A Igreja Paroquial dos Anjos, ou Igreja de Nossa Senhora dos Anjos, é um templo de arquitectura neoclássica situado em Lisboa, na actual Avenida Almirante Reis. O edifício actual foi inaugurado em 1910, resultando da reconstrução e trasladação integral do recheio artístico de uma igreja anterior, demolida para a expansão da capital.
História
Origens Em 1551, segundo Cristóvão Rodrigues de Oliveira, a primitiva ermida dos Anjos encontrava-se já situada na freguesia de Santa Justa e detinha duas confrarias, a dos Anjos e de Nossa Senhora, com uma esmola de 60 cruzados. A fundação da paróquia ocorreu entre 1563 e 1564, por determinação do Cardeal D. Henrique, arcebispo de Lisboa, através do desmembramento territorial da extensa freguesia de Santa Justa. A sede desta nova circunscrição religiosa fixou-se nessa pequena ermida dedicada a Nossa Senhora dos Anjos. Refere Norberto de Araújo nas suas Peregrinações em Lisboa que o templo teve por orago os "Santos Anjos" ou talvez mesmo, e precisamente, São Miguel, embora haja ainda quem lhe atribua desde o começo, com fundamentos de peso, o orago de Nossa Senhora dos Anjos. No princípio do domínio filipino (durante o reinado de D. Filipe III), o primitivo espaço de culto encontrava-se arruinado, o que motivou uma profunda reedificação estrutural. A 3 de Janeiro de 1588, foi promulgado um alvará que autorizava a cobrança de um imposto de 5% sobre os rendimentos dos proprietários locais, até se angariar 5000 cruzados para as obras. No dia 15 de Outubro desse mesmo ano, D. Diogo de Lima assumiu as funções de juiz da obra, liderando uma comissão que sofreria sucessivas renovações nos anos de 1601, 1611 e 1621, exigindo o contínuo lançamento de novas fintas, como a autorizada em 30 de Julho de 1621 sob a alçada de Miguel Maldonado.
O templo agregou rapidamente múltiplas associações de fiéis, documentadas em 1620 pelo cura António Mendes Pimentel, destacando-se as confrarias dos Anjos (fundada em 1565), das Almas (1567), de São Sebastião (1572) e de Nossa Senhora da Conceição (1590). Várias agremiações menores, como as de São Brás e São Jordão, acabaram integradas no altar partilhado de São Sebastião. Este conjunto de devoções sustentava músicos, construtores de andores e confeiteiros, e reunia nas mesas administrativas aristocratas como o Conde de Pombeiro, Pina Manique e, mais tarde, o rei D. Manuel II, lado a lado com artífices. Estes últimos garantiam protecção, terrenos aforados na Rua Direita dos Anjos e contactos profissionais para as suas carreiras. A Irmandade do Santíssimo Sacramento mantinha a primazia sobre as restantes, zelando pela sacristia e possuindo casa de despacho própria na capela-mor, um espaço que a 9 de Janeiro de 1633 foi adquirido para sepultura por D. Maria de Távora pela avultada soma de 1.000.000 de réis, encabeçando ainda uma doação de 112.000 réis para a fábrica.
A igreja seiscentista A relevância arquitectónica desta fase inicial foi enaltecida por Frei Nicolau de Santa Maria, que a descreveu como "hum dos mais lindos & ornados Templos da Corte", num complexo que assumiu a designação de colegiada entre 1579 e a década de 1820 (quando cessou por falta de meios), contando com um colégio de cónegos composto por onze capelães que asseguravam o serviço diário de culto dotados de uma renda de 64.000 réis, e administrada em tempos por D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho. Em meados do século XVII, as campanhas ornamentais aceleraram graças ao contínuo mecenato local. Em 1668, a Irmandade do Santíssimo adjudicou o retábulo-mor em madeira de bordo ao entalhador Francisco Marques, por 165.000 réis, segundo o risco do arquitecto régio Luís Nunes Tinoco. Nas capelas laterais, o pedreiro Sebastião da Fonseca laborou em 1677 e 1678, ano em que o mestre Manuel Duarte construiu a banqueta do altar de Nossa Senhora dos Anjos, seguindo-se, em 1683, o mestre Francisco Gomes com a execução de embutidos de pedraria policroma nas ilhargas do altar de São Sebastião.
O revestimento das superfícies operou como um laboratório artístico ímpar de colaboração entre mesários e mestres-de-obras. Ascenso João azulejou a capela-mor em 1617 cobrando 14 réis por peça, seguindo-se novas campanhas em 1680 e 1684 dinamizadas pelas confrarias vizinhas. Ao pintor régio Marcos da Cruz atribuem-se várias telas da igreja, tendo José de Almeida sido responsável pelo restauro do altar da Imaculada em 1677. A devoção à Senhora da Conceição originou o surgimento de uma irmandade própria em 1692, impulsionada pelo acontecimento conhecido como Milagre da Cera e do Azeite, ocorrido a 8 de Dezembro de 1690, no qual o azeite ardeu ininterruptamente três dias e a cera devolvida pesou mais que a adquirida, feito imortalizado num ex-voto pictórico de 124×104 cm.
A igreja barroca O início de Setecentos trouxe intervenções do mestre Francisco Carvalho, que refez os telhados entre 1689 e 1700 por 31.265 réis. Em 1703, o pedreiro Amaro da Costa interveio nas casas do cura e da Irmandade por quase 19.000 réis totais, e em 1711 o arquitecto régio João Antunes e Manuel Antunes certificaram diversas obras nos portais e no baptistério, o qual seria novamente reedificado em 3 de Janeiro de 1728 por perigo de ruína. Entre 1716 e 1754, a paróquia tornou-se reitoria auferindo um rendimento de 750.000 réis, suportando uma explosão do conceito de arte barroca total. O entalhador Gabriel Fernandes Aleixo cobrou 4800 réis pelo projecto da nave em 1711, cabendo a Francisco Gomes a execução da talha subsequente, avaliada em 1.784.000 réis para os caixilhos, 116.000 réis pelos púlpitos e 850.000 réis pelo coro, sendo estas peças douradas em 1723 por Marcos da Silva e Manuel Rodrigues num acordo orçado em 622.000 réis.
Este período áureo envolveu ainda a aplicação de quase 2000 azulejos de paisagens pelas mãos de Manuel Rodrigues em 1711, ao custo de 76.094 réis, e a execução de padrões de brutesco por Dionísio de Araújo e António Pereira. A irmandade encomendou 19 painéis monumentais a António Machado Sapeiro e por um ciclo de telas tenebristas a Bento Coelho da Silveira rodeando os tectos em caixotões. Recorreu-se ainda ao trabalho dos pintores Jerónimo da Silva a Pedro Gomes de Matos. As requalificações prosseguiram na década de 1730 e 1740 com Tomé dos Reis a esculpir Cristos por 16.000 réis, pias de água benta talhadas por Manuel Álvares em 1737, e restauros orientados por Jerónimo da Costa, José António, Inácio da Silva e Joaquim José Ferreira. Destaca-se a capela colateral de Nossa Senhora da Conceição, que em 1745 exigiu 152.000 réis na tribuna e 67.880 réis em repintes para acomodar uma nova Virgem, esculpida pelo afamado José de Almeida por 28.800 réis.
Após os severos danos estruturais resultantes do terramoto de 1 de Novembro de 1755, a recuperação atestada pelo mestre Manuel José em 1758 incidiu sobre campas e na escada da torre, utilizando madeira do Brasil. Nas Memórias Paroquiais datadas de 10 de Abril de 1758, o pároco António Carlos de Oliveira descreve a organização interna preservada em conformidade com o chamado Estilo Nacional:He esta Igreja de hũa só nave, a capella mor tem hũa primoroza tribuna dourada, que se fecha com hum painel dos Anjos, nella esta collocada a imagem de N. S. da Gloria, em o altar da parte do Evangelho o Arcanjo S. Miguel, como padroeiro da dita Paroquia e mais Anjos; e da parte da Epistola o glorioso S. Pedro, o altar coletral da parte do Evangelho hé de N. S. dos AnjosNo seguimento da transcrição, a mesma fonte refere que o altar de Nossa Senhora dos Anjos albergava as imagens de Santo André, Santa Catarina e Santo António; no lado oposto situava-se o de Nossa Senhora da Conceição com tribuna ricamente ornada, albergando o Santíssimo e as imagens de São Sebastião, São Brás e São João Baptista, surgindo ainda a imagem de Cristo sobre o arco triunfal. A frontaria foi refeita em 1798 por Inácio Lopes, por 8460 réis, consolidando o traçado exterior que o edifício manteria até aos seus últimos dias na localização original.
Declínio e trasladação da igreja O século XIX assinalou uma fase de perturbações e declínio. Em 1826, o arquitecto da cidade, Malaquias Ferreira Leal, delineou a capela do Santíssimo, mas o sagrado do espaço foi gravemente abalado pela profanação e furto da imagem da Imaculada em 1830 e, novamente, a 22 de Março de 1838. A redistribuição das alfaias gerou conflitos associativos em 1841 e 1842, opondo diferentes irmandades face à mudança inusitada dos altares históricos. Atingindo um profundo e evidente estado de ruína, o governo e a Irmandade viram-se forçados a financiar em 1852 extensas reparações nos telhados orçadas em 900.000 réis. Esta acção culminou em 1855, sob a posse administrativa de Sabino José de Sousa, com um dispendioso restauro global superior a 5.600.000 réis, onde Diogo Faustino dos Reis cobriu a talha com folha de prata, ao passo que os azulejos antigos não resistiram e acabaram na sua esmagadora maioria substituídos por estuque marmoreado no ano de 1854.
Em 1908, a exigência de abertura da Avenida Rainha D. Amélia (nomeada em honra da rainha D. Amélia de Orleães e renomeada Avenida Almirante Reis pouco após a revolução de 1910) impôs, por parte da Câmara Municipal de Lisboa, a demolição do templo primitivo assente no antigo Regueirão dos Anjos, no local onde hoje Rua dos Anjos é cortada pela Almirante Reis. Contudo, desde 1889 que a salvaguarda do património se encontrava assegurada sob a direcção de um projecto desenhado pelo arquitecto José Luís Monteiro, que delineou uma intervenção "restauracionista". O recheio da igreja antiga começou a ser transferido em 1907 para uma área verde ajardinada a cerca de 300 metros de distância, na banda ocidental da referida avenida. Monteiro respeitou rigorosamente as proporções e valores da igreja original sem produzir um simples pastiche nem praticar "inovações irreverentes" (nas palavras de Norberto de Araújo), conferindo-lhe contudo uma fachada neoclássica mais pronunciada, de perfil inspirado na arquitectura vernácula portuguesa do século XVII. Esta rigorosa remontagem integrou a pedra de armas protectora da família Lumiar, patrona do antigo templo, incorporou telas quinhentistas singulares, como a representação maneirista de Santa Irene da autoria de Diogo Teixeira ou o raro retrato de Santo António em exibição na sacristia, exigindo igualmente um complexo redouramento final confiado à firma Nascimento e Almeida por 1.180.000 réis. O novo templo abriu solenemente as suas portas a 11 de Março de 1910, sendo a intervenção oficialmente dada como concluída no decurso do ano de 1911.
Já no final do século XX, o imóvel foi objecto de escrutínio patrimonial e elaboração da respectiva Carta de Risco, em Outubro de 1998, pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.
Descrição
Exterior O templo situa-se isolado defronte da actual Avenida Almirante Reis, beneficiando do enquadramento proporcionado pelo Jardim António Feijó. Todo o recinto encontra-se delimitado por um muro rematado com gradeamento de ferro, separando o espaço sagrado da malha urbana envolvente. A estrutura apresenta uma arquitectura religiosa de feição neoclássica, desenhada pelo arquitecto José Luís Monteiro, que utilizou de forma notável a gramática deste estilo. Caracteriza-se por um rigor formal que adoçou e suavizou as proporções originais transladadas.
Fachadas As fachadas são rematadas nos cantos por pilastras lisas a fechar o risco e assentam num embasamento de cantaria almofadada, sendo todo o edifício cintado por uma cornija proeminente ao nível da cimalha. Nas fachadas laterais, cuja linha é ligeiramente saliente, rasgam-se nos dois registos janelas frestas (ostentando a fachada Norte também um óculo). O resto da fachada lateral evidencia no primeiro registo uma janela fresta e, no segundo, três janelas coroadas com entablamento. O corpo posterior é rasgado por janelas nos dois registos, dispondo de uma porta na fachada Norte.