A economia da Terra-média corresponde ao tratamento dado por J. R. R. Tolkien à economia em seu universo ficcional da Terra-média. Estudiosos como Steven Kelly comentaram o contraste entre os modelos econômicos presentes nas obras de Tolkien, exemplificado pela economia amplamente agrária, mas capitalista, do Condado, inspirada no século XIX, em oposição ao mundo mais antigo e feudal de Gondor. Outros estudiosos observaram a cultura da dádiva e da troca, que reflete a das antigas sociedades germânicas descritas em obras como Beowulf. Um contraste cultural diferente é analisado por Patrick Curry, que contrapõe o mundo pré-moderno dos Povos Livres da Terra-média às economias industrializantes e, em sua interpretação, "desprovidas de alma" do mago Saruman e do Senhor do Escuro Sauron, baseadas na maquinaria, no fogo e no trabalho.
Em uma abordagem mais descontraída, economistas e jornalistas especializados em finanças, como John Carney, exploraram os possíveis efeitos econômicos da captura, pelo dragão Smaug, do tesouro de ouro dos anões. Alguns sugeriram que essa redução da oferta monetária provocaria um grave choque econômico e deflação. Outros argumentaram que o impacto real ocorreria pelo lado da oferta, uma vez que Smaug havia exterminado tantos anões produtivos que o comércio da cidade de Dale teria sido severamente reduzido. Na Terra-média
Dádiva e troca
+Dádivas e trocas em Beowulf
Tolkien indicou que a dádiva e a troca desempenham um papel importante em diversas partes da Terra-média. No Condado, os Hobbits possuem os mathoms (do inglês antigo māþum, "tesouro" ou "presente"), objetos que passam de mão em mão como presentes valiosos ou, por vezes, destituídos de valor. Muitos deles eram guardados no museu, ou Casa dos Mathoms, em Delving Grande. Prólogo: I. «Sobre os Hobbits».
A pesquisadora Jennifer Culver afirma que Tolkien baseou sua descrição da dádiva e da troca na tradição germânica da dádiva, retratada em obras medievais como Beowulf, com a qual Tolkien estava profundamente familiarizado. Nesse sistema, um senhor podia "ampliar sua influência" por meio da distribuição de presentes, enquanto a troca visível de dádivas definia a posição relativa dos indivíduos envolvidos. Culver analisa a importância da oferta, por Sauron, dos Anéis de Poder aos nove Nazgûl — em troca de suas vidas —, bem como a natureza do Um Anel como um objeto de troca. Dinheiro e tesouros
miniatura|Em O Senhor dos Anéis, Cevado Carrapicho paga uma indenização de 30 pennies de prata. Na imagem, um penny de prata do início da Idade Média, cunhado durante o reinado de Ofa da Mércia.
Tolkien menciona dinheiro e bens de valor em diversas passagens de seus escritos sobre a Terra-média. Os hobbits utilizavam moeda corrente: em O Hobbit, registra-se que Bilbo Bolseiro, ao deixar o Condado às pressas, esqueceu-se de levar dinheiro consigo. Cap. 2, «Carneiro assado».
Em O Senhor dos Anéis, Cevado Carrapicho paga uma indenização de 30 pennies de prata como compensação pela perda dos cavalos e pôneis roubados da estalagem Pônei Saltitante, em Bree; um pônei custava cerca de quatro pennies de prata. Livro I, cap. 11, «Uma faca no escuro». Além disso, Bilbo distribui "alguns pennies" antes de sua festa de aniversário, enquanto, durante o Conselho de Elrond, Gandalf emprega a expressão "vale uma peça de ouro" ao referir-se a uma informação de grande importância. Não há, entretanto, qualquer indicação sobre o local onde essas moedas teriam sido cunhadas. O povo de Gondor utilizava moedas de prata como meio de troca. A principal unidade monetária era o castar; um quarto de um castar correspondia a um tharni.
Os anões de Moria atribuíam grande valor a materiais preciosos, como ouro e gemas, mas, sobretudo, ao raro metal mithril, que extraíam de suas minas:
O mago Gandalf surpreende o anão Gimli ao mencionar uma cota de malha confeccionada em mithril.
Os estudiosos de relações internacionais Abigail Ruane e Patrick James consideram Gimli um exemplo de "institucionalistas neoliberais" no contexto da economia da Terra-média, uma vez que seu "povo busca avidamente ouro e tesouros".
Na interpretação dos autores, Gimli e os demais anões também ilustram a interdependência entre as nações por meio de suas redes de comércio e alianças. As diversas "relações entre anões, elfos e homens fornecem uma base sobre a qual construir alianças contra Sauron e demonstram como a interdependência complexa pode reduzir as percepções de insegurança e criar oportunidades para a cooperação em vez do conflito". Conflito entre modelos econômicos
miniatura|esquerda|upright=1.25|Cenário cinematográfico de Hobbiton, no Condado, frequentemente descrito como um idílio pastoral.
Steven Kelly argumenta que, embora o universo de Tolkien seja geralmente visto como um mundo de fantasia medieval — e, portanto, entendido como uma sociedade pré-capitalista —, ele apresenta diversos elementos característicos de uma sociedade capitalista. Citando o filólogo e estudioso de Tolkien Tom Shippey, Kelly afirma que isso resulta do choque entre dois grandes eixos da construção do mundo tolkieniano: o "antigo mundo de contos de fadas do norte da Europa", ao qual pertence a maior parte da Terra-média, e um "mundo relativamente moderno representado pelo Condado", parcialmente inspirado na Inglaterra do século XIX.
Enquanto regiões como Gondor foram descritas como feudais ou pré-feudais, com instituições como os feudos, o Condado apresenta uma economia simultaneamente simples e complexa: trata-se de uma sociedade agrária autossuficiente e resistente ao capitalismo, por vezes descrita até mesmo como comunista, mas que mantém relações comerciais e outros mecanismos econômicos semelhantes aos encontrados em sistemas capitalistas modernos. Em particular, Kelly sustenta que o comércio da erva-de-fumo dos hobbits pode ser interpretado como um exemplo moderno de fetichismo da mercadoria.
Jay Atkins, escrevendo na revista Mallorn, argumenta que o Condado funciona como uma economia distributista, conforme concebida por G. K. Chesterton e Hilaire Belloc no início do século XX: um sistema que valoriza a natureza e no qual as famílias possuem os meios de produção em pequena escala. Atkins observa ainda que o capítulo "O Expurgo do Condado" faz alusão ao socialismo, pois, sob o governo injusto de Sharkey, defende-se o compartilhamento de bens — porém em um único sentido, já que Sharkey confiscava as propriedades dos hobbits sem oferecer qualquer contrapartida. miniatura|Isengard é industrializada: "...martelos ressoavam. À noite, colunas de vapor erguiam-se das aberturas, iluminadas por um brilho vermelho vindo de baixo". Martelo a vapor em funcionamento, Inglaterra.
Em contraste, Isengard, governada pelo mago Saruman, é um centro industrial. Ali são produzidos armamentos e máquinas de ferro, fundidos e forjados com madeira utilizada como combustível; uma raça excepcionalmente grande e poderosa de orcs, capaz, como observa Barbárvore, de combater à luz do dia e produzida rapidamente, aparentemente por algum tipo de clonagem; além de um explosivo semelhante à pólvora. Livro III, cap. 8, «A estrada para Isengard». Livro III, cap. 4, «Barbárvore».
Lianne McLarty descreve Isengard como uma economia de guerra, dotada de um sistema militar-industrial voltado para a produção do material de guerra. Resistência ao progresso econômico desprovido de alma
O estudioso de Tolkien Patrick Curry relaciona a busca pelo progresso econômico na Terra-média ao processo de industrialização e a uma forma sombria de magia, representada pela feitiçaria de Sauron e Saruman, associada a rodas, fornalhas e trabalhadores incessantes. Segundo Curry, "o Inimigo é, assim, o 'Senhor da magia e das máquinas'".
Em contraste, Curry contrapõe essa magia à magia élfica do "encantamento", afirmando que, "em termos contemporâneos, a dominação da magia financeira e tecnológica sobre o encantamento [...] é algo que vemos confirmado por toda a Terra-média de hoje [...] juntamente com o sentimento de que o progresso não é apenas benéfico para nós, mas também inevitável".
Na interpretação de Curry, os escritos de Tolkien sobre a Terra-média "convidam o leitor a entrar em um mundo pré-moderno envolvente e extraordinariamente completo, impregnado de valores voltados às relações entre as pessoas, com a natureza e com o espírito", preservando "a integridade e a responsabilidade pessoais", em vez de reduzi-las a um "cálculo desprovido de alma de lucros e perdas financeiras". Em síntese, afirma que "a sabedoria na Terra-média não consiste em conhecimentos econômicos, científicos ou tecnológicos, mas em uma sabedoria prática e ética". Interpretações econômicas
O jornalista financeiro John Carney analisa, em tom bem-humorado, os efeitos econômicos da captura, pelo dragão Smaug, do tesouro dos anões. Ele observa que Frances Woolley, professora de economia da Universidade Carleton, sugeriu que a retirada de uma quantidade tão grande de ouro de circulação representaria um forte aperto da política monetária, o que provocaria deflação e retração da atividade econômica.
Em oposição a essa interpretação, argumenta-se que os 150 anos transcorridos entre a tomada da Montanha Solitária por Smaug e os acontecimentos narrados em O Hobbit teriam permitido que a economia se ajustasse gradualmente ao choque.
Por outro lado, o economista Nick Rowe sustenta, sob a perspectiva da nova economia keynesiana, que os preços poderiam permanecer elevados, já que as empresas poderiam adiar decisões econômicas aguardando a derrota de Smaug.
Uma terceira interpretação é apresentada por Eric Crampton, que argumenta que o choque ocorreu pelo lado da oferta, pois Smaug consumiu "milhares de artesãos anões altamente qualificados", privando Dale de grande parte do comércio de produtos agrícolas que antes eram trocados por manufaturas produzidas pelos anões.
O próprio Carney sugere, de forma jocosa, que o mago Gandalf poderia ter usado seus poderes para recriar o ouro "do nada". Contudo, assim como o Federal Reserve se recusou a restituir a riqueza perdida pelos investidores no esquema fraudulento de Bernard Madoff, Gandalf também não o fez.
Em 2012, a fortuna de Smaug foi estimada em 61 bilhões de dólares, o que o colocou na lista Forbes Fictional 15.
A economista Diane Coyle escreveu no Financial Times que a economia compartilhada do Condado poderia ser aperfeiçoada com um site de anúncios chamado "mathom.com". Segundo Coyle, uma plataforma desse tipo permitiria que os mathoms circulassem de forma mais eficiente entre os hobbits. Obras derivadas
O romance de fantasia The Last Ringbearer, publicado em 1999 por Kirill Eskov, é uma paródia de O Senhor dos Anéis e uma continuação não oficial da obra. O livro foi interpretado como uma crítica, entre outros aspectos, à visão ambientalista antimoderna presente na obra de Tolkien.
Na obra, Mordor é retratada como uma sociedade baseada no conhecimento racional, em contraste com a facção belicista e contrária à industrialização liderada por Gandalf e pelos elfos.
Referências
Primárias
Secundárias
Bibliografia
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