Introdução Mario Pani Darqui (Cidade do México, 29 de março de 1911 – Cidade do México, 23 de fevereiro de 1993) foi um arquiteto e urbanista mexicano cuja atuação teve grande impacto na transformação urbana da Cidade do México ao longo do século XX. Em mais de cinco décadas de carreira, desenvolveu aproximadamente 136 projetos, sendo 66 arquitetônicos e 70 de planejamento urbano, abrangendo desde edifícios residenciais e equipamentos públicos até grandes conjuntos habitacionais e planos urbanísticos.

Sua produção esteve diretamente associada ao processo de modernização vivido pelo México no pós-guerra. Pani foi um dos principais responsáveis pela introdução do Estilo Internacional no país e pelo desenvolvimento da habitação vertical em larga escala, defendendo soluções que buscavam conciliar maior densidade urbana, áreas livres e equipamentos coletivos. Além da atuação profissional, destacou-se pela capacidade de articular arquitetos, engenheiros, construtores e órgãos públicos em torno de propostas que, naquele contexto, representavam mudanças importantes na forma de pensar a cidade e a moradia.

Carranza e Lara, em sua análise sobre a arquitetura moderna latino-americana, inserem a produção de Pani em um panorama regional mais amplo. Os multifamiliares mexicanos, iniciados pelo Centro Urbano Presidente Miguel Alemán (CUPA) em 1949, são apresentados ao lado de obras de Carlos Raúl Villanueva, Affonso Eduardo Reidy e Oscar Niemeyer como exemplos do momento em que a habitação pública alcançou grande escala na América Latina, tornando-se um dos principais instrumentos de modernização urbana no período.

Formação Filho de Dolores Darqui e Arturo Pani-Arteaga, Mario Pani passou parte da infância e da juventude na Europa, onde teve contato com diferentes contextos culturais e educacionais antes de retornar ao México. Sua formação escolar incluiu o Marist College, em Gênova, ligado à ordem dos Irmãos Maristas, o Colégio San Carlo, em Milão, e o Lycée Janson-de-Sailly, em Paris, onde concluiu o ensino secundário.

Posteriormente, ingressou na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris, uma das principais escolas de arquitetura da época, graduando-se após seis anos de estudos. A formação recebida na Beaux-Arts forneceu a Pani uma sólida base técnica e compositiva, ao mesmo tempo em que o aproximou dos debates sobre a arquitetura e a cidade moderna que estavam em curso na Europa.

Durante as décadas de 1920 e 1930, Paris era um importante centro de discussão sobre urbanismo e habitação, reunindo arquitetos e intelectuais interessados em novas formas de organizar a cidade. Nesse ambiente, Pani teve contato com as propostas de Le Corbusier, especialmente com a Ville Radieuse, modelo urbano que defendia edifícios de grande altura implantados em meio a extensas áreas livres, destinadas à circulação, ao lazer e aos equipamentos coletivos.

Essa influência seria decisiva em sua trajetória profissional, sobretudo na elaboração de grandes conjuntos habitacionais. Em entrevista concedida anos mais tarde, o próprio Pani afirmou que seu interesse pela habitação coletiva estava relacionado às teorias de Le Corbusier e à ideia da Cidade Radiante: “desde hacía mucho tiempo me preocupaba esta idea de la arquitectura habitacional. El origen del asunto es la teoría de Le Corbusier sobre la Ciudad Radiante”.

Atuação profissional Ao retornar ao México, Mario Pani iniciou uma trajetória profissional marcada pela adaptação dos princípios da arquitetura moderna às demandas de uma cidade em rápido crescimento. Sua atuação esteve voltada tanto para a arquitetura quanto para o urbanismo, buscando responder a questões relacionadas à expansão urbana, à habitação coletiva e à modernização da capital mexicana.

Além de projetar edifícios, Pani teve um papel importante na difusão das ideias modernas no país. Em 1938, fundou a revista Arquitectura México, publicação que circulou até 1979 e se tornou uma das principais plataformas de debate e divulgação da arquitetura moderna mexicana. Em 1946, participou também da fundação do Colégio Nacional de Arquitetos do México, contribuindo para a consolidação institucional da profissão.

Sua produção abrangeu uma grande diversidade de programas e escalas. Projetou hotéis, escolas, conservatórios, edifícios residenciais, conjuntos habitacionais e planos urbanos, sempre buscando conciliar densidade, racionalidade construtiva e integração entre espaços privados e coletivos. Em muitos casos, defendeu soluções que ampliavam significativamente a quantidade de unidades previstas inicialmente, convencendo clientes e autoridades da viabilidade técnica e econômica dessas propostas.

Entre suas principais obras e projetos, destacam-se:

Hotel Reforma – Paseo de la Reforma, Cidade do México (1936); Escuela Nacional de Maestros – Cidade do México (1945), em parceria com Enrique Yáñez; Conservatório Nacional de Música – Cidade do México (1946); Centro Urbano Presidente Miguel Alemán (CUPA) – Cidade do México (1947–1949), primeiro conjunto habitacional vertical de grande escala no México e primeiro projeto da construtora ICA; Centro Urbano Presidente Juárez – Cidade do México (1950), parcialmente destruído pelo terremoto de 1985; Ciudad Universitaria da UNAM – Cidade do México (1950–1953); Ciudad Satélite – Grande Cidade do México (1956); Torre Insignia (Torre Banobras) – Cidade do México (1962); Conjunto Habitacional Nonoalco-Tlatelolco – Cidade do México (1964), gravemente afetado pelo terremoto de 1985.

A obra de Pani é frequentemente associada às discussões sobre o urbanismo moderno e a habitação coletiva na América Latina. Seus projetos procuravam responder ao crescimento acelerado das cidades por meio de edifícios de maior densidade, amplas áreas livres e oferta de equipamentos coletivos. Ao mesmo tempo, algumas de suas propostas passaram a ser debatidas criticamente nas décadas seguintes, especialmente em relação aos limites e às contradições do urbanismo modernista, tema que se tornou evidente nas análises posteriores do conjunto Nonoalco-Tlatelolco.

O reconhecimento de sua produção ultrapassou o contexto mexicano. Em 2015, a exposição Latin America in Construction: Architecture 1955–1980, organizada pelo Museum of Modern Art (MoMA), em Nova Iorque, apresentou a Ciudad Universitaria da UNAM, desenvolvida por Mario Pani e Enrique del Moral, como uma das obras representativas da arquitetura moderna latino-americana. O conjunto foi inserido em um panorama mais amplo de experiências que buscaram articular modernização, tecnologia e identidade nacional na região.

Em 1986, Pani recebeu o Premio Nacional de Ciencias y Artes, na categoria Belas Artes, reconhecimento concedido pelo governo mexicano por sua contribuição à arquitetura e ao urbanismo do país.

Referências