Euglossa cordata, popularmente chamada abelha-das-orquídeas, é uma espécie de abelha da família dos apídeos e do gênero Euglossa. Os euglossinos são abelhas neotropicais reconhecidas pela coloração metálica brilhante e pela importante atuação na polinização de plantas tropicais. Os euglossinos integram o clado das abelhas corbiculadas, juntamente com meliponinos, apinos e , compartilhando a presença da corbícula, estrutura utilizada no transporte de pólen e materiais de construção do ninho. A posição filogenética exata dos euglossinos dentro desse grupo permanece debatida, embora análises morfológicas e moleculares sustentem a monofilia das abelhas corbiculadas. O gênero Euglossa é o mais diverso entre os euglossinos, reunindo mais de uma centena de espécies distribuídas em diferentes subgêneros e grupos de espécies. E. cordata integra o grupo cordata, originalmente tratado como um complexo taxonômico que incluía várias formas posteriormente elevadas ao status de espécies plenas, como E. aureiventris, E. auriventris, E. auricollis, E. lazulina e E. townsendi. A espécie possui cerca de 11 milímetros de comprimento, coloração predominantemente verde metálica com reflexos azulados ou violáceos, língua relativamente curta e grande plasticidade ecológica, sendo capaz de ocupar desde florestas úmidas até ambientes urbanos fortemente modificados pela atividade humana.
A distribuição geográfica de E. cordata estende-se do México ao norte da Argentina, incluindo grande parte do território brasileiro, onde ocorre principalmente na Mata Atlântica, mas também no Cerrado e na Caatinga. A espécie apresenta elevada capacidade de dispersão, podendo realizar voos superiores a dezenas de quilômetros em busca de recursos florais e fragrâncias aromáticas. Os machos coletam compostos odoríferos produzidos principalmente por orquídeas, utilizando escovas especializadas presentes nas pernas anteriores para absorver substâncias aromáticas posteriormente armazenadas em câmaras tibiais modificadas. Esses perfumes são utilizados durante o comportamento reprodutivo em territórios de exibição, onde os machos realizam voos ritualizados e interações competitivas. As fêmeas visitam uma ampla diversidade de flores para coletar néctar, pólen e resinas, demonstrando comportamento altamente generalista. A espécie atua como importante polinizadora de diversas orquídeas neotropicais e também de numerosas plantas ornamentais, agrícolas e nativas. Além das flores, os machos são frequentemente atraídos por madeira em decomposição, fungos, seiva, frutos e até compostos odoríferos desagradáveis, comportamento associado à coleta de fragrâncias utilizadas na reprodução.
A nidificação de E. cordata caracteriza-se pela utilização de cavidades naturais ou artificiais revestidas internamente por resina. Os ninhos podem ser construídos em bambus, raízes, cavidades vegetais, caixas-isca, tubos artificiais e até estolões secos da bromélia Aechmea distichantha, como registrado em populações da ilha da Vitória, no litoral paulista. As células de cria são ovais e compostas principalmente por resina misturada a materiais vegetais, sendo abastecidas com uma mistura de néctar e pólen antes da deposição de um único ovo. A organização social da espécie é considerada primitivamente eussocial, com colônias compostas por uma fêmea dominante e subordinadas totipotentes capazes de ovipositar. A dominante mantém sua superioridade reprodutiva através de agressividade e substituição dos ovos depositados pelas subordinadas, frequentemente consumindo-os após a postura. Os ninhos podem ser reutilizados por diferentes gerações, formando colônias multifemininas relativamente estáveis. A arquitetura dos ninhos apresenta elevada plasticidade comportamental, variando conforme o tamanho e o formato da cavidade disponível. Em cavidades estreitas, as células tendem a ser alinhadas linearmente; em cavidades amplas, formam agrupamentos compactos. Essa flexibilidade estrutural é considerada uma importante adaptação ecológica da espécie.
Apesar de ser uma espécie resistente à perturbação ambiental e frequentemente abundante em ambientes urbanos, E. cordata sofre influência significativa das alterações da paisagem sobre sua morfologia, ecologia e dinâmica populacional. Estudos morfométricos demonstraram que populações submetidas a sistemas agroflorestais e paisagens fragmentadas apresentam diferenças na forma e no tamanho das asas, provavelmente associadas à plasticidade fenotípica, fragmentação florestal, variabilidade genética e mudanças microclimáticas. A redução de áreas florestais pode aumentar as distâncias de forrageamento e expor as abelhas a maior estresse térmico e escassez de recursos. Indivíduos maiores tendem a apresentar maior eficiência de dispersão e resistência fisiológica, o que pode favorecer sua sobrevivência em ambientes agrícolas fragmentados. A espécie também possui diversos inimigos naturais, incluindo a abelha cleptoparasita Hoplostelis bilineata, vespas parasitoides, formigas, moscas do gênero Anthrax, aranhas e pequenos vertebrados predadores. Devido à sua ampla distribuição, sensibilidade às alterações ambientais e facilidade de monitoramento, E. cordata tem sido considerada uma potencial bioindicadora da qualidade ambiental em ecossistemas neotropicais. Além disso, apresenta importância econômica em pequenos sistemas agrícolas e agroflorestais, atuando na polinização de culturas como goiaba, tomate, café sombreado, urucum e cajueiro.
Taxonomia e filogenia
Euglossa cordata pertence ao gênero Euglossa, da tribo dos euglossinos, dentro da subfamília dos apíneos da família himenóptera dos apídeos. Os euglossinos atuam como polinizadoras em toda a região tropical das Américas e são conhecidas por sua aparência metálica e brilhante. Os euglossinos são uma das 23 tribos reconhecidas de apíneos, mas faz parte de um conjunto de quatro tribos altamente distintas que compõem um clado dentro dos apinídeos, conhecido atualmente como corbiculado. Esse grupo recebe esse nome devido à presença da corbícula, uma depressão côncava localizada nas pernas posteriores usada para transportar materiais de construção do ninho e provisões alimentares das células de cria, considerada uma possível sinapomorfia do grupo. As outras três tribos corbiculadas são os meliponinos (abelhas-sem-ferrão), os (mamangavas) e os apinos (abelhas-do-mel). Diversos estudos morfológicos demonstraram que as abelhas corbiculadas formam um grupo monofilético. Análises moleculares utilizando múltiplos genes também sustentam essa monofilia quando combinadas em análises simultâneas, embora análises baseadas em genes isolados frequentemente produzam resultados conflitantes, às vezes inserindo grupos externos dentro do próprio clado corbiculado. A posição filogenética exata dos euglossinos em relação às demais tribos corbiculadas permanece incerta. Análises morfológicas mais recentes, incluindo dados fósseis, sugerem que os euglossinos sejam o grupo-irmão das demais tribos corbiculadas, formando a relação euglossinos + (bombinos + (apinos + meliponinos)). Contudo, outras interpretações morfológicas encontraram suporte equivalente para uma hipótese alternativa em que os euglossinos aparecem como grupo-irmão dos bombinos, ou seja, (euglossinos + bombinos) + (apinos + meliponinos).
Os dados moleculares também apresentam resultados divergentes em relação às análises morfológicas. Estudos baseados em DNA frequentemente recuperam um clado fortemente sustentado unindo bombinos e meliponinos, enquanto a posição de euglossinos varia entre grupo-irmão dos apinos ou grupo-irmão do clado bombinos + meliponinos. Em algumas análises, a relação encontrada foi a seguinte: (euglossinos + apinos) + (bombinos + meliponinos). Em outras, os apinos aparecem separado, enquanto os euglossinos se associam ao clado dos bombinos + meliponinos. Segundo os pesquisadores P. J. Lockhart e S. A. Cameron, as abelhas corbiculadas teriam passado por uma rápida radiação evolutiva antiga. Nesse modelo, os ramos internos da árvore filogenética seriam extremamente curtos, representando um breve período de divergência entre as tribos, enquanto os ramos externos seriam longos, refletindo longos períodos de evolução independente. Esse padrão dificultaria a reconstrução precisa das relações evolutivas entre os grupos. Atualmente, reconhecem-se cinco gêneros de euglossinos: Aglae, Eufriesea, Euglossa, Eulaema e Exaerete. Nas últimas décadas, cinco hipóteses principais foram propostas para explicar as relações entre esses gêneros. Em geral, tanto os estudos moleculares quanto parte dos estudos morfológicos concordam que Eufriesea e Eulaema formam um clado fortemente sustentado. Também existe apoio recorrente para que Aglae, um gênero cleptoparasita, represente o ramo basal dos euglossinos. Em 1982, Aglae foi considerado o gênero mais basal dos euglossinos; já em 1987, passou a ser interpretado como grupo-irmão derivado de Eulaema. L. S. Kimsey sugeriu que o comportamento parasítico de Aglae teria provocado forte simplificação e modificação de características externas, dificultando sua correta posição filogenética. Um estudo morfológico posterior, realizado por M. L. Oliveira, utilizou um conjunto maior de caracteres anatômicos e produziu uma árvore inteiramente congruente com a filogenia molecular. Entretanto, reanálises posteriores ainda encontraram ambiguidades sobre qual gênero seria grupo-irmão do clado Eufriesea + Eulaema, com Euglossa e Exaerete apresentando suporte semelhante.
Dos 187 táxons então reconhecidos para euglossinos, 122 haviam sido descritos ao longo dos 209 anos transcorridos entre a descrição de Euglossa cordata por Lineu, em 1758, e a publicação da grande lista sistemática do padre Jesus Santiago Moure em 1967. Grande parte desse avanço deveu-se principalmente aos trabalhos revisionais de Kimsey — especialmente para Exaerete e Eufriesea — e aos estudos de Robert L. Dressler voltados para Euglossa. Após a lista de 167 espécies compilada por Kimsey e Dressler em 1986, houve uma redução de cerca de 2,5 vezes na produção taxonômica durante os 17 anos seguintes, passando para uma média aproximada de apenas uma nova espécie descrita por ano. Estima-se que ainda existam entre 50 e 75 espécies de euglossinos não descritas formalmente, possivelmente até mais. Entre os cinco gêneros da tribo, Euglossa é de longe o mais diverso. O gênero possuía então 104 espécies reconhecidas, distribuídas em seis subgêneros e doze grupos de espécies. Dressler publicou em 1978 uma classificação infragenérica abrangente para Euglossa, considerada até hoje a principal referência sistemática do grupo, na qual constam os seguintes subgêneros e espécies: Glossuropoda, com os grupos intersecta (quatro espécies) e rugilabris (uma espécie); Glossura, com os grupos piliventris (cinco espécies) e stellfeldi (duas espécies); Glossurella, com o grupo bursigera (21 espécies); Dasystilbe, com o grupo villosa (uma espécie); Euglossella, com o grupo viridis (12 espécies); e Euglossa estrito senso, com os grupos analis (sete espécies), viridissima (uma espécie), cybelia (sete espécies), purpurea (22 espécies) e cordata (18 espécies). Além desses, havia ainda um pequeno conjunto de espécies de posição filogenética incerta, incluindo um táxon fóssil descrito posteriormente. Hoje, cinco subespécies de E. (Euglossa) cordata são tratadas como espécies plenas: E. aureiventris, E. auriventris, E. auricollis, E. lazulina e E. townsendi.
Descrição