Sismos na Venezuela de 2026 foram dois sismos de forte magnitude ocorridos em sucessão em 24 de junho de 2026, no centro-norte da Venezuela. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o primeiro ocorreu às 22h04min33s UTC, a 24 km a leste-nordeste de San Felipe, no estado de Iaracui, e teve magnitude de momento de 7,2 e profundidade de 21,9 km. O segundo, de magnitude 7,5 e a 10 km de profundidade, ocorreu 38 segundos depois, a 16 km a sudoeste de Morón, no estado de Carabobo.
Os abalos foram sentidos em Caracas, em diversas regiões venezuelanas, na Colômbia e no norte do Brasil. Em Bogotá e Bucaramanga, foram relatadas evacuações preventivas de alguns edifícios. No Brasil, moradores de Manaus relataram ter sentido o tremor, enquanto em Belém ocorreram evacuações preventivas de prédios em alguns bairros.
Em 10 de julho, o balanço oficial vítimas foi actualizado para 4 118 mortos e 12 666 feridos. No último balanço governamental detalhado sobre os danos, divulgado em 29 de junho, 15 866 pessoas tinham ficado desalojadas e 855 edifícios tinham sido avaliados como danificados, dos quais 189 colapsaram totalmente.
Em 28 de junho, a plataforma promovida pela oposição registava pouco menos de 50 000 pessoas sem contacto, número inferior aos cerca de 55 000 registados no dia anterior. A agência distinguiu esses registos do balanço governamental, que se referia a centenas de pessoas desaparecidas ou soterradas. Os números da plataforma não equivalem, portanto, a uma contagem oficial de desaparecidos, podendo incluir pessoas incomunicáveis devido às falhas de rede, registos duplicados ou casos ainda não verificados individualmente. Em 1 de julho, a Reuters referiu ainda uma lista informal amplamente utilizada que registava 40 567 pessoas dadas como desaparecidas, sem a apresentar como balanço oficial.
Contexto tectónico thumb|Contexto tectônico da Venezuela, entre a Placa do Caribe, a Placa do Norte dos Andes e a Placa Sul-Americana|esquerda|249x249px
O norte da Venezuela situa-se numa fronteira tectónica complexa entre a Placa do Caribe e a Placa Sul-Americana. De acordo com a Fundação Venezuelana de Investigações Sismológicas (FUNVISIS), a interacção entre estas placas origina uma ampla zona de falhas activas no norte do país.
O movimento relativo entre ambas as placas é oblíquo e a deformação não se concentra numa única falha, distribuindo-se por uma larga faixa de estruturas activas, incluindo falhas de desligamento lateral e estruturas compressivas.
Entre os principais sistemas de falhas quaternárias do norte e noroeste venezuelano encontram-se os sistemas Boconó–San Sebastián–El Pilar e Oca–Ancón. A cartografia do USGS identifica numerosas falhas activas ou potencialmente activas, tanto no território continental como na margem marítima adjacente.
Segundo Feliciano De Santis, presidente da Sociedade Geológica Venezuelana e professor da Universidade Central da Venezuela, as falhas activas do norte do país são predominantemente transcorrentes, pelo que os grandes sismos tendem a ter períodos de recorrência mais longos do que em zonas de subducção. O geólogo afirmou que cerca de 80% da população venezuelana vive sobre as falhas transcorrentes mais activas e que as principais cidades se situam junto à fronteira entre as placas Sul-Americana e das Caraíbas.
Sismos O Serviço Geológico dos Estados Unidos classificou os dois eventos principais como um dupleto sísmico, isto é, uma sequência de dois sismos fortes ocorridos próximos no tempo e no espaço. Segundo o organismo, o primeiro abalo, de magnitude 7,2, constituiu um sismo premonitório ou evento precursor, seguido 38 segundos depois pelo sismo principal, de magnitude 7,5. Nas primeiras horas após o evento, várias agências noticiosas referiram para o primeiro abalo uma magnitude preliminar de 7,1 e uma profundidade de cerca de 13 km; o catálogo do USGS passou, contudo, a identificá-lo como de magnitude 7,2 e profundidade de 21,9 km.esquerda|miniaturadaimagem|Imagem de radar interferométrico dos satélites Sentinel-1, baseada na comparação de observações de 18 e 25 de junho, mostrando a deformação do terreno no centro-norte da Venezuela após os sismos.
Após os sismos, o sistema norte-americano de alerta de tsunamis emitiu inicialmente comunicações para Porto Rico e as Ilhas Virgens, bem como advertências sobre possíveis ondas perigosas para ilhas do Caribe Holandês, incluindo Aruba, Curaçau e Bonaire. O alerta foi retirado cerca de uma hora depois, quando o sistema concluiu que já não subsistia ameaça de tsunami para as regiões abrangidas.
A actividade de réplicas prolongou-se nos dias seguintes. Na manhã de 25 de junho, Delcy Rodríguez informou que tinham sido registadas cerca de 30 réplicas desde os dois sismos principais; às 9h29, a Fundação Venezuelana de Investigações Sismológicas (FUNVISIS) elevou o número para 38, indicando que a mais recente ocorrera a 8 km a oeste de Naiguatá, com magnitude de 2,5. Mais tarde, Jorge Rodríguez declarou que o total se aproximava de 140. Em 26 de junho, Rodríguez afirmou que tinham sido registadas 214 réplicas e que dezenas de pessoas tinham sido resgatadas com vida dos escombros.
No mesmo dia, às 18h02 e 18h16 (VET), ocorreram dois outros abalos no centro-norte do país. O primeiro, de magnitude 2,9, foi localizado a 17 km a noroeste de San Felipe. Para o segundo, junto à costa do estado de Aragua, a FUNVISIS indicou magnitude 4,9, profundidade de 4,6 km e epicentro a 50 km a noroeste de La Victoria, enquanto o USGS divulgara inicialmente uma magnitude preliminar de 5,4 e uma localização aproximada 44 km a norte de Maracay. O abalo foi sentido em Aragua, Carabobo, Miranda, La Guaira e no Distrito Capital, incluindo Caracas e Maracay, sem danos ou vítimas imediatamente comunicados.
Em 27 de junho, as réplicas continuavam a ser sentidas em Caracas e nas zonas mais afectadas, incluindo uma de magnitude 4,8, cuja hora e localização precisa não foram indicadas pela fonte. No mesmo dia, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha referiu que já tinham sido registadas cerca de 430 réplicas; em 28 de junho, Jorge Rodríguez elevou o total para 512.
Em 29 de junho, a FUNVISIS registou duas réplicas no estado de La Guaira. A primeira, às 7h01, teve magnitude 4,2, profundidade de 2,9 km e epicentro a 10 km a leste de La Guaira; o USGS estimou a magnitude em 4,6, enquanto o Serviço Geológico Colombiano indicou 5,1. A segunda, às 7h19, teve magnitude 2,7, profundidade de 5 km e epicentro a 10 km a sudeste de La Guaira. Segundo Jorge Rodríguez, não foram comunicados danos adicionais após o primeiro abalo. Mais tarde, Rodríguez referiu 609 réplicas desde os sismos principais; em 30 de junho, o total subira para 689. Numa síntese divulgada em 2 de julho, a EFE indicou que o número de réplicas tinha ultrapassado 780. A FUNVISIS comunicara quase 20 abalos no dia anterior; o mais forte teve magnitude 3,6, ocorreu às 6h28 e foi localizado a cerca de 50 km da costa de Miranda.
+ Parâmetros dos sismos segundo o USGS Sismo Hora (UTC) Hora local (VET) Magnitude Profundidade Localização aproximada Mapa de intensidade estimada Primeiro 22h04min33s 18h04min33s 7,2 Mw 21,9 km 24 km a ENE de San Felipe, Iaracui frameless|180px|alt=Mapa de intensidade estimada do primeiro sismo Segundo 22h05min11s 18h05min11s 7,5 Mw 10 km 16 km a SO de Morón, Carabobo frameless|180px|alt=Mapa de intensidade estimada do segundo sismo
Estimativa de impacto
O sistema Prompt Assessment of Global Earthquakes for Response (PAGER), do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), classificou o evento com alerta vermelho, indicando a probabilidade de numerosas vítimas, danos extensos e desastre de alcance generalizado.
Uma avaliação preliminar da NASA, baseada em imagens de radar dos satélites Sentinel-1 da Agência Espacial Europeia, estimou que 58 870 edifícios tinham sido danificados ou destruídos na região afectada. Em 29 de junho, uma análise do programa Copernicus identificou 434 edifícios totalmente colapsados e outros 1 304 potencialmente danificados na área afectada pelos sismos.
Segundo estimativa divulgada pelo USGS e noticiada pelo El País, havia uma probabilidade de 42% de o número de mortos ficar entre 10 000 e 100 000 pessoas, 33% de ficar entre 1 000 e 10 000, 17% de ultrapassar 100 000 e 8% de ficar entre 100 e 1 000. A estimativa económica preliminar apontava para perdas equivalentes a 1% a 7% do produto interno bruto venezuelano. Estas estimativas são probabilísticas e destinam-se ao apoio às operações de emergência, não constituindo um balanço oficial de vítimas nem uma previsão definitiva da evolução do desastre.
A Organização Internacional para as Migrações estimou que 6,76 milhões de pessoas poderiam ter sido afectadas pelos sismos, incluindo cerca de dois milhões em Caracas, num cálculo preliminar destinado a orientar a resposta humanitária. Uma análise inicial de imagens de satélite, realizada com o Microsoft AI for Good Lab, indicou que 31,5% dos edifícios de Catia La Mar poderiam ter sofrido danos, correspondendo a cerca de 100 edifícios; por assentar em modelização remota, esta estimativa não corresponde a um levantamento oficial de campo.
Em 26 de junho, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) estimou preliminarmente, com base numa avaliação por satélite do sistema RAPIDA, danos físicos directos de 6,7 mil milhões de dólares norte-americanos, equivalentes a cerca de 6% do produto interno bruto venezuelano. A estimativa indicou um intervalo entre 4,7 e 8,7 mil milhões de dólares e foi impulsionada sobretudo por perdas em habitação e activos económicos; não incluiu danos nas infra-estruturas, perturbações económicas mais amplas nem custos de reconstrução a longo prazo. Segundo estimativa preliminar do PNUD divulgada pela Agência Venezuelana de Notícias, os sismos geraram cerca de 1,2 milhões de toneladas de escombros no estado de La Guaira. Cerca de 915 mil toneladas correspondiam a estruturas danificadas e 332 mil a bens domésticos; Catia La Mar, Caraballeda e Urimare eram as zonas com maior impacto estimado. O cálculo, elaborado com a ferramenta Rapida a partir de imagens de satélite, inteligência artificial e dados de engenharia, permanecia sujeito a actualização.
Em 2 de julho, a empresa de modelação de riscos Verisk estimou que as perdas económicas provocadas pelos sismos ultrapassariam 10 mil milhões de dólares. A empresa situou os danos mais severos na região metropolitana de Caracas e no estado de La Guaira, onde estimou que cerca de 1 400 edifícios tinham sido destruídos. A Verisk advertiu que a estimativa das perdas seguradas apresentava incerteza acima do habitual, devido à inflação elevada, à baixa penetração de seguros e às particularidades do mercado venezuelano, incluindo as sanções. Esta estimativa de perdas económicas não é directamente comparável à avaliação RAPIDA do PNUD, centrada nos danos físicos directos. Cronologia A cronologia seguinte resume os principais acontecimentos registados desde os sismos de 24 de junho de 2026: