Tiago Amorim, nome artístico de Sebastião Wilson Ferreira de Amorim (Limoeiro, 9 de janeiro de 1943), é um artista plástico brasileiro, reconhecido sobretudo como ceramista, além de pintor, desenhista, escultor, gravador e pesquisador. Radicado há décadas em Olinda, é considerado um dos nomes de referência da arte popular e do artesanato de Pernambuco, sendo tratado por "Mestre Tiago Amorim" em publicações dedicadas à salvaguarda do artesanato de tradição cultural brasileira.
Sua obra em cerâmica é marcada pela transformação de peças utilitárias tradicionais como jarros, moringas e potes em formas zoomorfas e antropomorfas, com destaque para representações de aves, peixes, cavalos e do corpo feminino. Foi homenageado no Carnaval de Olinda em 2013 e integra, desde as primeiras edições, a Alameda dos Mestres da Fenearte.
Biografia
Origem e formação Nasceu em Limoeiro, no Agreste pernambucano, em 9 de janeiro de 1943 (algumas fontes registram o dia 8), filho batizado com o nome de Sebastião Wilson Ferreira de Amorim. Mudou-se ainda criança para a Região Metropolitana do Recife. Desde a infância teve contato intenso com atividades criativas e manuais, organizando cartazes e programação de eventos escolares no Grupo Escolar Sigismundo Gonçalves e colaborando em sessões de cinema e apresentações cênicas no Colégio São Bento, onde um trabalho seu em modelagem chegou a ser selecionado para uma mostra na Alemanha.
Ingressou como noviço no Mosteiro de São Bento, em Olinda, com o objetivo de se tornar monge beneditino. Foi nesse período que adotou o nome Tiago do hebraico, associado ao sentido de "o vencedor" em substituição a Sebastião. No mosteiro, reativou oficinas de cerâmica, tapeçaria, pintura e encadernação, que atraíam artesãos populares como José Rodrigues e Manoel Inácio, discípulos de Mestre Vitalino, além de ter recebido aulas de técnica cerâmica do ceramista português Alberto Santos, que também trabalhara na fábrica de Ricardo Brennand. Dedicou-se ainda ao estudo de filosofia, formação que, segundo relatos posteriores, influenciou sua maneira de pensar e produzir arte.
Ainda como noviço, viajou a Caruaru e a Tracunhaém para aprender diretamente com artesãos locais as técnicas tradicionais da cerâmica nordestina, sendo bem recebido por já usar hábito e tonsura. Depois de deixar a vida monástica, permaneceu em Olinda, cidade que adotaria como base criativa, e aprofundou o convívio com artesãos de Caruaru e Tracunhaém, além de frequentar curso livre da Escola de Belas Artes.
Ateliês, Movimento da Ribeira e Oficina 154 A partir de 1959, Tiago Amorim aproximou-se de artistas que começavam a instalar ateliês em Olinda, como Montez Magno e Anchises Azevedo, dedicados à pintura abstrata; com Montez Magno, teve contato com referências ligadas à cibernética, à arte cinética e à pop art. Em 1962 expôs no Atelier de Arte Sacra São Bento, em Recife.
Após deixar o mosteiro, participou em 1964 da formação do Mercado da Ribeira, em Olinda, ao lado de artistas como Adão Pinheiro, Guita Charifker, João Câmara e outros. Em 1965, integrou o grupo de doze artistas do chamado Movimento da Ribeira que participou da VIII Bienal de São Paulo; por divergências políticas, o grupo foi posteriormente afastado da Ribeira e fundou a Oficina 154, período em que vários artistas como Delano, Raul Córdula e Roberto Lúcio passaram a se instalar em Olinda. Seu ateliê funcionou por um período, na década de 1970, no Alto da Sé de Olinda, tornando-se ponto de encontro de músicos nordestinos de projeção nacional, como Gilberto Gil, Alceu Valença, Caetano Veloso, Fagner, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho e Naná Vasconcelos.
Executou também painéis em madeira, entre os quais se destaca um painel para uma agência do Banco Bamerindus na Avenida Paulista, em São Paulo, desenvolvido junto a Adão Pinheiro e José Barbosa a partir de uma pesquisa sobre entalhe que combinava o equilíbrio simétrico renascentista à tradição da xilogravura popular.
Obra e processo criativo Tiago Amorim atua como multiartista, transitando entre cerâmica, pintura em tela, gravura, entalhe em madeira e desenho, além de escrever poesia. Suas peças cerâmicas têm como temas recorrentes o corpo feminino e elementos da natureza como peixes, aves, cavalos e cajus, partindo da transformação de modelagens tradicionais para atribuir-lhes novos significados.
A parceria com a arquiteta e designer Janete Costa foi determinante para que passasse a usar jarros, moringas e vasos como ponto de partida para a criação de formas zoomorfas e antropomorfas; suas cumbucas em forma de peixe, por exemplo, derivam de vasos partidos ao meio, cujo gargalo estreito se transforma na cauda do animal. As formas arredondadas e voluptuosas características de seu trabalho remontam à observação, em Tracunhaém, do processo de modelagem do ceramista Mané Roque, cujas jarras pela metade, vistas em fileira, sugeriram ao artista a forma de corpos femininos incompletos observação que o levou a desenvolver peças com corpos de mulher e, em algumas composições, cabeças de zebu, cavalo ou outras figuras híbridas.
Outras séries de sua produção, como os chamados "pelicanos" e os aves marinhas inspiradas em uma experiência em Fernando de Noronha, nascem da combinação e repetição de formas simples, como a gota. Sobre esse princípio criativo, o artista já declarou que a forma mais simples que se pode ter é uma gota, e que essa gota se transformou em mulher em seu trabalho.
Com domínio técnico de misturas de argila e minerais, adquirido junto a artesãos de diferentes tradições populares e ao ceramista português Alberto Santos
, produz porcelanas, faianças, pirocerâmica e outros materiais, dominando ainda acabamentos como esmaltes e vitrificados. Sua obra é descrita como capaz de transitar entre o circuito da arte popular, ligado à cerâmica utilitária, o circuito da arte erudita e uma vertente mais "pop", ligada à cultura de massas.
Na pintura, desenvolveu um estilo pontilhista analisado pelo artista Montez Magno como resultado da necessidade de preencher o espaço da tela com elementos menores e autônomos, produzindo um efeito de dinamismo vibrátil e um lirismo policromático avesso ao trágico. Já a escritora Ladjane Bandeira associou a recorrente recriação de figuras verdes em sua pintura a uma forma de poesia surreal.
Sua produção gráfica inclui capas de discos, como "A Feira" (associada ao Quinteto Violado), "Estação do Frevo" (Carlos Fernando) e "Intuição" (Teca de Carvalho), além do encarte de "Estação da Luz", de Alceu Valença, e capas de livros, entre elas a de "Vocação e Compromisso", do senador Marco Maciel, e ilustrações para obra de Luís da Câmara Cascudo.
Atuação como gestor cultural Desde a década de 1970, Tiago Amorim passou a atuar junto a prefeituras e secretarias de governo em iniciativas de valorização e organização da produção artesanal de Pernambuco, tendo participado da formação do Sistema de Incentivo à Cultura do estado. Ocupou o cargo de diretor de Cultura da Fundação de Cultura, Turismo e Esportes de Olinda em 1991, foi diretor de Cultura do município de Tracunhaém entre 1996 e 1997 e retornou, em 1997, à direção da Cultura da Secretaria de Patrimônio Cultural de Olinda. Participou também de projetos ligados ao Programa do Artesanato Brasileiro, do então Ministério de Ação Social.
Mantém ateliê-residência no bairro do Alto da Mina, em Olinda, onde desenvolve o projeto homônimo, voltado a oficinas de cerâmica, música e alfabetização para crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social; as atividades, oferecidas gratuitamente, ocorrem regularmente e abrem o ateliê à visitação pública.
Exposições e reconhecimento Ao longo da carreira, participou de numerosas exposições individuais e coletivas, salões e bienais no Brasil e no exterior, incluindo o XIX Salão Nacional de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, e a I Bienal Nacional de Artes Plásticas, em Salvador, além de mostra na sede da UNESCO, em Paris. Recebeu prêmios em salões pernambucanos, como o 1º lugar na mostra de Pintura Mural Coletiva do Museu do Estado de Pernambuco, em 1989.
Foi um dos artistas homenageados pelo Carnaval de Olinda de 2013. Em 2017, realizou na Arte Plural Galeria a exposição individual "Da Gênese ao Apocalipse", sua primeira mostra solo desde 2005, reunindo pinturas, esculturas em cerâmica e o tríptico homônimo, concebido como releitura de um mural seu já destruído que integrava o acervo do Museu do Estado de Pernambuco. Em 2020, a mostra "A Multíplice Arte de Tiago Amorim", com curadoria de Laurindo Pontes, ocupou o Barrio Café e Bar e o Solar da Marquesa, em Olinda.
Obras suas integram acervos como os do Banco do Brasil (agência Sete de Setembro, Recife), do Tribunal Regional do Trabalho de Pernambuco, do Museu do Homem do Nordeste e do Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco. Em 2024, participou da exposição coletiva "Cosmo/Chão", na Oficina Cerâmica Francisco Brennand, em Recife.
Em 2025, Tiago Amorim foi homenageado na 25ª edição da Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte) em reconhecimento à sua contribuição para a cultura popular pernambucana. Devido a problemas de saúde, o artista não pôde participar da tradicional Alameda dos Mestres, sendo celebrado por meio de uma mostra especial no Espaço Janete Costa.
Em reportagem televisiva, a Rede Globo Pernambuco destacou sua trajetória por ocasião das homenagens do Carnaval de Olinda.
Ver também Francisco Brennand Mestre Vitalino Janete Costa Arte popular brasileira
Referências
Ligações externas Centro de Artesanato de Pernambuco Verbete na Enciclopédia Itaú Cultural Perfil na Exposição Arte dos Mestres
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