Abu Aláqueme Abde Assalame ibne Abderramão ibne Maomé ibne Abderramão Alacmi ibne Barrajane (; m. ), melhor conhecido apenas por seu nisba Ibne Barrajane, foi um teólogo místico andalusino, nascido no Norte da África, que ensinou em Sevilha durante a primeira metade do .
Vida
Ibne Barrajane nasceu no Magrebe, de onde partiu rumo ao Alandalus e lecionou em Sevilha. Seu nome é frequentemente associado ao do célebre sufista Ibne Alarife, chefe da escola mística de Almeria. Juntamente com Ibne Caci e , ambos figuraram entre os principais líderes do movimento de resistência religiosa dirigido contra os almorávidas por canonistas, tradicionalistas e, de modo geral, por homens de religião que, sob a influência de Algazali, se inclinavam cada vez mais para o sufismo (taṣawwuf). De acordo com A. Faure, há rações para supor que Ibne Barrajane tenha sido ainda mais do que Ibne Alarife o principal inspirador da oposição sufista às perseguições conduzidas pelos juristas almorávidas. Segundo Ibne Alabar, seu principal biógrafo, destacou-se entre seus contemporâneos por seu mérito e erudição, sendo conhecido como o "Algazali do Alandalus". Essa posição de destaque transparece nos fragmentos de correspondência preservados entre ele e Ibne Alarife. Além disso, parece ter estado mais diretamente envolvido nos acontecimentos políticos do que seu amigo e correspondente. Aspirava ao imamato e, de acordo com , foi reconhecido como imame em cerca de 130 aldeias.
A ascensão de Ibne Barrajane e a agitação que provavelmente a acompanhou despertaram as suspeitas das autoridades almorávidas. Alertado por seus agentes locais, o emir Ali ibne Iúçufe convocou Ibne Barrajane, Ibne Alarife e Abu Becre Almaiurqui para comparecerem a Marraquexe. O último conseguiu escapar e refugiar-se em Bugia, seguindo posteriormente para o Oriente islâmico. Os outros dois morreram em 1141, ano de sua chegada ao Marrocos, data geralmente considerada mais confiável do que 1142, proposta por Ibne Alcátibe. Os dois sufistas receberam tratamentos muito distintos. Enquanto Ibne Alarife foi tratado com consideração pelo soberano, Ibne Barrajane foi alvo de extrema hostilidade. Ali ibne Iúçufe ordenou que seu corpo fosse lançado no monturo da cidade sem que lhe fossem prestadas as orações fúnebres. A intervenção de , um respeitado sufista de Fez, impediu essa profanação. Graças a ele, Ibne Barrajane foi sepultado na praça do mercado de cereais (raḥbat al-ḥinṭa). A memória de Ibne Barrajane permaneceu viva durante séculos entre as populações do Magrebe. Em Marraquexe, continuou a ser venerado popularmente sob o nome de Sidi Berrijal (Sidi Abu Arrijal).
Ibne Barrajane era versado nas ciências da leitura corânica, da tradição profética (hádice) e do calâm (teologia especulativa). Como sufista, levava uma vida austera e dedicada ao culto. Escreveu um comentário ao Alcorão concebido segundo os princípios de sua doutrina esotérica e também um tratado sobre os nomes divinos. Entre os prodígios que lhe foram atribuídos, dizia-se que havia previsto, já em 520 A.H., com notável precisão matemática, a reconquista de Jerusalém por Saladino, indicando inclusive o ano em que ocorreria o acontecimento, Rajabe de 583/1187. Essa reputação contribuiu para consolidar sua fama de visionário e homem dotado de capacidades divinatórias. Quando foi convocado a Marraquexe, afirmava ter previsto não apenas sua morte iminente, mas também a de Ali ibne Iúçufe, que faleceu em 1143. Ibne Barrajane pertence à grande tradição sufista derivada de Ibne Maçarra, embora, como muitos outros místicos andalusinos de sua época, tenha sido profundamente influenciado por Algazali. Ibne Caldune o classificou entre os homens do tajallī ("revelação" ou "irradiação divina"), distinguindo-o dos teóricos da waḥda ("unidade"), para os quais Deus constitui a totalidade do universo manifesto e oculto e a única realidade existente.
Bibliografia
Categoria:Árabes do século XII Categoria:Lacmitas Categoria:Escritores do Alandalus Categoria:Sufis Categoria:Pessoas do Império Almorávida