O acento secundário no português brasileiro (PB) refere-se a uma proeminência rítmica de natureza suprassegmental que ocorre em sílabas pretônicas, apresentando uma intensidade menor do que o acento primário (lexical), mas superior à das sílabas átonas adjacentes.Collischonn, G. Acento secundário em português. Letras de Hoje, v. 29, n. 4, 1994. Ao contrário do acento primário, que possui função distintiva no português (como em sabiá, sabia e sábia), o acento secundário é majoritariamente rítmico e não gera oposição de significado entre pares mínimos.
Historicamente, o estudo desse fenômeno remonta ao século XV, onde era compreendido na métrica poética como uma dupla acentuação necessária para a cadência dos versos.Santos Solé, A. (2020). Correlatos acústicos do acento secundário no espanhol mexicano: Estudo baseado em um corpus de transmissões radiofônicas (Tese de Doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul Na linguística contemporânea, o português brasileiro é frequentemente contrastado com o português europeu (PE) por apresentar padrões de acentuação secundária distintos, com o PB exibindo uma forte tendência à binariedade rítmica.Santana, B. P. (2014). O acento secundário no português brasileiro: Resultados de um experimento piloto. Revista Versalete, 2(3) .Abaurre, M. B. M., Sandalo, F., & González-López, V. (2014). Apagamento vocálico e binariedade no português: uma investigação baseada em preditivas Bayesianas. D.E.L.T.A., 30(1), 1-21 .
Padrões fonológicos e rítmicos A atribuição do acento secundário no português brasileiro é regida por princípios da fonologia métrica, que organiza as sílabas em unidades chamadas "pés".
Binariedade e direcionalidade A teoria clássica estabelece que o acento secundário no PB segue um padrão binário, sendo atribuído da direita para a esquerda a partir da sílaba tônica.FERNANDES-SVARTMAN, F. R. ; Acento secundário, atribuição tonal e ênfase em português brasileiro (PB). Estudos Lingüísticos (São Paulo) , v. 38, p. 47-58, 2009 . No modelo de grade métrica, constroem-se constituintes binários (troqueus) de cabeça à esquerda, o que resulta na acentuação de cada segunda sílaba à esquerda do acento primário. Exemplos: cò.li.brí, prò.ba.bì.li.dá.de, ìr.res.pòn.sa.bì.li.dá.de
Variação em sílabas ímpares Quando uma palavra possui um número ímpar de sílabas pretônicas, ocorre um conflito entre a preferência pelo padrão binário e a tendência de marcar a sílaba inicial. Nesses casos, dois padrões são observados:
Padrão Binário: O acento recai na segunda sílaba a partir do início (ex: a.bà.ca.xí).
Dátilo Inicial (ou Recuo do Acento): O acento recai na primeira sílaba, criando um intervalo de duas sílabas átonas antes da próxima proeminência (ex: à.ba.ca.xí ou ìn.co.mù.ni.ca.bi.li.dá.de).
Estudos experimentais indicam que o falante de PB tem uma preferência sistemática por marcar a sílaba inicial da palavra prosódica, independentemente de ela ser par ou ímpar na contagem binária.
Correlatos acústicos A identificação física do acento secundário é mais complexa do que a do acento primário, pois seus correlatos acústicos são menos estáveis e frequentemente dependem da combinação de múltiplos parâmetros.
Duração: Embora a sílaba tônica seja marcada por um alongamento considerável, o acento secundário apresenta uma duração intermediária. Alguns estudos sugerem que a duração não é o preditor mais robusto para o acento secundário no PB, servindo mais para distinguir o acento lexical do frasal.
Frequência Fundamental (F0): A variação na altura tonal é um correlato frequente. Sílabas percebidas como portadoras de acento secundário costumam apresentar picos de F0 ou a associação de um tom alto (H) adicional. Intensidade: Pesquisas recentes demonstram que a intensidade é um correlato robusto para a percepção do acento secundário no PB. Existe uma correlação crescente onde o aumento da intensidade nas sílabas do entorno (pretônicas adjacentes) auxilia na percepção da proeminência secundária.Fernandes-Svartman, F., Abaurre, M., González-López, V. & Bianchi, M., (2012) “Secondary stress, intensity and fundamental frequency in Brazilian Portuguese”, Journal of Portuguese Linguistics 11(2), 51-67. doi: https://doi.org/10.5334/jpl.84
Influência da morfologia e redução vocálica O histórico morfológico da palavra desempenha um papel na localização do acento secundário. Em palavras derivadas, o acento secundário pode recair sobre a posição que era ocupada pelo acento primário na palavra de origem.
Preservação da qualidade vocálica Uma evidência fonológica importante para o acento secundário no PB é a resistência à redução vocálica. Vogais médias pretônicas que recebem acento secundário tendem a manter seu timbre aberto ou fechado (conforme a palavra base), evitando a neutralização típica de sílabas átonas . Por exemplo, em médico > medicina, a manutenção da vogal média /e/ (em vez da redução para [i]) é vista como um indício da presença de proeminência secundária herdada.
Apagamento rítmico O fenômeno do apagamento de vogais (síncope) também interage com o acento secundário. Em palavras com número ímpar de sílabas, como modernização, o apagamento da vogal /i/ (resultando em modern'zação) pode ocorrer para otimizar a estrutura métrica e transformá-la em um padrão binário perfeito de pés.
Acento retórico e pragmática Em contextos de ênfase ou oratória, o acento secundário assume uma função pragmática, sendo muitas vezes chamado de acento retórico. Ele é frequentemente utilizado por profissionais da fala (locutores, professores, políticos) para manter a atenção da audiência ou destacar informações novas no discurso. Nesses contextos enfáticos, a implementação do acento secundário tende a marcar o início da palavra prosódica de forma mais saliente, muitas vezes associada a uma pausa precedente ou a uma excursão tonal mais alta.
Referências bibliográficas Abaurre, M. B. M., Sandalo, F., & González-López, V. (2014). Apagamento vocálico e binariedade no português: uma investigação baseada em preditivas Bayesianas. D.E.L.T.A., 30(1), 1-21 . Collischonn, G. Acento secundário em português. Letras de Hoje, v. 29, n. 4, 1994 . Fernandes-Svartman, F. R. Acento secundário, atribuição tonal e ênfase em português brasileiro (PB). Estudos Lingüísticos, v. 38, p. 47-58, 2009 . Fernandes-Svartman, F., Abaurre, M., González-López, V. & Bianchi, M., (2012) “Secondary stress, intensity and fundamental frequency in Brazilian Portuguese”, Journal of Portuguese Linguistics 11(2), 51-67. doi: https://doi.org/10.5334/jpl.84 Keller, T. Um estudo experimental do acento secundário no português brasileiro (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2004 . Santana, B. P. (2014). O acento secundário no português brasileiro: Resultados de um experimento piloto. Revista Versalete, 2(3) . Santos Solé, A. (2020). Correlatos acústicos do acento secundário no espanhol mexicano: Estudo baseado em um corpus de transmissões radiofônicas (Tese de Doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bibliografia complementar Abaurre, M. B. M.; Galves, C. M. C. As diferenças rítmicas entre o Português Europeu e o Português Brasileiro: uma abordagem otimalista e minimalista. D.E.L.T.A., v. 14, n. 2, 1998. Arantes, P. Integrando Produção e Percepção de Proeminências Secundárias numa Abordagem Dinâmica do Ritmo da Fala. Tese (Doutorado), UNICAMP, 2010. Barbosa, P. A. Incursões em Torno do Ritmo da Fala. Campinas: Pontes, 2006. Bisol, L. O acento e o pé métrico binário. Cadernos de Estudos Lingüísticos, v. 22, 1992. Câmara Jr., J. M. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes, 1970. Frota, S.; Vigário, M. Aspectos de prosódia comparada: ritmo e entoação no PE e no PB. Braga: APL, 2000. Harris, J. W. Syllable Structure and Stress in Spanish: A Nonlinear Analysis. Cambridge: MIT Press, 1983. Hayes, B. Metrical Stress Theory: Principles and Case Studies. Chicago: University of Chicago Press, 1995. Lee, S. H. Morfologia e Fonologia Lexical no Português do Brasil. Tese (Doutorado), IEL-UNICAMP, 1995. Major, R. C. Stress and rhythm in Brazilian Portuguese. Language, v. 61, n. 2, 1985. Moraes, J. A. Secondary stress in Brazilian Portuguese: perceptual and acoustical evidence. XVth ICPhS, Barcelona, 2003. Sandalo, F. et al. Secondary stress in two varieties of Portuguese and the Sotaq optimality based computer program. Probus, v. 18, n. 1, 2006. Selkirk, E. Phonology and syntax: the relation between sound and structure. Cambridge: MIT Press, 1984. Wetzels, W. L. Primary Word Stress in Brazilian Portuguese and the Weight Parameter. Journal of Portuguese Linguistics, v. 5, 2007.
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