Albano Silvino Gama de Carvalho das Neves e Sousa ComM • ComIH (Matosinhos, Portugal, 15 de janeiro de 1921 – Salvador, Bahia, Brasil, 11 de maio de 1995), conhecido como Albano Neves e Sousa, foi um pintor, poeta, escritor e etnógrafo luso-angolano. Foi uma figura de destaque na história da arte angolana, e sua obra está profundamente ligada às culturas de Angola e do Brasil. Neves e Sousa documentou e divulgou a prática marcial angolana n'golo, destacando semelhanças entre essa tradição e a capoeira. Alguns pesquisadores apontam o n'golo como uma possível influência no desenvolvimento da capoeira, embora a natureza e a extensão dessa relação permaneçam debatidas. Seus desenhos de engolo da década de 1950 tornaram-se importantes documentos visuais para os estudos sobre as possíveis conexões entre tradições de combate angolanas e a capoeira.

Biografia

Albano Neves e Sousa nasceu a 15 de janeiro de 1921, em Matosinhos, durante uma das viagens da sua família a Portugal. Pintor, também se dedicou à escultura e à literatura, escrevendo poesia e prosa que complementam sua visão artística. A vida em Angola e estudos em Portugal Ainda jovem, voltou para Angola com a família, estabelecendo-se em Andulo, na província de Bié. Entretanto, foi enviado para Luanda para frequentar o ensino secundário, aí descobrindo o seu talento para a pintura. Em 1936, com 15 anos de idade, realizou sua primeira exposição em Andulo, apresentando aquarelas, desenhos e caricaturas. Passou a maior parte de sua vida em Angola, viajando extensivamente pelo território, produzindo desenhos e pinturas inspirados por suas paisagens, pessoas e vida selvagem. Em 1937, realizou sua primeira exposição individual em Luanda. A sua carreira avançou significativamente quando se juntou à missão de estudos etnográficos do Museu de Angola, experiência que lhe permitiu explorar as diversas paisagens e culturas de Angola, influenciando suas obras artísticas.

Em 1943, recebeu uma bolsa da Câmara Municipal de Luanda para estudar Belas Artes no Porto. Em Portugal, durante esse período de estudante da Escola Superior de Belas-Artes do Porto, colaborou com diversos grupos artísticos e ganhou vários prémios, nomeadamente "José Meireles Jr.", "Centenário Soares dos Reis", "Três Artes", "Rodrigo Soares", "Rotary Club do Porto 1950" e "Rotary Club do Porto 1951". Ao retornar a Luanda em 1952, Sousa enfrentou críticas da mídia cultural por suas primeiras exposições, que foram vistas como imitações do cubismo. No entanto, continuou a evoluir como artista e ganhou reconhecimento tanto local quanto internacionalmente. A sua carreira incluiu inúmeras exposições e viagens para países como África do Sul, Jugoslávia, Bélgica, Brasil, Espanha, todos os PALOP e Portugal, entre outros. Por volta de 1955, a "dança n'golo" foi documentada por Albano Neves e Sousa durante uma visita a Mucope, na província do Cunene.

Em 1965, Albano Neves e Sousa visitou a academia do Mestre Pastinha em Salvador, Brasil, onde apresentou informações sobre uma prática angolana semelhante à capoeira, chamada n'golo. Segundo relatos, após observar a capoeira praticada na academia, Neves e Sousa destacou as semelhanças entre as duas práticas. Seu testemunho contribuiu para os debates sobre as possíveis conexões históricas entre tradições de combate angolanas e a capoeira, embora a natureza e a extensão dessa relação permaneçam discutidas entre pesquisadores.

Ao retornar a Angola em 1966, Neves e Sousa organizou uma exposição intitulada "Da minha África e do Brasil que eu vi", destacando semelhanças culturais entre expressões africanas e afro-brasileiras.

Entre os seus livros de poesia merecem destaque: “Motivos Angolanos” (1946), “Mahamba, Poesias” (1943-1949) e “Muênho” (1968), estando poemas seus presentes em diversas antologias.

Vida no Brasil

Em 1975, Sousa foi contratado para decorar um Boeing 737 angolano, o que o levou a viajar para os Estados Unidos da América. Quando a Guerra Civil Angolana começou naquele ano, mudou-se para o Brasil, estabelecendo-se em Salvador, com sua esposa, Maria Luísa. Aí encontrou inspiração na cultura e nas paisagens locais para pintar, e também escreveu um livro intitulado "Olohuma", refletindo suas experiências na Bahia. Suas obras continuaram a ser influenciadas pelo legado do comércio transatlântico de escravos e pela forte presença cultural africana na Bahia. Sousa celebrou as semelhanças e conexões entre a Bahia e Angola, particularmente através do foco de sua arte em paisagens, pessoas, costumes e espiritualidade. Reconhecimento Foi condecorado pelo Presidente da República Portuguesa com os graus de: 80px Comendador da Ordem do Mérito (23 de abril de 1987); 80px Comendador da Ordem do Infante D. Henrique (22 de novembro de 1963).

Foi agraciado, entre outros, com os seguintes prémios: 1º prémio de aguarela da I Exposição de Artes Plásticas de Luanda; 2º prémio de pintura da Casa de Metrópole, em Luanda; medalha de bronze de "Caça e Pesca", Dusseldorf, Alemanha, 1954; 1º prémio, pastel, na exposição de artes plásticas da Câmara Municipal de Luanda, 1967; menção honrosa na Exposição Internacional de Desenho em Rijeka, Jugoslávia, 1970; medalha de ouro de desenho na Academia de Pontzen, Nápoles, Itália, 1974.

As suas obras fazem parte do acervo de diversos museus, nomeadamente, nos Açores, Ovar, Caramulo, Pontevedra, Angola e Moçambique, da Fundação Calouste Gulbenkian, do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, do Museu Nacional Soares dos Reis, do Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará; bem como estão presente em muitas coleções particulares em Portugal e no estrangeiro.

Sob coordenação de Miguel Anacoreta Correia e edição da Sextante Editora-Iniciativas Editoriais Livreiros, Lda., com fotografias de Hélder Ferreira e textos, entre outros, de Barão da Cunha, Jorge Amado, Lima de Carvalho e Luísa Neves e Sousa,em 2008, foi publicado o livro “Neves e Sousa, pintor de Angola”, cujo lançamento teve lugar a 25 de outubro, na Livraria-Galeria Verney, em Oeiras, com apresentação da 2.ª edição a 11 de dezembro, na sala de âmbito cultural do El Corte Inglês de Lisboa,

Em sua homenagem, desde maio e até agosto de 2026, está patente ao público, no Arquivo Nacional de Angola, a exposição “O Museu Imaginário”. Espólio artístico O ministro da cultura de Angola, Filipe Zau, anunciou, em maio de 2026, no final da 1ª Jornada Nacional dos Museus de Angola, que a família do pintor português Neves e Sousa vai doar ao país o espólio de 3000 desenhos, como era vontade do artista.

Família

É irmão da artista plástica e escultora Teresa Gama (Neves e Sousa) (1936–2004) e ambos filhos de Albano das Neves e Sousa Júnior, natural de Coja (Arganil), do distrito de Coimbra e netos do farmacêutico Albano Neves e Sousa e proprietário da farmácia Neves”Neves e Sousa pintor e poeta entre Angola e o Brasil”, por Leonel Cosme, in Cultura - Jornal Angolano de Artes e Letras, 20 de novembro de 2016, p. 10-11, consultado em 1 de julho de 2026

Ligações externas Vídeos com Obras de Albano Neves e Sousa

Neves e Sousa, O último exótico - Alberto Oliveira Pinto - lembra-te, Angola Ep. 183

Categoria:Nascidos em 1921 Categoria:Mortos em 1995 Categoria:Naturais de Matosinhos Categoria:Pintores de Portugal Categoria:Pintores de Angola Categoria:Poetas de Portugal Categoria:Artistas de Angola Categoria:Homens do século XX Categoria:Portugueses do século XX