Elias Coelho Cintra foi um comerciante e armador português e traficante de africanos escravizados que atuou na província de Pernambuco, no Brasil, durante a primeira metade do século XIX. É apontado pela historiografia como o maior traficante de escravizados da praça pernambucana no período, tendo sido responsável pelo desembarque de cerca de 11,8 mil cativos africanos. Estabelecido no Recife, notabilizou-se por dar origem ao nome do atual bairro recifense dos Coelhos.
Atuação no tráfico de escravizados Elias Coelho Cintra integrou o grupo de grandes negociantes luso-brasileiros que dominavam o tráfico transatlântico de escravizados nas primeiras décadas do século XIX, época em que a fortuna desses comerciantes chegava a superar a dos próprios senhores de engenho de açúcar e algodão. Suas embarcações traziam cativos sobretudo de Angola. Um anúncio de jornal da época, por exemplo, registra a chegada ao Recife do paquete Pernambuco, procedente de Angola após uma travessia de 26 dias, com 257 africanos destinados a Elias Coelho, dos quais 26 morreram durante a viagem.
Segundo levantamentos baseados em registros do tráfico, ao longo de sua carreira Elias Coelho Cintra foi responsável pelo desembarque de aproximadamente 11.866 cativos em Pernambuco, número que o coloca em primeiro lugar na escala do tráfico pernambucano do século XIX, à frente de Francisco Antônio de Oliveira (o Barão de Beberibe), com cerca de 8.250. No momento da eclosão da Revolução Pernambucana de 1817, estima-se que já houvesse desembarcado pouco mais de mil cativos na província.
Marcação dos escravizados Elias Coelho Cintra tinha por hábito marcar com a letra "E", aplicada a ferro em brasa no peito, os africanos de sua propriedade — prática descrita por pesquisadores como equivalente à marcação de gado. Essa marca aparece em anúncios publicados na imprensa pernambucana do período, como em notícias sobre furtos e fugas de cativos descritos como portadores do sinal "E" no peito. Tais anúncios, comuns em periódicos como o Diário de Pernambuco, tornaram-se fontes importantes para os estudos sobre o cotidiano da escravidão e do tráfico no Recife.
Revolução Pernambucana de 1817 Durante a Revolução Pernambucana de 1817, Elias Coelho Cintra permaneceu leal à Coroa portuguesa. De acordo com informação atribuída ao governador de Luanda, conseguiu fugir para a Bahia em meio aos acontecimentos, diferentemente de outros traficantes da praça que aderiram ao movimento.
Bairro dos Coelhos O bairro dos Coelhos, situado na área central do Recife, deve seu nome ao fato de a região ter pertencido à família de Elias Coelho Cintra, o maior traficante de escravizados da cidade no período. A reportagem que resgatou essa origem observa o contraste entre o passado de riqueza acumulada no tráfico e as condições de pobreza e violência que historicamente marcaram o bairro. Família e descendência Segundo obra genealógica dedicada à família, Elias Coelho Cintra é apontado como o seu tronco português, tendo tido três filhos, o primeiro dos quais Manoel Coelho Cintra. Manoel, nascido em Pernambuco, foi tenente da Marinha de Guerra brasileira e casou-se em 1830, no Recife, com Mafalda Augusta Pitaluga, natural de Lisboa; do casal nasceram seis filhos em Pernambuco. Manoel é também citado na documentação judicial do período como jurado em processos relacionados ao tráfico — situação apontada pela historiografia como exemplo da inserção de descendentes de traficantes nas instituições locais. Foi também 1º Conferente da Alfandega de Pernambuco.
Outro filho, Elias Coelho Cintra Jr., bacharel em Ciências Sociais e Jurídicas, pela Academia Jurídica de Olinda em 1834 e doutor em 1835. Foi professor interino em 16 de novembro de 1840, e efetivo a 3 de julho de 1841, e atuou como promotor de justiça.
A descendência de Elias Coelho Cintra ramificou-se por Pernambuco e pelo Rio de Janeiro ao longo do século XIX e início do XX, com membros que atuaram na magistratura, na política, na engenharia e nas Forças Armadas. Entre seus netos estiveram o desembargador Guilherme Cordeiro Coelho Cintra, o magistrado Manuel Coelho Cintra Júnior (1848–1892), desembargador e presidente do Tribunal de Justiça do Ceará, e o engenheiro e político José de Cupertino Coelho Cintra (1843–1939), deputado federal por Pernambuco e prefeito do Recife.
Por via materna, descende ainda da família o jornalista e político Barbosa Lima Sobrinho (1897–2000), governador de Pernambuco e longevo presidente da Associação Brasileira de Imprensa.
Memória e historiografia Apesar da projeção econômica, social e política que teve em vida, Elias Coelho Cintra permaneceu por muito tempo pouco lembrado na memória histórica brasileira. Sua trajetória voltou a ganhar atenção a partir de pesquisas acadêmicas sobre o tráfico interprovincial e atlântico em Pernambuco e de reportagens jornalísticas que, no fim da década de 2010, revisitaram o tema da escravidão e do apagamento de seus protagonistas.
Ver também
Comércio atlântico de escravos Escravidão no Brasil Tráfico negreiro Barão de Beberibe Coelhos (Recife)
Referências