Ignacia Pachano de Fombona

Ignacia Pachano de Fombona (1867-1926"Venezuela, registros parroquiales y diocesanos, 1577-2022", em FamilySearch (https://www.familysearch.org/ark:/61903/1:1:QLXB-BK1N?lang=pt), Entry for Manuel José Antonio Tonbona Palacios Pachano and Manuel Tonbona Palacios, 14 Aug 1899. ) foi uma escritora e novelista venezuelana do século XIX. Nasceu em 1867 no município do Libertador, em Caracas. Foi assídua colaboradora da revista El Cojo Ilustrado que entre 1892 e 1915 se posicionou em lugar de destaque na literatura da Venezuela. Inscrita no romantismo, sua obra formada por contos e novelas, explora a melancolia romântica, a dualidade da vida como espaço de angústia e de redenção espiritual, a religiosidade cristã, a maternidade, o sofrimento pessoal, os triângulos amorosos e os amores impossíveis ou trágicos.

Vida e Carreira Ignacia Pachano foi filha do General Jacinto Pachano(1835-1903) e de Isabel de la Plaza e Manrique. Sua família materna e paterna está ligada a um círculo letrado de influência, primeiro pela figura de seu pai, que além de militar, político e diplomata também foi escritor. No lado materno, se encontra o General Ramón de la Plaza Manrique Fombona, também importante intelectual, este, filho do escritor Evaristo Fombona. A partir de sua viuvez (1903), Ignacia se encarregou da educação dos dois filhos: Manuel José Antonio Fombona Pachano e Jacinto Fombona Pachano (1901-1951), este último, reconhecido por sua trajetória intelectual e diplomática; foi membro fundador e diretor da Academia Nacional de História no país e fez parte da chamada Generación del 18, grupo relevante da literatura venezuelana moderna.

Ignacia Pachano foi reconhecida como assídua colaboradora da revista El Cojo IlustradoEL COJO ILUSTRADO, n. 35, pp. 67, 1895, https://bibliotecadigital.bnv.gob.ve/wp-content/uploads/1895-75.pdf. Na página 67, do número 75 da revista em 1985, o editor Eugenio Mendez y Mendoza (1857-1903) diz: “A Sra. Fombona cultiva as belas artes com gosto refinado e sucesso crescente”. Foram publicados nas páginas de El Cojo Ilustrado: "Recuerdos" (Memórias) e "Fantasía" (Fantasia), nas edições 42 e 44, respectivamente, além de dois romances. Nesse mesmo número do El Cojo Ilustrado, Mendoza também afirma: “Senhora Ignacia P. de Fombona Palacio. Senhoras ilustres prestam hoje uma grande honra ao El Cojo Ilustrado, enviando-nos hoje suas obras literárias e artísticas como tributo ao Grande Marechal por ocasião do seu centenário. Na seção apropriada, nossos leitores encontrarão o belo artigo da Sra. Fombona publicado”. Em uma época em que mulheres escritoras eram escassas, essas citações demonstram a relevância da autora para a revista e a sociedade venezuelana.

Todas as obras de Ignacia publicadas no El Cojo Ilustrado, foram assinadas mediante o pseudônimo de Blanca. A divulgação de seu nome, fotografia e obras publicadas se insere na comemoração do centenário do nascimento do militar e político venezuelano Antonio José de Sucre (1795-1830). El Cojo Ilustrado, seguindo o exemplo das damas de Coro, da Sociedade Literária de Lobatera (Venezuela), “reclama a gloriosa centúria com festa imortal e cantos da alma”, oferenda “belo e fragrante ramo”, formado por “nove distinguidas damas que autorizaram a publicação de seus retratos nesta revista”. “Se trata de venezuelanas cultivadoras das belas letras [e] abrem a galeria de venezuelanas notáveis: Isabel Pachano, Ignacia Pachano, Margarita de Pimentel, Maria Montemayor de Letts, Dolores Muñoz Tébar de Stolk, Maria Teresa Villalobos de Rojas de Valencia, Polita de Lima e Luisa Queremel”

Desconhece-se a causa de sua morte (1926).

Obras Ignacia Pachano destacou-se como precursora da literatura venezuelana no século XIX, ao lado de Lina López de Aramburu, Antonia Esteller (1844–1930), Concepción Acevedo de Taylhardat (1858–1953), Polita de Lima (1869–1944), Carmen Brigé (1868-1943) e Margarita Agostini Caspers . Publicou na revista El Cojo Ilustrado, fundada no ano de 1892, vigente até 1915 com o objetivo de “coadunar com a cultura nacional”GRASES, Pedro. Materiales para la historia del periodismo en Venezuela durante el siglo XIX. Universidad Central de Venezuela, Escuela de Periodismo, 1950. http://andromeda.unimet.edu.ve/anexos/libroe/texto/Materiales_para_la_historia.pdf Acesso em 11 de março de 2026. “Durante um quarto de século, as entregas da revista posicionaram a Venezuela em lugar de destaque na vida cultural do continente”.

Passou a colaborar com a revista em 1893, conforme registrado no editorial de 1º de janeiro de 1894 . Cabe destacar que é apresentada sob a designação de “señorita”, ao lado de Margot: “En el último año han ocupado las columnas de El Cojo Ilustrado, las señoras, señoritas y caballeros: (…) señoritas Blanca y Margot”. Entre as obras publicadas de Ignacia Pachano destacam-se os contos “Recuerdos” e “Fantasía”. Na escrita de Ignacia é evidente a apropriação do romantismo, movimento literário marcado pela imaginação abundante, a sensibilidade exacerbada e a influência da religiosidade cristã. A melancolia romântica, recorrente em suas obras, reflete a dualidade da vida como espaço de angústia e de redenção espiritual: “o cristão considera-se um viajante que atravessa um vale de lágrimas aqui na terra e só terá repouso no túmulo”CHATEAUBRIAND, François-René de. A melancolia romântica. Em: O gênio do cristianismo (1802). Disponível em: https://pt.scribd.com/document/724128258/A-melancolia-romantica .

O conto “Recuerdos” trata da maternidade a partir da observação das tórtolas, aves endêmicas venezuelanas. Destaca os cuidados de alimentar, higienizar e ensinar os filhotes como “um espetáculo belo, comovedor e sublime”. Compara-os com “as noites sem dormir, as ansiedades, as alegrias, e esperanças” dos cuidados que recebeu na infância de sua mãe. “As mães fazem os maiores sacrifícios pela felicidade de seus filhos”.“Que espetáculo lindo e emocionante! O amor de mãe se manifestou, como sempre, de forma sublime”.

A influência do romantismo também se observa no conto “Fantasía”, em que trata do amor impossível e trágico entre um homem e uma mulher a partir da metáfora da flor e do beija-flor: “A pobre rosa-pudor que chorava sentia por ti um amor puro e casto [...] E partiste, deixando a pobre flor apaixonada a chorar tristemente [...] Quando te vi novamente hoje, quando te vejo neste momento, diante de mim, ó amado beija-flor!... como me sinto feliz! [...] Quer que eu lhe conte o fim desses amores? Contarei que um dia se passou, e vários se passaram, e o beija-flor não voltou, e a pobre flor ficou triste, e suas folhas murcharam, e finalmente, um dia, um dia triste, a pobre flor morreu de tanto amar! [...] Aproximei-me do lugar onde outrora florescera a rosa-pudor, e ao lado dela encontrei o triste beija-flor, que, tal como a flor, estava morto de amor!”.

O conto “Abnegação”, apresenta intenso conflito sentimental e sofrimento pessoal, uma profunda melancolia descrita por características físicas e emocionais. A mudança para um estado de amor e inquietação se dá quando observa a Elvira, sua amiga da infância, e um homem que “despertou em nossos corações o amor que deveria nos dar, a uma, felicidade e, a outra, infortúnio”. “A voz daquela mulher [de Elvira] a faz estremecer, e como por magia seu rosto se ilumina, seu coração dispara [...] Uma crescente agitação faz com que seu olhar se fixe subitamente na bela figura [de Elvira], idealizada com um charme misterioso pela suave luz do luar”. O conflito sentimental recai no sentimento da autora com Elvira, sugerindo um interesse romântico. Trata-se de abordagem vanguardista em temáticas que eram consideradas tabus a época: triangulo amoroso, sexualidade feminina e amor romântico entre mulheres.

Ambas as novelas, “Para el cielo” e “En la playa”, foram publicadas como folhetim do El Cojo Ilustrado, assinadas em coautoria com Margarita Agostini Caspers, filha do político e dramaturgo Rafael Agostini Hospedales (1808-1881). O folhetim, estratégia de publicação oitocentista, consistia na divulgação de um ou mais capítulos para cada número de revista ou jornal. Essa disseminação contínua e seriada podia aparecer na parte inferior da primeira página ou abaixo da seção de anúncios. Essa estratégia alcançou uma circulação e um número de leitores que a publicação de um livro por si só não conseguiria garantirWESTPHALEN, Yolanda. Mercedes Cabello de Carbonera: entre la novela folletín y la ficcio(ilêni)alización letrada. Cemhal, n. 163. 2015, p. 1-15. https://cemhal.org/anteriores/2015_2016/No_163_4.pdf .

Ambientada na Itália, a novela “Para el cielo”, com referências a Milão, Turim e Gênova, é protagonizada por personagens da aristocracia europeia, como o duque de Jonville, a condessa de Fiore e o Capitão Hernando de Lara. A narrativa destaca a trajetória de Leonor, filha da condessa de Fiore, cujo casamento com o duque de Jonville, Enrique, resulta em abandono e sofrimento: “Quanto me amavas! Como eu era feliz com seu amor! E como me faz sofrer esta dúvida que martiriza minha alma”. A tenacidade do duque, obcecado e não correspondido pela condessa de Bainchi, Elena de Zamieiri, a faz “deixar a cidade”, professar votos religiosos sob o nome de Sor Isabel e dedicar-se à caridade no Hospício Irmãs de Santa Maria,Turim.

Assim, configura-se o primeiro triângulo amoroso da novela - Leonor - Enrique - Elena - , que culmina no fim trágico do duque. Este encontra a morte pedindo perdão às duas mulheres: “Perdão… Elena! Perdão… Leonor!... Meu Deus, tenha piedade mim!”. O triângulo amoroso (Leonor, Enrique e Elena) apresenta sob a forma de tensão moral e sentimental. Entretanto, a narrativa subverte a expectativa de consumação desse afeto ao conferir a Elena uma dimensão espiritual elevada. Dotada de “uma alma superior [...] e repleta de um profundo sentimento religioso”, a personagem opta pelo recolhimento no convento, convertendo o amor terreno em renúncia e transcendência. Tal escolha reafirma a obra no horizonte do movimento romântico, no qual o amor impossível, o conflito interior e a religiosidade aparecem frequentemente entrelaçados. Nesse contexto, a referência a Deus e à espiritualidade funciona como instância de sublimação das paixões humanas, transformando o sofrimento amoroso em via de elevação moral e metafísica.

Cinco anos após a morte do duque de Jonville, Leonor, marcada pela decepção com o falecido marido, encontra-se em um estado de profunda melancolia, vivendo sob o peso da desilusão amorosa: “Aquele delicado coração que havia concebido do amor uma ideia tão elevada, ao ver-se enganado por suas crenças, experimentou o mais amargo desencanto”. Esse estado de debilidade emocional converte-se em adoecimento físico, passando ela a estar sob os cuidados do Doutor Jorge Wilbert e de sua mãe, a condessa de Fiore. Silenciosamente, o Doutor Wilbert se apaixona pela paciente: “A princípio acreditou que seu único interesse era a saúde da jovem; mas, por fim, reconheceu que uma paixão ardente e avassaladora havia se apoderado dele”. Logo depois, é apresentado Hernando, Capitão de Navio da Armada Espanhola e sobrinho do General Ricontti, amigo da família. Comovido pela beleza e estado de melancolia de Leonor, de pronto se apaixona, de forma intensa e idealizada: “Cresceu sua admiração por ela a ponto de conceber o firme propósito de conquistar aquele coração, que já se tornara uma necessidade para sua vida”.