Sindemia caracteriza a interação mutuamente agravante entre problemas de saúde em populações em seu contexto social e econômico. O conceito foi cunhado por Merrill Singer a partir de estudo sobre o entrelaçamento entre a síndrome da imunodeficiência adquirida e a violência em cidades estadunidenses [podemos desenvolver isso um pouco]. Problemas de saúde e sociais se agrupam em comorbidade crescente a partir de fatores sociais, psicológicos e biológicos, embora os agravos à saúde sejam enfermidades crônicas não transmissíveis.

Sindemia global da fome, obesidade e mudanças climáticas No início de 2019, o relatório "A Sindemia Global da Obesidade, da Desnutrição e das Mudanças Climáticas" foi lançado pela Comissão de Obesidade do periódico The Lancet na Conferência PMAC 2019, realizada na Tailândia. O relatório denominou de "sindemia global" a combinação sinérgica entre pandemias da fome, da obesidade e da mudança climática, as três decorrentes, principalmente, do sistema agroalimentar global. Nessa sindemia global, problemas de saúde pública que coexistem na maioria dos países do mundo atualmente combinam-se sinérgicamente e são produzidas consequências tanto para a saúde humana quanto para o meio ambiente.Swinburn BA, Kraak VI, Allender S, Atkins VJ, Baker PI, Bogard JR, et al. The global syndemic of obesity, undernutrition, and climate change: the Lancet Comission Report. Lancet [online]. 2019 [acesso em 10 Jul 2022]. 393:791-846. Disponível em: https://www.thelancet.com/commissions/global-syndemic

A desnutrição, a obesidade e as mudanças climáticas, quando combinadas, constituem uma sindemia visto que coexistem no tempo e espaço, bem como compartilham determinantes, como aqueles presentes nos sistemas de alimentação, transporte, desenho urbano e uso do solo. Os fatores que compõem tal sindemia global ainda interagem entre si, produzindo sequelas complexas.Marchioni DM, Carvalho AM, Villar BS. Dietas sustentáveis e sistemas alimentares: novos desafios da nutrição em saúde pública. Rev USP [online]. 2021 [acesso em: 10 Jul 2022]. 128:61-76. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/185411/171516

As pandemias de desnutrição e obesidade são formas da má nutrição, que também inclui carências nutricionais específicas, sobrepeso e doenças crônicas não transmissíveis. Há um amplo reconhecimento de que o sistema agroalimentar global impulsiona a má nutrição, além de ser um dos principais contribuintes para mudanças climáticas, uso da terra, poluição da água e do ar — gerando cerca de 25 — 30% das emissões de gases do efeito estufa, sendo a produção de gado a principal responsável pelas emissões. miniaturadaimagem|423x423px|Esquema das interações na sindemia global de obesidade, desnutrição e mudanças climáticas Sistemas alimentares são formados por um conjunto de fatores do processo alimentar, desde as etapas de produção, processamento e distribuição até o consumo de alimentos e o seu impacto socioeconômico e ambiental. Contribuem no desdobramento de adversidades climáticas e ambientais da mesma forma que são, também, afetados por estas.

Considera-se um sistema alimentar sustentável aquele que, além de reconhecer o acesso à alimentação como direito fundamental, possui a capacidade de manter-se por longo prazo sem comprometer ecossistemas, economias e a segurança alimentar e nutricional dos indivíduos.

Os sistemas alimentares dominantes possuem íntima relação com o padrão de consumo alimentar dos indivíduos. Do mesmo modo que o sistema alimentar disponibiliza os alimentos para o consumo, compondo a dieta e as preferências alimentares, estas criam demandas que direcionam os sistemas alimentares.Peres J, Matioli V, Swindurn, B. Boyd Swinburn, a sindemia global e a classificação NOVA. Cad Saúde Pública [online]. 2021 [acesso em: 10 Jul 2022]. 37(Supl. 1):1-7. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csp/a/dFdBzBbCFtsmYkmmmWfqJZG/?format=pdf&lang=pt Assim, as preferências alimentares são responsáveis por guiar o processo de produção, fomentando um sistema alimentar específico.

O sistema alimentar dominante decorre de escolhas políticas e econômicas, que moldam os sistemas naturais e resultam nas pandemias de obesidade, de desnutrição e de mudanças climáticas predominantes em todo o mundo. A interação simultânea dos fatores que constituem a sindemia global tem como efeito a influência mútua entre eles. Eventos climáticos podem, por exemplo, afetar a agricultura e a segurança alimentar de uma ou mais populações. Da mesma forma, a desnutrição na infância está associada a maior risco de incidência de obesidade e doenças crônicas não transmissíveis na idade adulta.

A visão sobre a sindemia global permite encaminhar novas políticas públicas, que levem em consideração fatores sociais, econômicos, ambientais e políticos. Nessa lógica, o combate à determinada enfermidade não deve se limitar a questões simplesmente biológicas, mas sim englobar ações direcionadas à diminuição de desigualdades sociais.

No Brasil, de acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada nos anos de 2017 e 2018, 4,9% da população (10,3 milhões de pessoas) viviam sob condições de insegurança alimentar grave.Machado DA, Bertolini AM, Brito LS, Amorim MS, Gonçalves MR, Santiago RA, et al. O papel do sistema único de saúde no combate à sindemia global e no desenvolvimento de sistemas alimentares sustentáveis. Ciênc Saúde Colet [online]. 2021 [acesso em 10 Jul 2022]. 26(10):4511-4518. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/X85SHrxL7tHdcppJspKd5mb/?format=pdf&lang=pt Paralelamente, dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada em 2019 mostram que 25,9% da população acima de 18 anos (41,2 milhões de pessoas) estavam obesas. A associação entre má nutrição e alimentação não saudável culminam no avanço das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) e resultam em impacto socioeconômico negativo, através de gastos despendidos com sistemas de saúde (no caso, o Sistema Único de Saúde, SUS) que são sobrecarregados pelas duas vias. Além disso, a insustentabilidade do sistema de produção de alimentos atual está intimamente ligada à emissão de gases de efeito estufa, que contribuem diretamente para as mudanças climáticas.

Os problemas de insegurança alimentar e fome no Brasil são situados em um contexto econômico global, no qual a produção de alimentos é sustentada principalmente pelo modelo do agronegócio e pelo uso de agroquímicos. As substâncias químicas, por sua vez, estão relacionadas a distúrbios metabólicos, incluindo obesidade e debilidade no sistema imunológico, aumentando a vulnerabilidade a doenças diversas, inclusive a COVID-19. FRIEDRICH, K. et al. Agronegócio e pandemia no Brasil: uma sindemia está agravando a pandemia de COVID-19? [S. l.]: GT Saúde e Ambiente da Abrasco; IPEN, 2021. Disponível em: https://abrasco.org.br/download/agronegocio-e-pandemia-no-brasil-uma-sindemia-esta-agravando-a-pandemia-de-covid-19/. Acesso em: 13 jul. 2026.

Pandemia de COVID-19 como sindemia Em setembro de 2020, durante a pandemia por COVID-19, Richard Horton, editor-chefe do The Lancet, publicou um comentário neste periódico dizendo que a vulnerabilidade dos cidadãos a esta doença permitia concluir que o surgimento de um tratamento ou vacina protetora, por mais eficaz, falharia. Esta vulnerabilidade era observada entre os mais idosos, em pessoas de comunidades étnicas negras, asiáticas e minoritárias, e em trabalhadores que eram comumente mal pagos e recebiam menos proteções de bem-estar. O pesquisador argumentou que o avanço da COVID-19 deveria ser entendido então como uma sindemia, e a busca por uma solução para a doença não deveria ser puramente biomédica, mas seria necessária maior atenção às doenças não transmissíveis (DNT) e à desigualdade socioeconômica.

Horton observou grande interação entre a infecção pelo SARS-CoV-2 e DNT em populações específicas, de modo que combater a COVID-19 implicava em também combater a hipertensão, a obesidade, a diabetes, as doenças cardiovasculares, as doenças respiratórias crônicas e o câncer. O ponto principal é que essas patologias não apenas ocorrem simultaneamente à COVID-19, mas se intensificam mutuamente. A relação sindêmica com a COVID-19 também afeta e é afetada por problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade e transtornos de estresse pós-traumático. Os problemas psicológicos, para além do distanciamento e solidão, são intimamente conectados com dificuldades financeiras e econômicas. Inclusive, o grupo com maior risco dessas doenças engloba mulheres com baixo nível educacional, desempregadas ou com baixa renda.

Em conclusão, Horton afirmou que a menos que os governos elaborassem políticas e programas para reverter suas profundas desigualdades sociais e econômicas, incluindo os países desenvolvidos, o mundo nunca estaria verdadeiramente protegido da COVID-19. Isso demonstra a forma como a doença possui origens sociais e não atingiu as comunidades de forma homogênea, envolvendo condições prévias de vida e trabalho

Ver também

Antropologia médica Antropoceno Comorbidade Determinantes sociais da saúde Endemia Epidemia Epidemiologia Epidemiologia crítica Epidemiologia social Fisiopatologia Genocídio dos indígenas americanos Pandemia Medicina social Psicologia social Semiologia médica Sociologia médica

Bibliografia

Mendenhall, E. Syndemics: a new path for global health research. The Lancet 2017; 389(10072): 889-891. Mendenhall, E and Singer, M. What constitutes a syndemic? Methods, contexts, and framing from 2019. Current Opinion in HIV and AIDS 2020; 15(4), 213-217. Singer, MC. Introduction to syndemics: a systems approach to public and community health. Jossey-Bass, San Francisco, 2009. Singer, MC and Clair, S. Syndemics and public health: reconceptualizing disease in bio-social context. Med Anthropol Q. 2003; 17: 423-441 Singer, M, Bulled, N, Ostrach, B and Mendenhall, E. Syndemics and the biosocial conception of health. The Lancet 2017; 389(10072): 941-950.

Ligações externas

A Sindemia Global da Obesidade, da Desnutrição e das Mudanças Climáticas — relatório da Comissão The Lancet (original em inglês)