O Edificio Plaza de Armas é um edifício de uso misto inaugurado em meados da década de 1950 no Centro Histórico de Santiago (Chile). Localizado na esquina das ruas 21 de Mayo, Monjitas e Santo Domingo, em posição diagonal à Plaza de Armas, o edifício foi projetado pelos arquitetos Sergio Larraín García-Moreno, Emilio Duhart Harosteguy, Jaime Sanfuentes e Osvaldo Larraín, uma das mais importantes parcerias da arquitetura moderna chilena do século XX.
Composto por uma lâmina horizontal destinada ao comércio nos quatro primeiros pisos e uma torre vertical residencial nos pisos superiores, o projeto foi um dos pioneiros a introduzir no Chile a tipologia Lâmina-Torre, amplamente difundida pelo Movimento Moderno Internacional nos anos 1950. É considerado um dos principais exemplares da arquitetura moderna em Santiago e um marco da renovação urbana do centro histórico da cidade no período desenvolvimentista.
História
Contexto histórico, político e econômico O edifício foi projetado e construído no início dos anos 1950, período de forte crescimento econômico e urbano no Chile sob os governos de Gabriel González Videla(1946–1952) e Carlos Ibáñez del Campo (1952–1958). O país vivia uma fase de industrialização por substituição de importações e de modernização das cidades, especialmente Santiago. O centro histórico da capital era alvo de investimentos imobiliários privados que buscavam rentabilizar o solo urbano valioso da área central através de edifícios de uso misto mais verticalizados.
O projeto foi encomendado pelo investidor privado Jorge Sarquis Nazim, que buscava o maior rendimento econômico de seu terreno privilegiado no Centro Histórico de Santiago, estratégia típica do momento, em que a valorização do solo apontava especialmente para o uso comercial.
Santiago nos anos 1950: crescimento e transformação urbana Santiago vivia nos anos 1950 um acelerado crescimento populacional e uma intensa transformação de seu tecido urbano central. O centro histórico, consolidado ao longo de séculos em torno da Plaza de Armas, passava a receber novos edifícios de maior altura que rompiam com a escala tradicional de fachada contínua. Até então, os edifícios do centro de Santiago se construíam formando um único grande volume, conectando-se aos vizinhos por fachada contínua e altura uniforme.
A chegada da tipologia de lâmina com uma torre, vinda da Europa e dos Estados Unidos, representou uma mudança nesse contexto: pela primeira vez, volumes de diferentes alturas e funções eram articulados em um mesmo edifício, liberando o espaço ao redor do edifício e criando uma nova relação com o espaço público.
Inserção no movimento arquitetônico O projeto se insere claramente no contexto do Movimento Moderno Internacional, especificamente na corrente do International Style, com influência direta das experiências norte-americanas e europeias dos anos 1940 e 1950. A tipologia Lamina-Torre adotada no Edifício Plaza de Armas era amplamente difundida nesse período como solução para edifícios mistos em centros urbanos densos, separando as funções públicas (comércio, galerias) das privadas (habitação) em volumes distintos e sobrepostos.
A obra representa, portanto, a chegada tardia mas impactante da lógica modernista ao centro histórico de Santiago, importando para o Chile um modelo tipológico que havia sido desenvolvido na Europa e nos Estados Unidos no pós-guerra, e que se tornaria referência para a arquitetura moderna chilena das décadas seguintes.
Arquitetura - Solução Projetual
Análise do projeto O projeto foi resolvido através da tipologia Lâmina-Torre: uma base horizontal (lâmina) de quatro pavimentos destinada ao comércio e às galerias, sobre a qual se eleva uma torre vertical com as unidades residenciais. Essa escolha projetual respondia simultaneamente à demanda do cliente por máximo aproveitamento econômico do terreno e à lógica do zoneamento funcional moderno, que separa usos públicos de privados.
Organização volumétrica e fluxograma A organização do programa pode ser lida em duas partes complementares:
Lâmina (térreo ao 4º pavimento)
Abriga as galerias comerciais acessíveis diretamente da rua, lojas, uma sala de cinema, sanitários e espaços de almoxarifado. O acesso às galerias é feito por escadas e elevadores. A planta configura um sistema de circulação interna que se integra à rede de galerias do centro da cidade.
Torre (a partir do 5º pavimento)
Contém as unidades residenciais. Por ser uma torre isolada, os apartamentos beneficiam-se de ventilação cruzada, iluminação natural em todas as faces e vistas abertas para a cidade. O núcleo de circulação vertical (elevadores e escadas) articula essa lâmina vertical com a torre.
Entre os dois volumes, o recuo da torre em relação à lâmina cria uma terraça que, segundo o projeto, seria destinada a uma cafeteria, exemplo da preocupação dos arquitetos com a qualidade dos espaços de transição entre o público e o privado.
Dimensão coletiva e relação com o espaço urbano O programa foi concebido para operar como um nó articulador da vida coletiva do centro histórico. As galerias comerciais da lâmina conectam-se à rede de passagens internas das quadras (manzanas) de Santiago, estendendo o percurso pedestre para dentro do edifício e integrando-o ao circuito de galerias que caracteriza o centro comercial da cidade.
Essa estratégia reflete a preocupação dos arquitetos em ultrapassar os limites do lote individual para pensar na escala urbana — uma dimensão coletiva que transcende o mero aproveitamento econômico do terreno e aproxima o projeto de uma proposição de redesenho do centro histórico. A intenção que moveu o projeto ia além da obra em si: a tipologia Lamina-Torre deveria funcionar como modelo para uma possível reurbanização progressiva do centro histórico de Santiago. A repetição dessa tipologia ao longo das quadras permitiria criar um embasamento contínuo de comércio ao nível do pedestre, conectando as diversas galerias entre si, enquanto as torres garantiriam a densidade habitacional necessária para a vitalidade urbana.
Sistema estrutural O sistema estrutural do edifício é em concreto armado, uma mudança em relação ao projeto original. Inicialmente, os arquitetos haviam concebido uma estrutura de aço, que seria financiada com o apoio da Compañía de Aceros del Pacífico (CAP). Porém, quando o projeto já estava resolvido, a CAP se retirou do financiamento, obrigando a equipe a redesenhar a estrutura em concreto armado por razões econômicas. Essa substituição teve consequências diretas na forma e nos materiais finais do edifício.
A mudança do sistema estrutural, de aço para concreto, é um dado relevante para compreender a diferença entre o anteprojeto e o edifício construído, e ilustra as condicionantes econômicas que frequentemente moldavam as decisões projetuais na arquitetura moderna chilena dos anos 1950.
Materiais e técnicas A fachada é o elemento que mais evidencia as contradições entre projeto original e obra construída. As venezianas (persianas), que originalmente foram projetadas com perfis de alumínio, foram executadas em madeira por questões de custo, alteração que comprometeu a manutenção ao longo do tempo. A madeira deteriorou-se progressivamente, conferindo ao edifício uma imagem bastante degradada com o passar dos anos.
As venezianas de madeira funcionam como elemento ordenador da fachada da torre, criando uma textura rítmica e uniforme, mas com certo movimento visual. A separação comercial apresenta tratamento diferenciado, com aberturas maiores para o fluxo do pedestre e integração com as galerias internas.
Entre o anteprojeto e o edifício construído houve outras modificações além da estrutura e das venezianas, relacionadas à ampliação das dimensões do terreno ao longo do processo, o que alterou proporções e detalhes do programa original.
Implantação e relação interior-exterior O edifício se encontra na esquina de uma quadra do centro histórico, com frente para as ruas 21 de Mayo, Monjitas e Santo Domingo, em posição diagonal à Plaza de Armas. A estrutura de dois sentidos representou uma ruptura morfológica em relação ao entorno: pela primeira vez naquele contexto, um edifício se destacava da fachada contínua tradicional, liberando a torre no ar e criando uma nova relação com o espaço urbano.
A lâmina horizontal comercial se integra ativamente ao fluxo pedestre do centro, com galerias acessíveis diretamente da rua e conectadas à rede de passagens internas da manzana. A torre residencial, por sua vez, se destaca como volume autônomo acima dessa lâmina, abrindo-se para as vistas da cidade.
Organização espacial da torre A planta-tipo da torre é organizada em torno de um núcleo central de circulação vertical (elevadores e escadas), com unidades residenciais distribuídas nas quatro faces do volume. Essa configuração garante ventilação cruzada e iluminação natural para todos os apartamentos, princípio fundamental do Movimento moderno.
As varandas, com largura útil de aproximadamente 109 centímetros, foram previstas como extensões do espaço doméstico. Com o tempo, essa dimensão relativamente estreita levou os moradores a utilizá-las predominantemente como áreas de serviço, depósito ou extensões informais dos ambientes internos.
A tipologia Lamina-Torre como inovação O Edificio Plaza de Armas e o Edificio Arturo Prat (1954), ambos da parceria Larraín–Duhart, foram os primeiros edifícios no Chile a introduzir essa tipologia, modelo que havia sido amplamente desenvolvido no Movimento Moderno internacional e que se tornaria referência para décadas de produção arquitetônica chilena. A separação entre funções públicas (horizontal) e privadas (vertical), a liberação do espaço ao redor do volume vertical e a integração das galerias ao percurso pedestre urbano são contribuições tipológicas significativas para a história da arquitetura moderna na América Latina.
O Conjunto Nacional (David Libeskind, 1955–1962) é o paralelo brasileiro mais direto ao Edifício Plaza de Armas: mesma tipologia Lâmina-Torre, mesmo período, e a mesma questão central, a integração entre o edifício e o espaço público. A lâmina horizontal ocupa toda uma quadra da Avenida Paulista e se conecta às calçadas pelas quatro ruas lindeiras, concebida como extensão do passeio público coberto. Como argumenta Sabrina Studart Fontenele Costa em sua análise dos edifícios modernos no centro de São Paulo, essa tipologia não operava apenas como solução formal, mas como proposição urbana, o edifício individual como modelo de cidade.
Situação Atual O Edificio Plaza de Armas permanece como uma das referências da arquitetura moderna no Centro Histórico de Santiago. O edifício é reconhecido por publicações especializadas como um dos exemplares mais importantes do Movimento Moderno na capital chilena.
Ao longo das décadas, o edifício sofreu intervenções e modificações. Na torre residencial, o ritmo original das venezianas foi progressivamente fragmentado pela intervenção dos moradores em suas varandas; novos materiais, fechamentos improvisados e alterações de uso geraram uma fachada que é hoje um mosaico de intervenções individuais.
O artigo acadêmico "Entropía y estructura: Re-pensando el edificio Plaza de Armas como patrimonio moderno", publicado na Revista Materia Arquitectura, aponta a necessidade de revisitar o edifício sob a perspectiva do patrimônio moderno, discutindo as tensões entre preservação e transformação ao longo do tempo.
Referências