Corresponsabilidade de cuidados é o compartilhamento equitativo das tarefas de cuidado entre homens e mulheres, envolvendo a redistribuição do trabalho doméstico e de cuidados não remunerados entre os gêneros, bem como entre as famílias, o Estado e o mercado.Ministerio de Desarrollo Social. Corresponsabilidad de género. Uruguai, 2019. A corresponsabilidade busca responder às condições desiguais marcadas pela divisão sexual do trabalho, que sobrecarrega as mulheres com atividades de manutenção da vida, como trabalho doméstico, planejamento de rotinas e cuidado com pessoas, gerando prejuízos à sua inserção e progressão no mercado de trabalho, bem como ao acesso a tempo livre e lazer. A discussão sobre corresponsabilidade está ancorada em debates feministas e sociológicos sobre a organização social do cuidado e suas implicações para a igualdade de gênero.Hirata, Helena. O trabalho de cuidado. Sur Revista Internacional de Direitos Humanos, v. 13, p. 53-64, 2016.Araujo, Anna Bárbara. Da ética do cuidado à interseccionalidade: caminhos e desafios para a compreensão do trabalho de cuidado. Mediações, v. 23, n. 3, p. 43-69, 2018.Hirata, Helena; Kergoat, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, p. 595-609, 2007.Batthyány, Karina. Políticas del cuidado. In: Atlas de las desigualdades de género en América Latina. 2020.
Origens do debate sobre o cuidado O cuidado, enquanto componente central do bem-estar social, tem sido objeto de análise sob diferentes perspectivas, principalmente a partir da sociologia e das teorias feministas.
Ele inclui atividades indispensáveis para a manutenção da vida, como o cuidado direto (atenção imediata, física e cotidiana com pessoas dependentes, como higiene pessoal e supervisão) e indireto (atuação indireta, como na limpeza de ambientes, cozinha e preparação de alimentos) que podem acontecer nas casas e instituições. A casa é geralmente onde o trabalho de cuidado mais se realiza por mulheres, sendo organizado e distribuído no âmbito familiar. Ele está sempre associado a padrões de gênero e raça, onde as mulheres são a maioria na realização de trabalhos não remunerados e de empregos no setor de cuidadosHirata, Helena. Tendências recentes da precarização social e do trabalho: Brasil, França, Japão. Caderno CRH, v. 24, p. 15-22, 2011. A questão do cuidado não é apenas um fenômeno individual ou doméstico, mas se insere profundamente nas estruturas sociais, políticas e econômicas, sendo fundamental para a compreensão das desigualdades de gênero e das formas de organização do bem-estar social e da estabilidade familiar no ambiente doméstico.Fraser, Nancy. Contradições do capital e do cuidado. New Left Review, n. 100, p. 5-29, jul.-ago. 2016.
A divisão sexual do trabalho A divisão sexual do trabalho é o princípio que organiza a distribuição das funções entre o espaço doméstico e o espaço público a partir do gênero. Historicamente, existe uma divisão entre atividades de trabalho produtivo (feito de forma remunerada) e reprodutivo (não remunerado) entre homens e mulheres mediada por valores de gênero que estratificam lugares possíveis para homens e mulheres, além de naturalizar posições desiguais na distribuição de atividades que afetam questões diversas. Historicamente, as atividades de cuidado e manutenção do lar têm sido executadas por mulheres de forma gratuita, consistindo nessa manutenção da família e das mulheres, caracterizando-se como trabalho feminino não remunerado.
Um exemplo disso é quando o cuidado se torna obrigação, algo como um dever naturalizado e associado aos papéis familiares pelo amor, tornando-o invisível enquanto trabalho e precarizado quando é remunerado, e recai de maneira seletiva sobre mulheres, especialmente meninas, mães e avós, com maior intensidade entre mulheres e meninas negras.Guimarães, Nadya Araujo. A “crise do cuidado” e os cuidados na crise: refletindo a partir da experiência brasileira. Sociologia & Antropologia, v. 14, e230050, 2024.
Evidências empíricas da desigualdade na distribuição do cuidado no Brasil No Brasil, a permanência das mulheres como principais responsáveis pelo trabalho doméstico não remunerado é amplamente evidenciada pela literatura. Além do gênero, questões como classe, território, geração e raçaBRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Secretaria Nacional de Cuidados e Família. Trabalhadoras domésticas e políticas de cuidado. Brasília, DF, abr. 2023. Nota Informativa nº 2/2023. atravessam essa realidade, produzindo desigualdades significativas entre as próprias mulheres. Eventos como a maternidade aumentam significativamente o tempo dedicado pelas mulheres ao cuidado, especialmente quando há crianças menores.Pinheiro, Luana et al. Gênero é o que importa: determinantes do trabalho doméstico não remunerado no Brasil. Texto para Discussão, 2023. E que também é impactada pela chamada penalização da maternidade que envolve a discriminação de mulheres e mães, como demissões na volta da licença médica, assédio moral, dentre outros. A convivência com pessoas idosas ou com deficiência não costuma impactar o tempo masculino.
Marcadores sociais da diferença A distribuição do trabalho doméstico e de cuidados é influenciada por fatores como raça, classe, escolaridade, região e composição familiar. No Brasil, mulheres negras tendem a assumir maiores cargas de trabalho doméstico e de cuidado, especialmente quando são chefes de família. Estudos apontam que gênero, raça e classe estruturam desigualdades na organização do cuidado, contribuindo para a manutenção de hierarquias sociais tanto na família quanto no mercado de trabalho As normas de gênero influenciam a atribuição das responsabilidades de cuidado às mulheres ao longo da vida, começando na infância, quando meninas costumam realizar mais tarefas domésticas e de cuidado do que meninos.Grecco, Fabiana Sanches. Trabalhos domésticos e de cuidados sob a ótica da teoria da reprodução social. Mediações, v. 23, n. 3, p. 70-102, 2018.
A renda e o tempo também são importantes nessa equação. Fatores como emprego, renda e acesso a serviços influenciam a divisão do trabalho doméstico, mas não eliminam as desigualdades de gênero.Christopher, Emily. ‘It’s a man’s job’: doing gender and male gatekeeping in the division of household labor. Journal of Family Issues, v. 45, n. 11, p. 2851-2874, 2024. Mesmo quando participam do mercado de trabalho, as mulheres continuam realizando mais tarefas domésticas do que os homens, o que sugere a persistência de normas sociais que associam o cuidado e o trabalho doméstico ao feminino.
Desafios para a corresponsabilidade A corresponsabilidade de cuidados exige mudanças amplas nas estruturasRISMAN, Barbara J. Gender as a Social Structure. In: RISMAN, Barbara J.; FROYUM, Carissa M.; SCARBOROUGH, William J. (ed.). Handbook of the Sociology of Gender. 2. ed. Cham: Springer, 2018. p. 19-43. (Handbooks of Sociology and Social Research). DOI: 10.1007/978-3-319-76333-0_2. sociais, econômicasFranklin, Jane. Home economics: home and care in neoliberal policy. In: The New Politics of Home. Policy Press, 2019. p. 13-38. e culturais que sustentam a divisão sexual do trabalho.
Categoria:Sociologia do trabalho