A Crónica de D. Pedro de Meneses é uma crónica particular portuguesa de meados do século XV, escrita por Gomes Eanes de Zurara, cronista-mor do reino de Portugal e guarda-mor da Torre do Tombo. A obra, de cariz senhorial, teve como objetivo, entre outros, lembrar os feitos de armas de D. Pedro de Meneses e de muitos outros homens durante o seu período enquanto capitão da cidade de Ceuta Portuguesa.

Apesar de parecer, em análise superficial, uma crónica repetitiva e com pouco conteúdo, com a simples repetição de eventos militares, um estudo aprofundado da 3ª crónica escrita por Zurara dá-nos conta de uma imensidão de informação. Podemos encontrar informação genealógica, textos panegíricos, valores e comportamentos cavaleirescos da sociedade da sua época, discórdias senhoriais, disputas políticas, territoriais, militares e diplomáticas, casamentos, tentativas de legitimar o reino através de um projeto maior, etc...

Produção da Obra A Crónica terá sido encomendada pelo monarca português Afonso V de Portugal, e muito impulsionada pela filha do Conde, D. Leonor. Após a redação da Crónica da Tomada de Ceuta e da Crónica dos Feitos da Guiné, Zurara compôs esta crónica entre os anos de 1458-1464AGUIAR, Miguel (2018), p. 6. É importante notar que, quando o cronista começa a escrever esta obra, já se tinham passado 11 anos desde a morte do Conde, pelo que ele se baseará em diversas fontesBROCARDO, Maria Teresa (1997a), p. 11.

Zurara ter-se-á baseado principalmente em testemunhos orais, à base de guerreiros que combateram em Ceuta durante a capitania de D. Pedro de Meneses (1415-1437) ou de vozes que o cronista considerava fidedignas, como é o caso do Infante Dom Henrique, o Navegador, senhor ao qual nutria uma grande admiração e proximidade. O cronista usou também documentação de natureza muita diversa, mas sobretudo aquela que tinha disponível nos arquivos em Portugal, permitindo-lhe descrever algumas atividades com maior detalhe (por exemplo, atividades económicas da cidadeAGUIAR, Miguel (2018), p. 8). Existem ainda diversas indicações, já analisadas por especialistas (com especial atenção de António Dias DinisDINIS, António Dias (1949)), de que a obra terá sofrido algumas modificações e/ou acréscimos posteriores à sua primeira redação, ainda que seja difícil identificá-losBROCARDO, Maria Teresa (1997a), p. 17 .

Conteúdo e Transmissão da Obra A crónica é composta por dois "livros", sendo estes separados pelo fim do relato minucioso do grande cerco a Ceuta, em 1418 ou 1419. O primeiro livro apresenta uma unidade de temas muito mais estruturada e coerente do que o segundo, que de certa forma perde esta unidade e relata também outros acontecimentos como casamentos, acontecimentos em outros locais que não Ceuta, a visita de D. Pedro ao Reino, e até uma certa mudança de protagonista no final da obra, visto que os últimos capítulos da Crónica dedicam-se já a Duarte de Meneses, Conde de Viana. É ainda importante referir-se que, à exceção da Crónica dos Feitos da Guiné, todas as crónicas de Zurara contém blocos de texto em comum (por exemplo, os capítulos finais da Crónica de D. Pedro de Meneses que já têm o seu filho, D. Duarte, como protagonista, servem também de abertura para a última obra da sua vida, a Crónica de D. Duarte de MenesesBROCARDO, Maria Teresa (1997b), p. 2 ; estas ligações podem indicar algum método de redação do cronista, ainda que seja difícil decifrar). esquerda|miniaturadaimagem|245x245px|Conde Pedro de Meneses, 1.º Conde de Vila Real Em termos concretos, o conteúdo da obra gira sobretudo em torno dos diversos feitos militares praticados por D. Pedro de Meneses e pelos homens ao seu serviço em Ceuta, entre 1415-1437. São comuns os saltos ou cavalgadas pelas aldeias e pastos em redor, em busca de pilhagens para trazer para Ceuta; os constantes assaltos navais a embarcações comerciais que passavam pela costa de Ceuta (estes assaltos navais assumem ao longo dos anos uma grande importância para a própria economia da cidade, riqueza pessoal dos homens e a garantia de segurança nas águas); e ainda as constantes escaramuças entre cristãos e mouros, como de resto são sempre descritos, em torno do controlo da cidade e dos territórios em redor.

Conhecem-se detalhadamente 10 manuscritos da Crónica, encontrando-se a primeira referência a um destes manuscritos num texto de José Francisco Correia da SerraSERRA, José Corrêa da (1792). Os trabalhos de Maria Teresa BrocardoBROCARDO, Maria Teresa (1997a) e António Manuel LázaroLÁZARO, António Manuel (1990) analisaram profundamente a história dos manuscritos e as características de cada um, estabelecendo-se relações entre aqueles que mais se assemelham. Ainda que a transmissão textual, ou seja, a propagação dos manuscritos, seja sempre algo difícil de estimar, através da quantidade de manuscritos que sobreviveram e pelo impacto na corte portuguesa pode concluir-se que a Crónica do Conde D. Pedro de Meneses terá sido alvo de circulação nos altos escalões portugueses.

Por fim, no que concerne à transmissão da obra, a Crónica fez ainda parte de um projeto da Dinastia de Avis para espalhar os feitos guerreiros portugueses fundamentados através da fé por toda a Europa, com recurso à língua universal e acessível aos outros reinos - o latim. Mateus de Pisano, um erudito italiano que vivera na corte de D. Afonso V durante largos anos e contribuiu em muito para a formação cultural de Gomes Eanes de Zurara, ficou encarregue inicialmente desta tarefa, ainda que o projeto não tenha conhecido um grande desenvolvimento. Por volta de 1460, terá composto a Crónica da Tomada de Ceuta, a 1ª de Zurara, em latim, e terá ainda traduzido a Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, ainda que se tenha perdido o rastro ao manuscrito originalSERRÃO, Joaquim Veríssimo (1989), p.39 .

Impacto da Crónica De modo a compreender-se verdadeiramente a dimensão e impacto desta crónica temos de analisar o longo projeto historiográfico levado a cabo pelos primeiros reis da Dinastia de Avis. Em meio a todos os confrontos e resultados da Crise dinástica de 1383–1385, o novo monarca português D. João I e os seus sucessores vão instrumentalizar as crónicas como textos de legitimação (para uma nova dinastia), mas também textos "modelo", através do patrocínio destes trabalhos e da sua orientação mediante as políticas pretendidas. Gomes Eanes de Zurara, o sucessor de Fernão Lopes, compôs grande parte deste projeto ainda que tenha as suas próprias características. As obras de Zurara, e com especial foco nas suas crónicas particulares (para D. Pedro de Meneses e D. Duarte de Meneses), assemelham-se a "espelhos de nobres"AGUIAR, Miguel (2018), p. 10. A vastíssima descrição de bons ideais, valores e comportamentos guerreiros nas praças norte-africanas servem como o novo modelo de comportamento cavaleiresco na corte portuguesa da segunda metade do século XV, além de assegurarem a memória dos que aí fizeram a sua reputação e/ou fortuna. Cria-se um novo modelo de ascensão social, permitindo à aristocracia sofrer uma espécie de renovação através das recompensas que os senhores recebiam do monarca por combaterem. Estas recompensas eram a contrapartida oferecida à aristocracia, tendo em conta o ideal cavaleiresco que se materializava no cumprimento das expectativas que sobre este grupo recaíam. Como resume Miguel Aguiar, "(...) as crónicas de Zurara também tinham outras implicações. Eram desde logo espelhos de nobres na medida em que nelas se encontravam relatos exemplares - para o bem mas também para o mal - que lhes conferiam um estatuto didático e de difusão de um quadro de valores e comportamentos tidos como ideais (...)AGUIAR, Miguel (2018), p. 24 .miniaturadaimagem|220x220px|Representação da Batalha de Alfarrobeira. Vários estudos apontam para que os desfechos políticos da batalha tenham impactado na produção de escrita e preservação da memória de certos senhores mediante a sua filiação.Para além deste tom didático, também discutido por Rita Costa GomesGOMES, Rita Costa (1993), p. 690, as crónicas de Gomes Eanes de Zurara serviram também como veículo legitimador da nova dinastia, fundamentando-se sobretudo com recurso à fé. A cronística geral do reino ganha uma dimensão providencialGOMES, Rita Costa (2005), p.80 com os trabalhos de Fernão Lopes e Gomes Eanes de Zurara, e o avanço para o Norte de África é encarado como uma guerra justificada pela fé, algo que contribuiria para a recuperação da legitimidade do rei português, depois de uma turbulenta mudança dinástica. É fundamental ter em conta que, poucos anos antes da redação da Crónica, dera-se a Queda de Constantinopla, e portanto a "ameaça" islâmica circulava entre os grande círculos sociais. O monarca português D. Afonso V irá instrumentalizar estes esforços de modo a preservar as relações com o papado e aproveitar-se destas novas movimentações em torno da guerra. O projeto expansionista foi sendo desenvolvido progressivamente ao longo de toda a Dinastia de Avis e a própria utilização dos textos cronísticos foi sendo adaptada a cada realidade, pelo que é possível observarmos o foco ou afastamento de certos detalhes que Zurara escreve ao longo da historiografia do século XVIGOMES, Rita Costa (2005), pp. 56-58 . Vemos em Rui de Pina um exemplo deste tipo de ocorrências, com a deturpação de certos relatos tendo em conta a situação política resultante da Batalha de AlfarrobeiraGOMES, Rita Costa (2005), p. 62.

Referências

Bibliografia

AGUIAR, Miguel - As crónicas de Zurara: a corte, a aristocracia e a ideologia cavaleiresca em Portugal no século XV. In Medievalista, 23 (Janeiro-Junho 2018). 31 páginas. ISSN 1646-740X. https://doi.org/10.4000/medievalista.1580 BROCARDO, Maria Teresa - Crónica do Conde D. Pedro de Meneses. Edição e Estudo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian; Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, 1997. 742 páginas. ISBN 972-31-0767-8. BROCARDO, Maria Teresa - Transmissão Textual e variação nas Crónicas norte-africanas de Zurara. In Actas do XII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, 1997. 16 páginas. DINIS, António Dias - Vida e Obras de Gomes Eanes de Zurara, Introdução à Crónica dos Feitos de Guiné, I. Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1949. [S/ISBN]. GOMES, Rita Costa - Zurara and the Empire: Reconsidering Fifteenth-century Portuguese Historiography. In Storia della storiografia, nº47, 2005. 33 páginas. ISSN 0392-8926. GOMES, Rita Costa - Zurara, Gomes Eanes de. In Dicionário de Literatura Medieval Galega e Portuguesa. Org. e Coord. de LANCIANI, Giulia; TAVANI, Giuseppe. Lisboa : Caminho, 1993. 4 páginas. ISBN 972-21-0871-9. LÁZARO, António Manuel - Gomes Eanes de Zurara. Crónica do Conde D. Pedro de Meneses Continuada à Tomada de Ceuta. Edição diplomática e crítica. Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1990. Dissertação de Mestrado. SERRA, José Corrêa da - Chronica do Conde D. Pedro de Menezes escrita por Gomes Eannes de Zurara Chronista Mór de Portugal, e Guarda Mór da Torre do Tombo, Collecção de Livros Inéditos de História Portugueza dos Reinados de D. João I, D. Duarte, D. Afonso V, e D. João II. 1792. [S.L., S.N., S/ISBN]. SERRÃO, Joaquim Veríssimo - Cronistas do Século XV posteriores a Fernão Lopes. Lisboa: Instituto de Língua Portuguesa, 1989. 88 páginas. ISBN 972-566-140-0

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