Yao Jingming (em chinês: 姚京明; Pequim, 1958), também conhecido pelo pseudónimo Yao Feng (姚风), é um poeta, académico e tradutor literário chinês, radicado em Macau, que se dedica também à fotografia, à pintura, à instalação e à curadoria. Licenciou-se em Português pela Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim e doutorou-se em Literatura Comparada pela Universidade Fudan. Foi vice-presidente do Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau e diretor do Departamento de Português da Faculdade de Letras da Universidade de Macau, tendo-se aposentado em 2024.

Além de se dedicar à tradução literária, escreve crónicas, faz crítica literária e publicou, em chinês e em português, quinze livros de poesia e de prosa. No ensino utiliza sobretudo o seu nome verdadeiro, reservando o pseudónimo para a tradução e a escrita. Realizou ainda exposições individuais de fotografia e de instalação em Macau, Xangai e Lisboa.

Biografia

Yao Jingming nasceu em Pequim em 1958. Em criança, foi selecionado para estudar espanhol numa escola de línguas estrangeiras; segundo o próprio, ele e outras crianças foram os primeiros alunos escolhidos, após a Revolução Cultural, para aprender aquela língua na escola anexa ao Instituto de Línguas Estrangeiras de Pequim, numa seleção fortuita perante a qual até a sua família estranhou a língua que lhe coubera. Como, naquela época, os clássicos da literatura estrangeira eram em larga medida tidos por livros proibidos e se encontravam confiscados ou destruídos, as suas leituras de juventude foram limitadas; mais tarde, ao ser colocado a auxiliar na organização do acervo de uma biblioteca, deparou por acaso com Moby Dick, do escritor norte-americano Herman Melville, que profundamente o marcou.

Em 1987, Yao Jingming ingressou no Instituto de Literatura Estrangeira da Academia Chinesa de Ciências Sociais, onde ficou sobretudo responsável pela tradução e pela divulgação da literatura portuguesa. No ano seguinte, foi colocado na Embaixada da China em Lisboa. Incentivado pela escritora e amiga Maria Ondina Braga, escreveu o seu primeiro livro de poemas, Nas asas do vento cego, publicado em Lisboa em 1990. Em 1992, decidiu deixar o seu cargo e ir para Macau. Trabalhou sucessivamente na agência China Travel Service, na Universidade de Macau e no Instituto Cultural de Macau, concentrando a sua atividade na investigação literária, na tradução e na escrita.

Recorrendo ao seu domínio do português, Yao Jingming participou em Macau em diversas iniciativas de intercâmbio literário e cultural sino-português. A partir de 1994, e ao longo de cerca de oito anos, colaborou com a investigadora Ana Paula Laborinho na edição de uma coleção de vinte e sete volumes de autores de língua portuguesa, reunindo obras de escritores portugueses contemporâneos de renome; por razões editoriais, porém, a coleção não terá tido junto do público o alcance esperado.

Em 2006, Yao Jingming recebeu a Ordem Militar de Sant'Iago da Espada. Entre 2012 e 2014, exerceu o cargo de vice-presidente do Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau. Em 2015, assumiu a direção do Departamento de Português da Universidade de Macau; nesse mesmo ano participou no International Writing Program (IWP) da Universidade de Iowa.

A partir de 2021, Yao Jingming realizou sucessivas exposições individuais em Macau, Xangai e Lisboa. Em 2024, aposentou-se da Universidade de Macau. Em 2025, publicou-se a sua obra académica O Encontro dos Extremos: Intercâmbio literário entre a China e Portugal.

Obra literária

Segundo o escritor português José Luís Peixoto, a poesia de Yao Jingming possui uma marcada contemporaneidade, assente «em referências do quotidiano, com frequente humor e com um sentido irónico muito apurado». A professora Monica Simas, das universidades de Veneza Ca' Foscari e de São Paulo, partilha desta leitura. Os temas da poesia de Yao Jingming abrangem o espírito, o mundo do trabalho e as mazelas sociais; seja pelo modo como escreve, seja pelas imagens a que recorre, o autor estabelece sempre um vínculo entre culturas e sujeitos distintos. Como observa Simas, «ao falar dos peixes pendurados colocados para salgar nas feiras urbanas, cena que era tão cotidiana nas cidades chinesas de uns anos atrás, ele fala de vida e morte, mas também estabelece uma conexão com o bacalhau português».

A criação poética de Yao Jingming está ligada à sua experiência pessoal, e Macau ocupa nela um lugar central. Enquanto tradutor e académico no domínio da literatura sino-portuguesa, reflete sobre o estado das relações interpessoais e intercomunitárias em Macau — uma familiaridade aparente acompanhada de um distanciamento profundo — e defende que o verdadeiro intercâmbio cultural depende de um diálogo aprofundado entre as partes.

As instalações de Yao Jingming apresentam relações de oposição reconhecíveis, com temas que giram frequentemente em torno das condições da palavra e da expressão do pensamento. Em novembro de 2022, a sua exposição individual de fotografia «Ver» foi apresentada no espaço de arte fotográfica 1844, em Macau, com oitenta fotografias captadas em vários países e algumas instalações; numa delas, intitulada «O Jardineiro Laborioso», o autor cortou, um a um, todos os espinhos de um grande cato esférico, como metáfora do estado de quem foi «aparado em excesso». Noutra obra, colocou um preservativo sobre o microfone de uma mesa de reuniões, para refletir sobre a relação entre «discurso» e «segurança»; na exposição individual Não Conjuntivo (apresentada no espaço cultural Albergue SCM), substituiu por jornais em chinês e português o material que envolvia um crânio anatómico, espetando agulhas nas palavras. Durante a pandemia de COVID-19, criou ainda obras compondo uma cruz com cal e máscaras, justapondo antigos cartazes de casas de prostituição de Macau a uma cruz, ou selando um poema seu dentro de um frasco de vidro.

Principais obras Poesia

Nas asas do vento cego (Átrio, Lisboa, 1991) Uma Linha de Horizonte, Duas Paisagens (com Jorge Arrimar, Imprensa Oficial de Macau, Macau, 1997) A Noite Deita-se Comigo (Pedra Formosa, Guimarães, 2001) Distant Songs (Whitman Publishing Company, Nova Iorque, 2006) Quando os Peixes Fecham os Olhos (Associação de Histórias de Macau, Macau, 2007) Antologia Poética de Yao Feng 2002-2008 (Editora de Literatura e Arte Taibai, Xi'an, 2008) Inimigos sobre os Ramos Secos (Editora dos Escritores, Pequim, 2014) Um Limão sobre o Mar (Editora de Literatura e Arte de Zhejiang, Hangzhou, 2016) One Love Only Until Death (Vagabond Press, Sydney, 2017) Não Escrever É Também Parte do Escrever (Editora de Literatura e Arte da China, Macau, 2020) Acender uma Luz no Mar Profundo (Showwe, Taipé, 2022) O Além da Montanha (Moinhos, Belo Horizonte, 2022)

Ensaio e investigação

Atas do Colóquio Académico sobre o "Atlas da China" de Michele Ruggieri (coeditado com Hao Yufan, Instituto Cultural de Macau, 2014) História do Intercâmbio Literário Sino-Estrangeiro — Volume de Portugal (Editora de Educação de Shandong, 2015) O Encontro dos Extremos: Intercâmbio Literário entre a China e Portugal (Gradiva, 2025)

Tradução

O Outro Nome da Terra (Eugénio de Andrade, Instituto Cultural de Macau/Editora de Literatura e Arte Huashan, 1994) Poemas de Sophia (Sophia de Mello Breyner Andresen, Instituto Cultural de Macau/Editora de Literatura e Arte Huashan, 1995) Cheong-Sam. A cabaia (Deolinda da Conceição, Instituto Cultural de Macau/Editora de Literatura e Arte Huashan, 1997) Infraestruturas (Alberto Estima de Oliveira, Instituto Cultural de Macau, 1999) Clepsidra (Camilo Pessanha, Editora de Literatura do Povo, 2017) Nude: A Study in Poignancy (Ana Luísa Amaral, Editora da Universidade Chinesa de Hong Kong, 2018) Ama-se o Fogo na Água (Eugénio de Andrade, Editora de Literatura e Arte de Hunan, 2020) O Futuro é uma Manhã (Sophia de Mello Breyner Andresen, Editora de Literatura e Arte de Hunan, 2020) Meu Coração Tardou (Fernando Pessoa, Editora de Literatura e Arte de Zhejiang, 2020) O Peso do Mundo (Nuno Júdice, Editora da Universidade Normal de Guangxi, 2022) O Livro do Amor (Florbela Espanca, Beijing United Publishing, 2022)

Exposições «Aqui», exposição de instalação (Espaço Criativo de Macau, 2009) «Não Conjuntivo», exposição (Espaço Criativo Albergue SCM, Macau, 2020) «Ver», exposição de fotografia (Ox Warehouse, Macau, 2022) «Algures», exposição de fotografia e poesia (MoCA Xangai, 2024) «Entre a Luz e a Sombra», exposição de fotografia (Centro Científico e Cultural de Macau, Lisboa, 2025)

Distinções e prémios

Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (2006) Prémio Poetas Laureados das Duas Margens (2013) Prémio de Poesia Rougang (2014) Prémio de Ouro de Poesia Li Bai Xinshidian (2015) Prémio de Poesia Changyao (2016) Prémio de Criação Poética da Associação de Literatura e Arte da China (Taiwan) e Prémio de Literatura de Macau (1.º lugar, categoria de prosa) (2019) Prémio Principal da categoria de poesia do 6.º Prémio Literário Hongmian (2023) 2.º Prémio de Realização em Poesia Oceânica China-Xiapu (2023)