar do Rio Grande do Sul derrotaram legalistas do Exército e Força Pública de São Paulo na estação ferroviária de Quatiguá, na divisa de São Paulo e Paraná. Após combates menores em Colônia Mineira e Afonso Camargo, desde 9 de outubro, os revolucionários repeliram uma ofensiva legalista em Quatiguá, dos dias 12 a 13, e se apoderaram do restante da região até o final da Revolução.
Quatiguá era flanco do esforço de guerra principal em Itararé e abriria caminho para uma ofensiva revolucionária a Bauru, em São Paulo. Os comandantes no setor eram o revolucionário Alcides Etchegoyen e o legalista José Sandoval de Figueiredo. Os legalistas estavam na defensiva em toda a divisa, mas decidiram atacar a vanguarda revolucionária (um esquadrão de cavalaria da Brigada Militar) que aguardava reforços em Quatiguá. Inicialmente em vantagem numérica na tarde do dia 12, cercaram a estação, mas foram repelidos com a chegada do restante do destacamento Etchegoyen. O combate foi moderno, com trincheiras, metralhadoras e artilharia.
Na sua retirada em 13 de outubro, os legalistas destruíram pontes e balsas na divisa. Muitos foram capturados e levados como prisioneiros, juntamente com grandes estoques de munição. A Força Pública de São Paulo perdia sua reputação de invencível. Os revolucionários expulsaram remanescentes legalistas do território paranaense e prepararam-se para a ofensiva geral no dia 25, mas ela foi interrompida pela queda do governo brasileiro e a vitória da Revolução.
Contexto operacional miniaturadaimagem|Mapa das forças distribuídas no setor de Ourinhos a Itararé|esquerda|upright=0.8 Uma insurreição civil-militar contra Washington Luís, presidente do Brasil, teve início no Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba de 3 a 4 de outubro de 1930. A revolução dominou rapidamente o sul e avançou na direção da capital federal, alcançando a divisa do Paraná com São Paulo, principal estado defensor do governo federal. Na 5.ª Região Militar, correspondente ao Paraná e Santa Catarina, o Exército e a Força Pública do Estado do Paraná aderiram ao movimento. Em 5 de outubro o governo paranaense foi assumido pelo general Mário Tourinho. Tropas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina adentraram o Estado e se juntaram aos paranaenses na ofensiva rumo a São Paulo.
O líder da revolução, Getúlio Vargas, instalou seu quartel-general em Ponta Grossa em 16 de outubro. Na divisa Paraná-São Paulo, os revolucionários travaram combate com legalistas, constituídos de unidades do Exército de São Paulo e Rio de Janeiro, a Força Pública do Estado de São Paulo (FPESP) e voluntários civis ("legionários"). As frentes de batalha foram quatro: Quatiguá, Sengés-Itararé, Capela da Ribeira e Cananeia. Sem efetivos para uma ofensiva, os legalistas preocupavam-se somente em barrar o avanço revolucionário. Para os dois lados, Itararé era o centro de gravidade. Por ali passava a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, pelo qual se poderia levar o maior efetivo possível pelo caminho mais rápido até São Paulo. As frentes de Ourinhos-Quatiguá e Ribeira, menos protegidas, resguardavam os flancos de Itarararé.
Em Jaguariaíva a ferrovia bifurcava-se à direita para Itararé e à esquerda para Colônia Mineira (atual Joaquim Távora) na região do Norte Pioneiro ou Ramal do Paranapanema, onde se situa Quatiguá. Atravessando o rio Paranapanema em Ribeirão Claro ou o rio Itararé em Porto Maria Ferreira ou Carlópolis, passava-se da região de Ourinhos aos entroncamentos ferroviários de Bauru e Botucatu. Dali os revolucionários vislumbravam a união com seus aliados em Minas Gerais.
Os cafeicultores do Norte Pioneiro eram entusiasmados aliancistas, partidários de Getúlio Vargas na eleição de 1930. Ribeirão Claro era um reduto getulista. A Revolução encontraria apoio moral, político e material nos cafeicultores de Ribeirão Claro, Jacarezinho, Santo Antônio da Platina e Cambará. Em Colônia Mineira, o chefe aliancista Paulo Chueiri prendeu chefes políticos e funcionários do governo que poderiam ameaçar a revolução. Em Cambará houve tiroteio com mortes. Em Santo Antônio da Platina foi morto o engenheiro e cafeicultor Coriolano de Lima. Em Jaguariaíva, aliancistas de Jacarezinho atacaram o destacamento policial e prédio da prefeitura.
Forças oponentes miniaturadaimagem|Estado-Maior do comandante Trajano Marinho (de bigode) Desde antes da revolução, o 1.º Esquadrão 2.º Regimento de Cavalaria da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, de Santana do Livramento, foi destacado para Marcelino Ramos, na divisa com Santa Catarina. Esta seria a vanguarda da ofensiva revolucionária, ao comando do capitão Trajano Marinho. Em 3 de outubro, o esquadrão foi posto à disposição do general Miguel Costa. Sem maiores dificuldades, o comboio entrou no Paraná no dia 5. Ele seria reforçado no dia 9 por um contingente da Guarda Municipal de Passo Fundo e outros elementos, compondo um Corpo Provisório de Cavalaria sob o capitão Marinho.
O esquadrão Marinho era a vanguarda do destacamento do coronel Alcides Etchegoyen, formado de unidades do Exército e da Brigada Militar. O grosso do destacamento seguia em nove pesadas e lentas composições. Compunha-se de três batalhões de caçadores (BCs) e um grupo misto formado de um BC, uma bateria do 6.º Regimento de Artilharia Montado (6.º RAM), de Cruz Alta, e três companhias de metralhadoras pesadas. Os BCs eram o 1.º (elementos da Brigada Militar e 9.º BC, de Caxias, sob o major Alcides de Araujo), 2.º (elementos do 1.º Batalhão do 7.º Regimento de Infantaria, de Santa Maria, sob o coronel Nestor da Silva Soares) e 3.º (elementos do 1.º Batalhão do 8.º Regimento de Infantaria, de Passo Fundo, sob o tenente-coronel Olímpio dos Santos Rosa). Em Quatiguá o destacamento desdobraria oito canhões de 75 milímetros.
O destacamento Etchegoyen atuou na região de Cambará a Jaguariaíva, confrontando um destacamento legalista operante de Salto Grande a Jacarezinho, ao comando do coronel da Força Pública José Sandoval de Figueiredo. Os legalistas tinham o equivalente a dois batalhões: quatrocentos soldados da Força Pública de São Paulo, compostos de um esquadrão do 2.º Regimento de Cavalaria e duas companhias de infantaria, a 1.ª Companhia do 4.º BC do Exército, com 110 soldados, e 160 legionários (civis). Os elementos do Exército vinham de Quitaúna, e os civis foram recrutados pelo deputado federal Ataliba Leonel. O total de soldados em Quatiguá é estimado em 3,5 mil, incluindo um número inicial de 2 014 no Destacamento Etchegoyen.
Frente do Norte Pioneiro As primeiras forças gaúchas na região da divisa foram as do esquadrão Marinho. Seguia pela linha férrea, sem os cavalos. A 7 de outubro a vanguarda trocou tiros com o 5.º Regimento de Cavalaria Divisionário (RCD), unidade legalista do Exército, entre as estações de Jaguariaíva e Cachoeira. Os legalistas retiraram-se quando o comboio parou para reagir. No dia 8 o esquadrão Marinho chegou a Colônia Mineira, empossou novas autoridades municipais e reconstruiu as linhas férrea e telegráfica, que haviam sido sabotadas pelos legalistas. No dia seguinte entrou em Afonso Camargo, (atual Siqueira Campos), onde foi atacado às 14h00 da tarde, "em número superior e bem aparelhado", por uma companhia da Força Pública paulista. Os atacantes retiraram-se após uma hora, tendo perdido onze mortos, cinco feridos e 35 prisioneiros, conforme o relatório do capitão Marinho.
Tiroteios continuaram em Afonso Camargo nos dias 10 e 11. O capitão Marinho, conforme seu relatório, retirou-se a Quatiguá, "dada a informação de que o inimigo receberia reforço e a minha situação, pois estava sem apoio, com pouca munição". Em Colônia Mineira havia o risco de cerco. Quatiguá oferecia posição defensiva era mais vantajosa, com a proximidade de uma serra e precipícios, de onde se poderia aguardar o resto do destacamento Etchegoyen. O Estado de S. Paulo proclamou uma vitória legalista: "Em Jacarezinho, no Paraná, a coluna de patriotas que ali se encontrava, sob o comando do major Agnelo de Souza, infligiu decisiva derrota nos rebeldes que se aprestavam em atacá-la, avançando até Colônia Mineira".
Ataque legalista em Quatiguá A 12 de outubro, o esquadrão Marinho aguardava reforços em Quatiguá. O 1.º BC, vanguarda do destacamento, desembarcou cuidadosamente a um quilômetro antes da estação e seguiu pela linha férrea. Às 06:30, foram informados, possivelmente por núcleos do Partido Democrático, da chegada de oitenta caminhões com tropas paulistas em Afonso Camargo. Outros legalistas estavam em Santo Antônio da Platina, Ribeirão Claro, Jacarezinho e Carlópolis.
Alguns reforços já estavam em posição quando os legalistas atacaram, às 16h00 ou 17h00. O combate alongou-se noite adentro, até as 11h00 do dia seguinte. Ele teve aspecto moderno, com trincheiras, metralhadoras, morteiros, granadas e baterias de artilharia informadas por telégrafo desde a retaguarda. Metralhadoras foram postadas no telhado desmontado da linha férrea e seus funcionários foram usados como observadores, guias e combatentes. Segundo Roberto Bondarik, foi "um dos mais violentos combates da Revolução de 1930, superior mesmo aos da frente de Sengés". O historiador paranaense Ruy Christovam Wachowicz chamou Quatiguá de "maior combate da Revolução de 30". Ambos lados receberam reforços.
O relatório do capitão Marinho estimava uma força de seiscentos defensores e 1 200 atacantes nesta fase inicial. O tenente gaúcho Anápio Barcelos Feio estimava uma força oponente de 1 600 homens. Os legalistas tinham vantagem numérica e atacaram em meia lua ao redor da estação de Quatiguá. Conforme o revolucionário Vanderley Verás, "O tiroteio cerrou nas suas linhas. Era formidável a sua potência de fogo! As suas metralhadoras pesadas em rajadas sucessivas metralhavam o pequeno lugarejo, completamente aberto, constituído de pequenas casas, distanciadas umas das outras. Os nossos pelotões que estavam na frente responderam ao fogo dos sitiantes com um desassombro admirável".
Contra-ataque e retirada Com a chegada do grosso do destacamento Etchegoyen, os revolucionários desferiram um contra-ataque às 05h00 de 13 de outubro. A artilharia do 6.º RAM estava posicionada num cafezal no flanco da Força Pública paulista. Por falta de comando centralizado entre as colunas legalistas do Exército e Força Pública, que seguiam em estradas separadas, os revolucionários conseguiram envolver a força paulista do capitão Custódio Rodrigues de Moraes.Às 10h00 o inimigo fugia. Segundo o tenente Anápio Barcelos Feio,
Pelo relato do coronel Etchegoyen,
Os legalistas continuaram em retirada na direção de Carlópolis. Entre a mata e os cafezais, o 7.º RI alcançou o esquadrão de cavalaria paulista na atual PR-092. 140 legalistas foram aprisionados quando esgotaram a gasolina dos caminhões, entre eles três tenentes da Força Pública, um do Exército e o capitão Custódio, ferido a bala. Os revolucionários também confiscaram material de guerra, armamento e munição, esta última equivalente a dez por cento dos estoques revolucionários. A perseguição continuou. Os gaúchos requisitaram todos os cavalos, até mesmo dos leiteiros, padeiros e funerárias, mas não conseguiram acompanhar o restante dos paulistas, que estavam motorizados.
A 18 de outubro o Cônsul Geral dos Estados Unidos em São Paulo noticiou a batalha ao Secretário de Estado: "Coluna governista avançando de Ourinhos seriamente derrotada há poucos dias atrás.Governo agora na defensiva. Estrada de ferro São Paulo-Paraná transportando bens requisitados e todas as pontes destruídas pelo governo. Toda a estrada de ferro São Paulo-Rio Grande do Sul cooperando com revolucionários".
Ações posteriores miniaturadaimagem|Revolucionários gaúchos em Jacarezinho após o combate em Quatiguá|esquerda