A Cabana Senhora da Glória – Nzo Kuna Nkos'i é um tradicional e histórico terreiro de Umbanda e Candomblé de nação Angola (tradição Moxicongo), localizado no município de Belo Horizonte, Minas Gerais. Fundada na década de 1960, a instituição religiosa destaca-se como o primeiro terreiro de Candomblé Angola da tradição Moxicongo no estado de Minas Gerais, exercendo papel central na preservação, difusão e resistência das tradições afrorreligiosas na capital mineira.«Tateto Nepanji». Site Oficial da Cabana Senhora da Glória. Consultado em 21 de junho de 2026NOGUEIRA, Nelson Mateus (Tateto Nepanji). O Moxicongo nas Minas Gerais: Raízes e Tradição. Belo Horizonte: Editora Cabana Senhora da Glória, 2017.

História e Trajetória Fundada oficialmente na década de 1960 em Belo Horizonte, a Cabana Senhora da Glória iniciou suas atividades fundamentada nas linguagens e ritos da Umbanda, embasados também na antiga tradição afro-capixaba conhecida como Cabula.«Tateto Nepanji». Site Oficial da Cabana Senhora da Glória. Consultado em 21 de junho de 2026NOGUEIRA, Guilherme Dantas; NOGUEIRA, Nilo Sérgio. «Seu Cangira, Deixa a Gira Girar: A Cabula Capixaba e seus Vestígios em Minas Gerais». Revista Calundu, v. 1, n. 2, 2017. Disponível em: <https://periodicos.unb.br/index.php/revistacalundu/article/view/7634>. DOI: <https://doi.org/10.26512/revistacalundu.v1i2.7634>. Sob a liderança espiritual de seu fundador, a casa consolidou-se ao longo das décadas como um polo de acolhimento e manifestação religiosa, prestando atendimento público e desenvolvendo atividades ritualísticas fundamentadas na caridade e no respeito à ancestralidade.

Posteriormente, a comunidade expandiu sua atuação litúrgica com a introdução do Candomblé de nação Angola, adotando o nome ritual de Nzo Kuna Nkos'i (Casa do Trono de Nkosi).«Mães da nossa história». Site Oficial da Cabana Senhora da Glória. Consultado em 21 de junho de 2026 Com essa transição e amadurecimento religioso, o terreiro inscreveu seu nome na história das religiões de matriz africana em Minas Gerais ao despontar como a pioneira e primeira casa a professar e assentar a tradição Moxicongo em território mineiro.

Fundadores

Tateto Nepanji (Nelson Mateus Nogueira) Nelson Mateus Nogueira, conhecido religiosamente como Tateto Nepanji ou Pai Nepanji (1928–2026), foi o fundador, líder espiritual e zelador de santo da Cabana Senhora da Glória por mais de seis décadas. Nascido em uma época de intensa perseguição às práticas de matriz africana, iniciou sua jornada religiosa na juventude, sendo um legítimo iniciado nos mistérios da Cabula antes de se radicar e fixar residência em solo mineiro.

Ao longo de sua vida, Tateto Nepanji dedicou-se à sistematização e preservação dos saberes tradicionais orais da nação Moxicongo e da Umbanda, atuando não apenas como sacerdote, mas como intelectual orgânico e escritor de sua própria tradição. Reconhecido por órgãos públicos, como a Prefeitura de Belo Horizonte e a Secretaria Municipal de Cultura, como uma das principais lideranças e patrimônio vivo dos povos tradicionais de terreiro da cidade, fez sua passagem em 6 de junho de 2026, aos 98 anos, tornando-se uma das grandes referências ancestrais da casa.

Mameto Mutunji Maria de Lourdes Nogueira, conhecida em ambiente ritual como Mameto Mutunji, foi co-fundadora, mãe fundadora e líder central da Cabana Senhora da Glória ao lado de seu esposo, Tateto Nepanji.«O passado em imagens». Site Oficial da Cabana Senhora da Glória. Consultado em 21 de junho de 2026 Figura feminina central na sustentação espiritual e material do terreiro desde os anos iniciais de fundação, Mameto Mutunji é reverenciada pela comunidade como a guardiã responsável por ter assentado seu Nkisi Kitembo mais antigo de que se tem registro na tradição do Candomblé Moxicongo no estado de Minas Gerais, sendo um pilar histórico para a emancipação e valorização das mulheres negras e lideranças femininas no axé.

A Tradição Moxicongo e os Vestígios da Cabula em Minas Gerais O Candomblé de nação Angola subdivide-se em diferentes linhagens e tradições rituais. A tradição Moxicongo, preservada e introduzida em Minas Gerais pela Cabana Senhora da Glória, possui raízes profundas que se interligam historicamente com o culto aos inquices (divindades da natureza) e o uso do Quicongo como língua litúrgica e ritualística, mantendo forte sinergia com os elementos calunduzeiros preexistentes no território mineiro.

Pesquisas no campo da Sociologia e Antropologia apontam que o rito angoleiro praticado na Cabana Senhora da Glória preserva importantes vestígios litúrgicos e rituais da Cabula capixaba — uma das primeiras expressões afrorreligiosas estruturadas a partir dos heterogêneos calundus coloniais —, evidenciando a força e a continuidade de uma linguagem ritualística que sobrevive no Brasil desde o período colonial. A cosmologia preservada no terreiro enfatiza o equilíbrio emocional, o respeito à estrita hierarquia sacerdotal e a educação dos médiuns iniciados.

Atuação Social e Enfrentamento ao Racismo Religioso O terreiro Nzo Kuna Nkos'i destaca-se também pelo seu histórico de engajamento social e político na defesa dos direitos das comunidades tradicionais de terreiro. Lideranças intelectuais da casa têm pautado o debate acadêmico sobre os limites da laicidade do Estado brasileiro, problematizando como a falta de neutralidade do poder público aprofunda o cenário de racismo religioso contra as práticas de matriz africana.NOGUEIRA, Nilo Sérgio; NOGUEIRA, Guilherme Dantas. «A Questão da Laicidade do Estado Brasileiro e as Religiões Afro-brasileiras». Revista Calundu, v. 2, n. 1, 2018. Disponível em: <https://periodicos.unb.br/index.php/revistacalundu/article/view/9544>. DOI: <https://doi.org/10.26512/revistacalundu.v2i1.9544>.

Durante a crise sanitária da pandemia de COVID-19, o terreiro exerceu papel ativo de orientação, visando à proteção social, por meio da medicina tradicional calunduzeira.NOGUEIRA, Guilherme Dantas; NOGUEIRA, Nilo Sérgio; MOURA, Ricardo de. «Cura como resistência». Revista Calundu, v. 6, n. 2, 2023. Disponível em: <https://periodicos.unb.br/index.php/revistacalundu/article/view/46610>. DOI: <https://doi.org/10.26512/revistacalundu.v6i2.46610>.

Produção Intelectual e Fontes Oficiais Diferenciando-se pela preocupação em documentar a própria memória e teologia, a Cabana Senhora da Glória atuua também como editora independente, responsável pela publicação das obras literárias de seu fundador, as quais servem como a principal doutrina escrita da casa:

NOGUEIRA, Nelson Mateus (Tateto Nepanji). O Moxicongo nas Minas Gerais: Raízes e Tradição. Belo Horizonte: Editora Cabana Senhora da Glória, 2017. NOGUEIRA, Nelson Mateus (Tateto Nepanji). Umbanda: Ensinamentos e Mistérios. Belo Horizonte: Editora Cabana Senhora da Glória, 2020.

Produção e Contribuição Acadêmica A trajetória histórica, teológica e social do terreiro é respaldada por pesquisas científicas revisadas por pares. Destacam-se as produções de pesquisadores vinculados à própria comunidade religiosa e dinastia familiar da casa, como o sociólogo pós-doutor Guilherme Dantas Nogueira e o dirigente Nilo Sérgio Nogueira, cujos artigos publicados em periódicos especializados servem de base para os estudos contemporâneos sobre as religiões afro-brasileiras:

A obra doutrinária de Tateto Nepanji também foi objeto de análise e reconhecimento acadêmico por parte de pesquisadores de instituições externas, a exemplo do estudo de Adalberto de Salles Lima, da Universidade de Brasília (UnB).LIMA, Adalberto de Salles. «Ensinamentos Candomblecistas nas Minas Gerais» (Resenha). Revista Calundu, v. 2, n. 1, 2018. Disponível em: <https://periodicos.unb.br/index.php/revistacalundu/article/view/9556>. DOI: <https://doi.org/10.26512/revistacalundu.v2i1.9556>.

Referências

Ligações externas Sítio oficial

Categoria:Terreiros de Candomblé de Belo Horizonte Categoria:Terreiros de Umbanda de Belo Horizonte Categoria:Candomblé de nação Angola Categoria:Fundações em Minas Gerais na década de 1960