A Família Calisto ficou conhecida em Porto Alegre no contexto do pós-abolição por sua mobilização política e social, dentro e fora da comunidade negra, especialmente por ceder seu estabelecimento - o Salão Calisto - para realização de reuniões que deram origem ao jornal “O Exemplo”. O pai, Calisto Felizardo de Araújo, e seus dois filhos, Florêncio Calisto Felizardo da Silva e Esperidião Calisto Felizardo da Silva, foram expoentes daquilo que se esperava de uma família racializada do fim do século XIX, sendo, os três, homens letrados e engajados na luta pela liberdade e cidadania.
Calisto Felizardo de Araújo Calisto Felizardo de Araújo (1819-1909) nasceu em Salvador e sua formação familiar ocorreu na capital gaúcha. Filho de Maria Felizarda do Bonfim, mulher africana, Calisto foi batizado na Freguesia do Pilar da Bahia. Casou-se, no ano de 1862, com Joana da Conceição e Silva (?-1869), com a qual teve quatro filhos, os já mencionados Florêncio Calisto Felizardo da Silva e Esperidião Calisto Felizardo da Silva, e as mais novas, Maria Torquata Felizarda da Silva e Margarida Felizarda da Silva, que cedo faleceu.
Na segunda metade do século XIX, Calisto formou patrimônio através de seu ofício como cirurgião-barbeiro. Situada no número 247 da Rua dos Andradas, sua barbearia oferecia também cuidados dentários e práticas populares de cura. A aplicação de ventosas e de sanguessugas hamburguesas, as últimas, consideradas as melhores espécies, demonstra o investimento aplicado pelo patriarca da família para melhorar seu empreendimento, um dos dois únicos salões a oferecerem os serviços mencionados em Porto Alegre nas décadas de 1870 e 1880. Por meio de seu trabalho, Calisto conquistou reconhecimento e respeitabilidade social.
Além de sua notoriedade profissional, teve uma importante atuação associativa, como na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Porto Alegre.PERUSSATTO, M. K. Liberdade, trabalho e cidadania negra no pós-Abolição: a família Calisto em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. In: Beatriz Mamigonian; Joseli Mendonça; Luana Teixeira. (Org.). Pós-Abolição no Sul do Brasil: associativismo e trajetórias negras. 1 ed. Salvador: Sagga, 2020, v. 1, p. 168-184. Seu confrade, Scipião da Silva Freire, foi testemunha de seu casamento com Joana, padrinho de batismo da filha Maria Torquata, e tutor dos irmãos menores de idade de Joana em decorrência do falecimento do pai. Após o casamento, a tutoria passou para as mãos de Calisto. Tudo isso explicita a rede de solidariedades estabelecida entre os homens negros na capital e a inserção de Calisto nesse importante meio de resistência ao racismo.
Depois de oito anos casado, ficou viúvo. Só abriu o inventário post mortem da esposa no ano de 1881, doze anos após o falecimento de Joana, em decorrência do aumento de seu patrimônio e da estima conquistada, especialmente, pelo seu trabalho. Dizia, afinal, ter o que legar aos filhos, e gostaria de dar partilha dos bens que também eram da esposa.
Seu estabelecimento abrigou as reuniões que deram origem ao jornal “O Exemplo”, um dos jornais mais notórios da imprensa negra porto-alegrense no contexto do pós-abolição. Fundaram o jornal seus dois filhos, Florêncio e Esperidião, e outros seis amigos. De dezembro de 1892 a janeiro de 1897, o Salão Calisto foi sede do periódico e ambiente de estudo, troca de experiências e cultivo dos mais variados conhecimentos. Sua contribuição era reconhecida em menções saudosas presentes nos jornais; chamavam-lhe “respeitável ancião”, “nosso bom e velho amigo”. Quando doente, em 1904, notas desejavam sua melhora.
Antes de seu falecimento, em quinze de junho de 1909, casou-se novamente, agora com Maria Marcolina de Jesus. A ela foi deixada uma propriedade “na rua 28 de setembro, número 61”. Seguinte ao falecimento de Marcolina, os três filhos de Calisto tornaram-se herdeiros universais do patrimônio. Durante o processo de divisão dos bens, Maria Torquata veio a óbito, e a herança foi redistribuída entre os dois irmãos Florêncio e Esperidião.
Ao longo de sua vida, pouco mobilizou informações sobre o período em que viveu como escravizado. Somente por meio de um único documento, foi registrado que Calisto chegou a Porto Alegre com cerca de dez anos como escravo do Comendador José Antônio Araújo Ribeiro, vítima do tráfico interprovincial. Libertou-se após quarenta anos.
Filhos Os primeiros filhos de Calisto Felizardo de Araújo não eram “de Araújo”. Nasceram livres e não carregavam consigo a herança escravista do sobrenome, pelo contrário, levavam consigo o nome do pai, o sobrenome da mãe, e o prenome da avó paterna, “Felizarda”. Os nomes de Florêncio Calisto Felizardo da Silva (1863-?) e Esperidião Calisto Felizardo da Silva (1864-?) valorizavam a liberdade e o protagonismo familiar.
Diferente de Calisto, que talvez tenha se alfabetizado por autodidatismo, práticas coletivas informais ou até pela sociabilidade devocional na Irmandade do Rosário, Florêncio e Esperidião adquiriram seus conhecimentos frequentando aulas públicas do primeiro distrito da capital. As possibilidades foram maiores para os filhos do que para o pai, visto que ambos já constavam como sócios do Salão Calisto desde o inventário de 1881, como indicam os anúncios em jornais acerca dos serviços providos pela “casa de Calisto Felizardo de Araújo & Filhos”. Sob tais condições, os irmãos fundam “O Exemplo”.
O ofício de cirurgião-barbeiro foi legado aos filhos, de modo que, em 1897, Florêncio adquiriu o salão de barbeiro para si. Esperidião seria responsável por refundar “O Exemplo” em 1902, ao lado de Tácito Pires e Vital Batista.
Quanto à função profissional, Florêncio atuava como dentista; todavia, não permaneceu no ofício após o falecimento do pai. Fez concurso público e tornou-se escrevente do Conselho Municipal. Na década de 1930, ostentava a patente de major da Guarda Nacional e chegaria a ser coronel. Também foi correligionário do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). Florêncio tinha boa reputação, poderio financeiro e gostava de oferecer festas.
Esperidião encontrava-se trabalhando em uma barbearia na Rua da Aurora no ano de 1910. Era residente da Rua Vigário José Inácio, antiga Rua do Rosário, onde se localizava sua irmandade. Na década de 1920, ingressou no funcionalismo público e no PRR, sem, no entanto, possuir patentes na Guarda Nacional. Sua trajetória foi marcada, principalmente, por seu empenho em denunciar o racismo na sociedade, com destaque para a educação. Relatou experiências de seu tempo escolar, em que o professor segregava alunos negros e brancos, para mostrar a persistência de costumes escravistas e inspirar pais e alunos a utilizarem educação e instrução como ferramentas de luta contra o preconceito. Propôs a criação de uma escola noturna para trabalhadores, “Escola Noturna O Exemplo”, e esteve envolvido com o projeto de acolhimento e educação de crianças, “Asilo 13 de Maio”, porém nenhuma das ideias se concretizou. Anna Maria de Lima constava como uma das apoiadoras do projeto do asilo, mulher que, em 1921, casou-se com Esperidião.
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