O cascudo-leiteiro ou cascudo-preto (nome científico: Pogonopoma parahybae) é uma espécie de peixe siluriforme da família dos loricariídeos (Locariidae). Seu nome popular decorre da grande quantidade de sêmen que podem liberar quando manipulados, bem como à facilidade com que ocorre a ejaculação sob estímulos externos. É endêmico da bacia do rio Paraíba do Sul, no sudeste do Brasil. Descrito originalmente por Franz Steindachner em 1877, destaca-se pela coloração uniformemente negra, ausência de manchas corporais e corpo revestido por placas ósseas características dos cascudos. Habita principalmente trechos de rios com correnteza moderada a forte e fundo rochoso, estando associado a ambientes lóticos de água doce nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Registros recentes ampliaram sua distribuição conhecida, incluindo ocorrências no rio Paraitinga e no rio Paraibuna.

Pouco se conhece sobre sua biologia e ecologia. A espécie apresenta hábito demersal e, como outros representantes do gênero, possui respiração aérea facultativa. Indícios sugerem que sua reprodução esteja associada ao período das cheias, com exemplares em atividade reprodutiva registrados na bacia do rio Pomba e em levantamentos posteriores realizados nos rios Paraitinga e Paraibuna. A tendência populacional permanece desconhecida, e os registros disponíveis indicam que se trata de uma espécie pouco frequentemente capturada, embora novas ocorrências tenham sido documentadas nas últimas décadas. Parte dos indivíduos capturados foi incorporada a programas de conservação ex situ envolvendo a Estação de Hidrobiologia e Aquicultura de Paraibuna e formação de bancos genéticos.

A espécie encontra-se ameaçada principalmente pela degradação ambiental da bacia do rio Paraíba do Sul, incluindo poluição doméstica e industrial, introdução de espécies exóticas e, sobretudo, a construção de barragens e reservatórios, que eliminam os ambientes de correnteza dos quais depende. Em razão de sua distribuição restrita e da contínua deterioração de seu habitat, é classificada como vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). No Brasil, também integra as listas oficiais de espécies ameaçadas de extinção, sendo alvo de ações de conservação que incluem a proteção de ambientes lóticos remanescentes, pesquisas sobre sua biologia e programas de manejo coordenados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e instituições parceiras.

Etimologia

O nome popular "leiteiro" decorre da grande quantidade de sêmen que podem liberar quando manipulados, bem como à facilidade com que ocorre a ejaculação sob estímulos externos. O nome genérico Pogonopoma deriva do grego pṓgōn (, "barba") e poma (, "opérculo" ou "cobertura"), em referência a características morfológicas da região cefálica.

Taxonomia

O cascudo-leiteiro é uma espécie de peixe siluriforme da família dos loricariídeos, pertencente à subfamília dos . Foi descrito por Franz Steindachner em 1877, sob o basinômio Rhinelepis parahybae. A espécie foi redescrita por Jonathan W. Armbruster em 1998.

Descrição

O cascudo-leiteiro integra um grupo de cascudos caracterizados pela presença de placas ósseas recobrindo o corpo. Pode atingir até 26,3 centímetros de comprimento padrão. Trata-se de um cascudo de médio porte, atingindo cerca de 34 centímetros de comprimento padrão. A espécie distingue-se pela coloração uniformemente negra do corpo e pela ausência de manchas, características que permitem diferenciá-la de outras espécies aparentadas. Na região lateral da cabeça, abaixo dos olhos, possui odontódeos curtos e rígidos. Além disso, apresenta espinho bem desenvolvido na nadadeira dorsal, seis raios na nadadeira anal e a ausência de nadadeira adiposa.

Distribuição e habitat

O cascudo-leiteiro é endêmico da América do Sul, ocorrendo na bacia do rio Paraíba do Sul, no sudeste do Brasil, no bioma da Mata Atlântica. Sua ocorrência é conhecida para os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Os registros históricos concentram-se em coletas realizadas na década de 1980 em diferentes trechos do médio Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro, e no rio Pomba, importante afluente localizado em Minas Gerais. Registros posteriores foram obtidos entre 2002 e 2005 no médio curso do Pomba. Parte dessa área foi posteriormente inundada pela formação dos reservatórios das Pequenas Centrais Hidrelétricas de Ponte Palestina e Triunfo, alterando significativamente habitats anteriormente ocupados pela espécie. Até 2008, a espécie não possuía registros confirmados para o estado de São Paulo. Sua ocorrência foi documentada pela primeira vez nesse estado após a captura de exemplares no rio Paraitinga, um dos formadores do rio Paraíba do Sul, no município de São Luiz do Paraitinga, durante levantamentos realizados por pesquisadores da Companhia Energética de São Paulo (CESP). Esses registros, obtidos entre 2010 e 2011 a montante da Usina Hidrelétrica de Paraibuna, representaram uma ampliação da distribuição conhecida da espécie. Registros ainda mais recentes, datados de 2018, foram obtidos no rio Paraibuna, em Minas Gerais, ampliando novamente a área de ocorrência conhecida do cascudo-leiteiro. A extensão de ocorrência da espécie foi estimada em quilômetros quadrados, com base no polígono convexo mínimo construído a partir das microbacias hidrográficas onde sua presença foi confirmada. Habita ambientes de água doce e apresenta hábito demersal, vivendo associada ao fundo dos corpos d'água. É encontrada principalmente em trechos de rios com correnteza moderada a forte e substrato predominantemente rochoso. Ocorre em regiões de clima tropical.

Ecologia

Como outras espécies do gênero, o cascudo-leiteiro apresenta respiração aérea facultativa, característica que permite a utilização complementar do oxigênio atmosférico em determinadas condições ambientais. Pouco se conhece sobre sua biologia reprodutiva, desenvolvimento e ciclo de vida. A captura de dois exemplares em atividade reprodutiva na bacia do rio Pomba sugere que o período reprodutivo esteja associado à estação das cheias. A espécie é considerada inofensiva aos seres humanos.

Conservação

A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) classifica o cascudo-leiteiro como vulnerável (VU), com base no critério B1ab(iii), devido à sua distribuição geográfica restrita e ao declínio observado na extensão e qualidade de seu habitat. A avaliação mais recente foi publicada em 2022. A espécie não foi avaliada pela CITES nem pela CMS. A espécie foi incluída na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, constando como criticamente em perigo (CR) na edição publicada pela Portaria MMA n.º 444/2014 e como em perigo (EN) na atualização promovida pela Portaria MMA n.º 148/2022. Nacionalmente, em 2008, foi avaliado como criticamente em perigo (CR), com base nos critérios A2ace e B2ab(iii). Em 2010, foi reavaliado como em perigo (EN), com base no critério B2ab(iii), categoria na qual foi incluído no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Em 2022, Akama et al. reavaliaram a espécie como vulnerável (VU) para o Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE), do ICMBio. Regionalmente, em 2010, o cascudo-leiteiro foi classificado como criticamente em perigo (CR) na Lista de Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna do Estado de Minas Gerais, com base no critério B2ab(iii); em 2014, como em perigo (EN) no Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção no Estado de São Paulo; e em 2018, com base numa avaliação de 2000, como vulnerável (VU) na Lista das Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção no Estado do Rio de Janeiro.

População

A tendência populacional do cascudo-leiteiro é desconhecida. Informações disponíveis indicam que a espécie é raramente registrada em levantamentos de campo, o que dificulta estimativas sobre o tamanho e a dinâmica de suas populações. Em outubro de 2008, durante atividades preliminares destinadas à padronização de métodos de amostragem da ictiofauna na bacia do rio Paraíba do Sul e à validação de índices de integridade biótica, foi capturado um exemplar no rio Paraitinga, a jusante do município de São Luiz do Paraitinga, em São Paulo. O espécime foi encaminhado ao Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo para confirmação taxonômica e incorporação à coleção científica, constituindo um dos primeiros registros documentados da espécie no estado. Entre 2012 e 2014, novos levantamentos realizados nos rios Paraitinga e Paraibuna registraram outras nove ocorrências da espécie. Os exemplares capturados apresentaram massa corporal entre 128 e 588 gramas, e a maioria demonstrou atividade reprodutiva, evidenciada pela liberação de sêmen ou ovócitos durante a manipulação. Os indivíduos capturados vivos foram transferidos para a Estação de Hidrobiologia e Aquicultura de Paraibuna, onde passaram a integrar um banco genético destinado à conservação ex situ da espécie e ao desenvolvimento de estudos sobre sua reprodução em cativeiro. Apesar da ampliação recente do número de registros conhecidos, ainda são escassas as informações sobre abundância, estrutura populacional e tendências demográficas da espécie ao longo de sua distribuição.

Ameaças

As principais ameaças à espécie decorrem da intensa degradação ambiental observada na bacia do rio Paraíba do Sul, uma das regiões mais industrializadas do Brasil. Entre os principais fatores de impacto estão a poluição por efluentes domésticos e industriais, a degradação dos habitats aquáticos e a introdução de espécies exóticas. A construção de barragens e reservatórios constitui uma das ameaças mais relevantes para a conservação da espécie, pois promove a substituição de ambientes lóticos por ambientes lênticos, alterando ou eliminando os habitats dos quais depende. Além disso, a introdução de espécies exóticas, como tucunarés (Cichla spp.), dourados (Salminus brasiliensis) e bagres-africanos (Clarias gariepinus), pode exercer pressão adicional sobre as populações naturais, constituindo um fator de preocupação para sua conservação em longo prazo. A situação é agravada pelo grande número de empreendimentos hidrelétricos em operação, construção ou planejamento na bacia do rio Paraíba do Sul, ampliando a fragmentação dos cursos d'água e a redução dos ambientes de correnteza utilizados pela espécie. Souza (2006) relatou que o cascudo-leiteiro era comercializado por pescadores artesanais ao longo do rio Paraíba do Sul, especialmente no trecho médio-baixo da bacia. Entretanto, segundo informações posteriormente obtidas pelo mesmo autor, a espécie deixou de ser capturada com frequência nessa região.

Medidas de manejo