As Fazendas do Vale do Paraíba foram propriedades rurais de destaque no período cafeeiro e possuem uma configuração espacial e arquitetura específicas desse tipo de cultivo agrícola.
Vale do Paraíba O Vale do Paraíba como um todo, mas principalmente sua porção paulista, teve grande importância para a história da Independência e do Império do Brasil, devido a sua relevância política e econômica no contexto de formação do Estado brasileiro.
Politicamente, a região foi palco da passagem da comitiva de D. Pedro I no contexto do “Grito do Ipiranga”. Em 1822, saindo do Rio de Janeiro rumo a São Paulo em busca de apoio político, o então príncipe e futuro Imperador do Brasil passou por localidades como Bananal, Areias, Lorena, Guaratinguetá, Pindamonhangaba, Taubaté, Jacareí, entre outras cidades e vilas da região, angariando homens para suas tropas e criando na ocasião os primeiros títulos de nobreza em referência à região vale-paraibana. O ciclo do café foi um período da história econômica do Brasil, iniciado em meados do século XIX e findado em 1930, no qual o café foi o principal produto da economia brasileira. A produção de café se desenvolveu rapidamente ao longo do século XIX, de modo que na década de 1850 já era responsável por quase metade das exportações brasileiras. A região centro-sul foi escolhida para o plantio por oferecer as condições climáticas mais apropriadas e por ter solo mais adequado, conforme as necessidades do cafeeiro. A primeira grande região cultivada foi o Vale do Rio Paraíba (entre São Paulo e Rio de Janeiro). miniaturadaimagem|Vista aérea do Vale do Paraíba Economicamente, o Vale do Paraíba paulista foi central para a primeira expansão da produção cafeeira, motor principal da economia brasileira durante o século XIX e início do século XX, atingindo seu apogeu nas décadas de 1850 e 1860, quando o país praticamente dominava o mercado internacional do produto. Isso explica a razão pela qual os nobres da região eram conhecidos como “barões do café”.
Tendo começado a ser cultivado em 1825, o vale reunia, em meados do século XIX a "maior parcela da riqueza brasileira". As plantações seguiam o padrão das grandes plantations estadunidenses — vastas propriedades monoculturais que usavam trabalho escravo. Subindo o Rio Paraíba, os cafezais atingiam São Paulo e a região fronteiriça de Minas Gerais.Edriano Abreu, Isabel Cristina Leite, Regiani Moutone Viviane Silva Gonzaga (2021). «Bernoulli 2a Série Ciências Humanas e Linguagem - Volume 1». Belo Horizonte: Editora DRP Ltda.a fazenda brasileira era o correspondente exacto da habitation das colonias francezas: a grande propriedade territorial, constituia grande estabelecimento agricola, comprehendendo lavouras e agrupando em torno da casa do senhor, senzalas, fabricas, e cercado.Affonso Taunay. Historia do Café No Brasil Volume 8 Tomo Vi. Departamento Nacional do Café, 1939.
Configuação espacial miniaturadaimagem|Fazenda de Café do Vale do Paraíba, de Benedito Calixto de Jesus - Acervo do Museu Paulista da USP A organização espacial das edificações no espaço físico está alinhada àquela típica das fazendas do período: em quadros ou em pátios.A configuração espacial em quadros, tendo o casarão em posição de destaque, permitia uma fácil verificação das atividades no conjunto das edificações, [...] ampliada quando as atividades aconteciam em pátios fechados à frente do casarão. Assim, estavam em jogo, [...] tanto o controle da mão-de-obra escrava, subjugada pela possibilidade de castigos corporais e por uma legislação extremamente favorável ao fazendeiro, como o próprio controle do trabalho ali desenvolvido.O terreiro era uma superficie plana pintada de branco para absorver e concentrar o calor do sol, para agilizar ao máximo a secagem dos grãos. As edificações e todas as suas aberturas eram voltadas para esse enorme vazio central. Nesse espaço inóspito, alguns poucos escravizados revolviam os grãos de café que "se estendem sobre um cimento de brancura ofuscante cuja claridade, sob um céu escaldante, é insuportável e obriga logo a gente a descansar a vista em algum trato de verdura." Até por isso o casarão ficava um pouco afastado do terreiro e era separado dele por um jardim.Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
O casarão ligação=https://pt.wikibooks.org/wiki/Ficheiro:Elementos_arquitet%C3%B4nicos_recorrentes_em_casar%C3%B5es_de_fazendas_de_caf%C3%A9.png|direita|semmoldura O casarão estava geralmente posicionado em destaque dentro do quadrilátero que cercava o terreiro, de onde era possível fiscalizar as atividades que aconteciam na fazenda. Entre o terreiro e o casarão, geralmente, havia um jardim para "descansar a vista da brancura ofuscante do terreiro".Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.
As varandas amplas recebiam viajantes, negociantes, parentes, amigos e vizinhos. A movimentação dos tropeiros com seus burros carregados de café era contínua. Desciam para os portos levando a produção e voltavam trazendo ferramentas, sal, tecidos e outros artigos necessários à vida rural. Apesar da má qualidade das estradas e das viagens demoradas, o comércio fluía e enriquecia os barões.Affonso D'Escragnolle Taunay. A propagação da cultura cafeeira. 1934
Até a década de 1870, as edificações eram construídas em terra, geralmente em taipa de pilão, adobe e pau-a-pique). Boa parte delas, está deteriorada pelo tempo, pela falta de manutenção, pelo abandono ou pela depredação.MARIA SALETE PERRONI. Construções históricas no Vale do Paraíba Paulista: caracterização de materiais de alvenaria usados nas edificações com terra. Dissertação (Mestrado - Ciências) Programa de Pós Graduação Mudança Social e Participação Política, Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
No Vale do Paraíba, a casa do rico fazendeiro de café tinha áreas muito generosas para a recepção e o convívio geral; espaços sociais onde aconteciam os saraus, os recitais e a sociabilidade em si. Isso pode ser visto em Bananal nas Fazendas Resgate, Coqueiros e Boa Vista. As plantas dos casarões geralmente são em formato de L, e mesmo as que não seguem esse padrão são divididas em três zonas de acessibilidade: área social, zona íntima (acesso limitado) e zona de serviços. ligação=https://pt.wikibooks.org/wiki/Ficheiro:Vista_parcial_da_sala_de_jantar_quando_ainda_%C3%ADntegra_23.png|miniaturadaimagem|Fazenda Rialto - Efeito tromp-l'oeil Algumas das principais fazendas tinham paredes cuidadosamente pintadas por artistas contratados para tal: pinturas imitando papeis de parede, com efeitos de perspectiva e adornadas com temas relacionados à própria fazenda e ao café. Um dos pintores que atuou em diversas fazendas do Vale do Paraíba Paulista foi José María Villaronga.
No final do séc. XIX, a elite cafeeira queria a elegância dos franceses. Para isso, havia um sistema de venda de decoração e de utensílios domésticos com comissários, mascates e caixeiros viajantes, que representavam lojas especializadas, que traziam os produtos da França.Scarpeline, Rosaelena. Arte doméstica e decorativa no universo rural paulista: inventário e preservação. Tese (Doutorado) Unicamp, Campinas, 2019.
Os mascates eram imigrantes sem habilidade comercial e fluência em língua portuguesa. Os caixeiros viajantes eram funcionários do comércio, que tinham formação em vendas e costumavam herdar os negócios dos patrões. Ambos não levavam as mercadorias consigo. Levavam catálogos e ou amostras, de onde as famílias escolhiam o que era do seu gosto e encomendavam para receber na próxima visita do vendedor.
Após 1880, os produtos chegavam do porto até o interior do Estado de São Paulo por estrada de ferro: os vagões levavam o café e voltavam com jornais, revistas, móveis, louças, adornos, vestimentas, ferramentas etc.
Estalagens para viajantes Algumas das fazendas disponibilizavam estalagens ao lado das estradas, de modo que os viajantes pudessem ter pouso e comida mediante pagamento. De modo geral, Augusto Emílio Zaluar comentou sobre aquelas por onde passou entre 1860 e 1861 que cômodos, serviços e preços era bem arbitrários, e dependiam do humor momentâneo do chefe da casa. Não havendo "direito, autoridade, nem lei que prevaleça ao sequestro imediato desta implacável justiça de aldeia". Se o viajante não pudesse pagar, podia hipotecar animais, bagagens e pajens.ZALUAR, Augusto-Emílio. Peregrinação pela Província de S.Paulo (1860-1861). São Paulo: Livraria Martins Editora, 1976. 237 p. ( Biblioteca histórica paulista, 2 )
As refeições servidas (almoço, janta e ceia) eram compostas por arroz, feijão, carne de porco, farinha e vinho, e a depender do viajante, acrescentavam-se uma galinha ensopada e um prato de ovos estrelados. E o preço pago por isso dependia da finesse do hóspede: variando entre dez e cem. Até o capim para os animais era pago, mas provavelmente não lhes era dado.
Sociabilidade Nesse período, havia um trinômio em voga: latifúndio-escravaria-família. O que significava que o número de filhos das famílias cafeicultoras era proporcional ao número de pessoas escravizadas que possuíam. Essa estrutura familiar grande foi possibilitada pela melhoria de condições de vida proporcionada pela riqueza trazida pelo café. As alianças matrimoniais eram realizadas de modo a ampliar as posses e o status das famílias, ampliando não somente o cafezal mas também seu poder político.DE MOURA, Carlos Eugênio Marcondes; LANNA, Ana Lucia Duarte; SAIA, Luís; CARRILHO, Marcos José. Fazendas de café do Vale do Paraíba: o que os inventários revelam, 1817-1915. São Paulo: Condephaat, 2014.A rotina dos escravizados, nos cafezais, consistia em limpar o terreno, plantar e colher. Após a colheita, o café era lavado e exposto ao sol para a secagem.Ruth Aparecida Sales Philippini. Fazenda de café do Vale Histórico: perspectiva de práticas educativas de história e cultura afrobrasileiras em espaços não formais de educação. 2019.
Categoria:Fazendas do estado de São Paulo