O Palácio Anadia, também referido como Palácio dos Condes de Anadia ou Quinta dos Condes de Anadia, é um palácio urbano situado na confluência da Rua Silva Carvalho com a Rua das Amoreiras, em Lisboa. O imóvel ocupa o gaveto formado pelas ruas Silva Carvalho e das Amoreiras, com os números de polícia 345-349 na Rua Silva Carvalho e 105 na Rua das Amoreiras, na freguesia de Campo de Ourique.
O palácio corresponde à antiga casa nobre da Quinta de São João dos Bem Casados, propriedade rural existente na zona das Amoreiras antes da consolidação urbana oitocentista deste sector ocidental de Lisboa. Apesar das alterações sofridas ao longo dos séculos XIX e XX, destaca-se pela sua escala, implantação de quarteirão e qualidade arquitectónica, sendo identificado pela DGPC como um dos imóveis patrimoniais de relevo da zona das Amoreiras.
Enquadramento urbano esquerda|miniaturadaimagem|237x237px|O palácio e o jardim murado, vestígio da antiga quinta. O Palácio Anadia situa-se numa área de charneira entre as Amoreiras, o Largo do Rato, Campo de Ourique e o antigo eixo de saída para Campolide. O imóvel define um quarteirão delimitado pelas ruas das Amoreiras, Silva Carvalho e Maria Ulrich, destacando-se na malha urbana pela dimensão do conjunto edificado e pela permanência de uma pequena zona verde murada no tardoz. Essa zona verde corresponde ao vestígio remanescente de uma propriedade outrora muito mais extensa, cuja horta e campos de cultivo ainda eram reconhecíveis na cartografia municipal de 1857 e 1911.
A sua envolvente histórica relaciona-se com a antiga zona das quintas das Amoreiras e com o desenvolvimento setecentista e oitocentista da área em torno do Aqueduto das Águas Livres, da Mãe de Água das Amoreiras e da Real Fábrica das Sedas. No Plano Director Municipal de Lisboa, o Palácio Anadia é inventariado na Carta Municipal do Património Edificado e Paisagístico sob a designação «Palácio Anadia / Rua Silva Carvalho, 345-347; Rua das Amoreiras, 105-107».
Segundo a exposição Hortas de Lisboa. Da Idade Média ao século XXI, do Museu de Lisboa, a quinta associada ao palácio era conhecida como Quinta de São João dos Bem Casados, designação que esteve na origem de antigos topónimos da zona, como a Rua de São João dos Bem Casados, actual Rua Silva Carvalho, e a Rua Direita de São João dos Bem Casados, actual Rua Professor Sousa da Câmara.
História esquerda|miniaturadaimagem|273x273px|Desenho geral da antiga Quinta de Nossa Senhora dos Bem-Casados. A propriedade onde se ergue o Palácio Anadia era, no século XV, uma zona de olivais e vinhas, ligada ao antigo sítio de São João dos Bem-Casados, topónimo derivado de uma ermida existente no local. As referências à quinta e a um solar denominado São João dos Bem Casados, sobre o qual viria a desenvolver-se o palácio actual, remontam já ao século XVI. Júlio de Castilho relaciona a casa nobre com o antigo palacete de São João dos Bem-Casados, cuja história se confundia com a do arrabalde de Campolide e com os caminhos que antecederam a abertura e regularização das actuais ruas das Amoreiras e Silva Carvalho.
Um desenho antigo da quinta, conservado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e divulgado pelo projecto A Casa Senhorial em Lisboa e no Rio de Janeiro, identifica o conjunto como Quinta de Nossa Senhora dos Bem-Casados ou Palácio das Amoreiras / Condes de Anadia. Segundo a mesma fonte, a pedra de armas dos Sá e Melo permite relacionar a planta com a Quinta de São João dos Bem-Casados, tendo o desenho seguido para o Brasil entre os bens de João Rodrigues de Sá e Melo, 1.º conde de Anadia.
A planta antiga mostra um edifício de carácter mais rural e orgânico do que o palácio actual, com dois corpos irregulares rematados pela ermida de São João dos Bem-Casados, posteriormente demolida para permitir a abertura da Rua Silva Carvalho. O documento é particularmente relevante por registar a distribuição interna de dois pisos da quinta, identificando espaços como ermida, coro, salas, gabinete, pátio, varanda e casa de jantar. esquerda|miniaturadaimagem|204x204px|Pedra de armas dos Sá e Melo na antiga Quinta de Nossa Senhora dos Bem-Casados. Nos finais do século XVII, a propriedade pertencia a José Rebelo Palhares, passando para Aires de Sá e Melo em 1760.
Entre 1765 e 1785, a casa foi habitada por D. Joana Perpétua de Bragança, irmã do duque de Lafões e neta do infante D. Miguel, filho legitimado de D. Pedro II. Castilho refere que, durante esta permanência, a quinta recebeu membros da família real que ali se deslocaram para beneficiar dos ares de São João dos Bem-Casados, então ainda uma zona suburbana e campestre. miniaturadaimagem|211x211px|Brasão da família Sá Colona com a coroa condal, no frontão do Palácio dos Condes de Anadia. O palacete sofreu um violento incêndio em 1780, episódio que Castilho relaciona com a retirada de D. Joana Perpétua para o vizinho convento do Rato, em 28 de agosto desse ano. Após a morte de Aires de Sá e Melo, em 1784, sucedeu-lhe na casa o filho João Rodrigues de Sá e Melo, 1.º visconde e 1.º conde de Anadia, que reconstruiu a propriedade. A campanha de reconstrução setecentista e alterações posteriores contribuíram para a configuração palaciana que o edifício manteve na época contemporânea.
Segundo Castilho, o palácio de São João dos Bem-Casados foi habitado pelos Anadia entre 1789 e 1793 e voltou a sê-lo entre 1802 e 1804. Ao longo das primeiras décadas do século XIX, a casa esteve dividida em várias moradias e teve diversos residentes ou arrendatários, entre os quais a condessa de Vimieiro, membros da família Seabra, o ministro napolitano, o general francês Avril, generais ingleses e vários titulares e magistrados.
Em finais do século XVIII, a zona onde se implantava o palácio conservava ainda carácter rural, apesar da transformação urbana em curso nas Amoreiras e nos seus arredores.
Castilho regista obras no palácio em 1821 e 1830, bem como anúncios de arrendamento e leilões realizados na casa no início do século XIX. Em 1884 foi construído um segundo corpo a poente e procedeu-se à reformulação da decoração interior. A antiga capela, erguida sobre uma ermida seiscentista de invocação de Nossa Senhora da Boa Sentença e de São João Baptista, foi também objecto de reformulações que lhe deram a configuração documentada pela DGPC.
Entre 1988 e 1992 foram acrescentados novos fogos habitacionais e alteado o sótão, com tratamento da platibanda e da cimalha sobre a ala seiscentista do edifício. Segundo a proposta patrimonial de 2001, essas obras alteraram a leitura formal do conjunto, ao fechar a platibanda, criar uma unidade formal entre dois corpos do palácio e permitir a construção ou ampliação das águas-furtadas.
Vida social e colecções
No início do século XX, Bulhão Pato evocou a Casa Anadia como um espaço de sociabilidade aristocrática e literária, recordando os jantares e serões frequentados por membros das famílias Anadia, Fronteira, Alorna e Carvalhal, bem como por figuras como Simão Aranha, Luís Aranha, D. Manuel de Almeida, o general Bezerra, José Palha e Domingos Martins Peres.
No mesmo texto, Bulhão Pato aludiu à riqueza das antigas colecções da casa, mencionando jóias, pratas e obras de arte ligadas à família Anadia. Júlio de Castilho, que conhecia esse testemunho, referiu-o como fonte para a memória das preciosidades que a casa continha, incluindo quadros atribuídos a Vieira Portuense e a Domingos Sequeira.
Arquitectura miniaturadaimagem|184x184px|Prospecto sul e plantas da antiga Quinta de Nossa Senhora dos Bem-Casados. A planta antiga da Quinta de São João dos Bem-Casados mostra que o edifício anterior à grande renovação do final do século XVIII tinha uma organização marcadamente rural, com corpos irregulares e articulação directa com a antiga ermida. Essa configuração contrasta com o estado actual do palácio, resultante das campanhas de reconstrução e remodelação posteriores ao incêndio setecentista.
O palácio actual é um exemplar de arquitectura residencial barroca, de planta rectangular algo irregular, composto por três corpos de implantação longitudinal. A cobertura é formada por telhados de três e quatro águas. O edifício apresenta quatro pisos, um deles parcialmente enterrado nos sectores mais a norte devido ao declive do terreno.
O alçado principal, voltado a sudeste, é organizado por três corpos separados por pilastras de cantaria, destacando-se o corpo axial, mais estreito, e a presença de cunhais igualmente em cantaria. A fachada é rasgada por um portal de verga curva, articulado com janela de sacada dotada de varanda com base de cantaria e guarda de ferro fundido ligeiramente curva.
No piso nobre existem doze janelas de emolduramento simples, seis de cada lado do portal; devido ao desnível do terreno, parte dessas janelas é de sacada e parte é de peito. O alçado posterior organiza-se em três corpos, com o central em posição reentrante relativamente aos corpos laterais, conservando-se desse lado uma pequena zona verde murada, remanescente da antiga quinta.
No interior, a DGPC identifica duas grandes fases construtivas, incluindo um sector seiscentista mais antigo, de compartimentação mais fechada ao nível do piso térreo. A decoração interior conserva azulejos na escadaria de acesso a partir do portal nobre, bem como pinturas murais, marmoreados e estuques de época posterior, com destaque para os existentes na sala de bilhar do primeiro piso. miniaturadaimagem|227x227px|Pormenor do desenho da Capela de São João dos Bem-Casados, integrada na antiga quinta. A capela do palácio tem planta rectangular com coro e foi construída no século XIX sobre uma ermida seiscentista dedicada a Nossa Senhora da Boa Sentença e a São João Baptista. No seu interior conserva decoração de marmoreados no altar-mor e um retábulo do século XVIII.
No início do século XX, Júlio de Castilho ainda identificava no interior do palácio a memória de uma antiga biblioteca e de um teatro, situados na parte esquerda do portão principal. O mesmo autor descreveu a capela então existente como uma capela moderna, feita com restos da antiga, sem expressão exterior, com altar-mor de madeira marmoreada a verde e dourado, retábulo de finais do século XVIII e imagens e pinturas ligadas à antiga invocação de São João Baptista.
Quinta, horta e jardins
O Palácio Anadia foi a casa senhorial de uma extensa quinta seiscentista, denominada Quinta de São João dos Bem Casados. A propriedade localizava-se na confluência das actuais ruas das Amoreiras e Silva Carvalho, e a sua designação esteve na origem de antigos topónimos da zona, como a Rua de São João dos Bem Casados, actual Rua Silva Carvalho, e a Rua Direita de São João dos Bem Casados, actual Rua Professor Sousa da Câmara. miniaturadaimagem|212x212px|A Quinta de São João dos Bem-Casados na carta topográfica de Lisboa de Filipe Folque, 1857.|esquerda A casa sofreu inúmeras alterações ao longo dos séculos, mas entrou no século XIX como propriedade dos condes de Anadia e manteve-se na posse dos seus herdeiros até à actualidade. Em janeiro de 1857, a quinta foi representada no Atlas da carta topográfica de Lisboa, dirigido por Filipe Folque, que registou a localização da horta na transição entre o jardim formal e as terras de cultivo que se estendiam até aos limites da propriedade. miniaturadaimagem|A antiga quinta no levantamento cartográfico de Silva Pinto, 1911. A planta n.º 17 do atlas de Filipe Folque não inclui o palácio nem a totalidade do jardim formal, mas permite reconhecer uma articulação cuidada entre os campos de cultivo, a horta, os jardins e as entradas da propriedade, estruturada por uma rede de alamedas arborizadas e rotundas de diferentes formatos e dimensões. Os talhões da horta estavam organizados por caminhos paralelos e perpendiculares, junto de um tanque, e eram protegidos dos ventos de norte e noroeste por uma fiada de árvores de uma das alamedas.