A Formação Pedra de Fogo é uma formação geológica do começo do Permiano (Kunguriano) da Bacia do Parnaíba, no nordeste do Brasil. Seus afloramentos ocorrem principalmente nos estados do Maranhão e do Piauí, além de alguns em Tocantins. Acredita-se que tenha sido depositada em um ambiente continental e lacustre, com influências marinhas ocasionais, em planícies de inundação sazonais, canais e pequenos lagos.

Essa formação produziu abundantes restos de animais e plantas, sendo a maioria representada por vertebrados, como anfíbios temnospôndilos, por exemplo, Prionosuchus, répteis captorrinídeos e peixes como condrictes, actinopterígios e sarcopterígios. Madeira petrificada também é amplamente conhecida na formação, a ponto de constituir uma de suas principais características diagnósticas. As porções setentrionais da formação fornecem táxons de origem continental; a porção intermediária apresenta uma mistura de táxons continentais e marinhos; e a porção meridional exibe predominância de táxons marinhos.

História Fósseis da Formação Pedra de Fogo são conhecidos pelo menos desde o século XIX. Em 1872, Adolphe Brongniart descreveu o primeiro fóssil de madeira petrificada da região, que consistia no caule da samambaia Psaronius brasiliensis. O fóssil foi coletado no estado do Piauí, entre os municípios de Oeiras e São Gonçalo do Piauí.

A formação foi reconhecida e definida pela primeira vez em 1948 pelo paleontólogo Frederick Byron Plummer, após uma visita à Bacia do Parnaíba realizada em 1946 juntamente com Llewellyn Ivor Price e Gomes. Ele definiu a Formação Pedra de Fogo para classificar sílex e samambaias fósseis do gênero Psaronius que afloram entre os municípios de Nova Iorque e Pastos Bons, no estado do Maranhão. O nome “Pedra de Fogo” deriva de um pequeno riacho que atravessa a área; esse nome, por sua vez, se refere à abundância de sílex (ou “pedra-de-fogo”) presente em seu leito.

Durante breves visitas realizadas em 1945 e 1946, Price coletou fósseis de peixes e anfíbios ao sul do município de Pastos Bons. O anfíbio, posteriormente descrito por Price em 1948 como Prionosuchus plummeri, seria tanto o primeiro temnospôndilo descrito na América do Sul quanto possivelmente um dos maiores já encontrados. Os fósseis de peixes foram identificados como espinhos de nadadeiras e dentes de tubarões ctenacantos e xenacantos, respectivamente, além de escamas de paleoniscóides, coprólitos e fósseis vegetais de Psaronius. Esse também foi o primeiro táxon de planta fóssil oficialmente descrito no Brasil. Price concluiu então que a formação tinha idade permo-carbonífera, provavelmente pertencente ao Cisuraliano.

A descoberta de Prionosuchus despertou especial interesse por se tratar do primeiro anfíbio do Cisuraliano encontrado na América do Sul e por ter sido, durante muito tempo, um dos poucos tetrápodes dessa idade conhecidos em Gondwana. Por isso, duas novas expedições foram realizadas à bacia: a primeira em 1970, por Price e J. Attridge, que encontraram alguns fragmentos de anfíbios; a segunda, em 1972, foi uma expedição maior composta por C. Barry Cox, Attridge, Price e seu assistente D. A. Campos.

Descrição

Geologia A Formação Pedra de Fogo é descrita como composta por depósitos alternados de silte, calcário e sílex. Plummer descreveu as camadas de silte como portadoras dos fósseis de vertebrados, enquanto os níveis de sílex contêm grandes troncos de madeira petrificada em algumas camadas. A sedimentação dessa formação ocorreu em ciclos, cada um iniciando com arenitos, seguidos por arenitos de granulação fina ou lamitos, calcários concrecionários ou oolíticos, e então lentes de calcário e folhelhos fossilíferos esverdeados. Na porção centro-sul da Bacia do Parnaíba, a formação apresenta afloramentos com cerca de 100 metros de espessura.

Faria e Truckenbrodt (1980) propuseram a divisão da Formação Pedra de Fogo em três membros: Silex Basal, Membro Médio e Trisidela. Estudos posteriores também dividiram a formação em membros que se correlacionam bem com a estratigrafia proposta por esses autores.

O Membro Inferior, ou Silex Basal, tem aproximadamente 20 metros de espessura e é composto por lamitos e folhelhos cinzentos, púrpura ou marrons. Dispersas entre essas camadas aparecem algumas camadas dolomíticas com concreções escuras de sílex.

O Membro Médio é formado por sedimentos clásticos mais finos e consiste em arenitos, calcários e lamitos, que por vezes apresentam caráter carbonático.

O Membro Superior, ou Trisidela, possui cerca de 40 metros de espessura e consiste em camadas dolomíticas cinzentas com lamitos intercalados, folhelhos carbonáticos cinza-esverdeados e calcários com níveis e concreções de sílex.

Idade A idade dessa formação, assim como a da próxima Formação Motuca, foi debatida durante muitos anos. Diferentes autores propuseram idades variadas com base em plantas fósseis, pólen fossilizado, restos de peixes e anfíbios temnospôndilos. O intervalo estratigráfico do gênero de tubarão ctenacanto Glikmanius restringe a idade entre o Carbonífero e o Guadalupiano (Permiano Médio). Estudos palinológicos sugerem uma idade cisuraliana (Permiano Inferior), com base também nas semelhanças entre o pólen da Formação Pedra de Fogo e o da Formação Flowerpot, no Texas (Cisuraliano–Guadalupiano).

Há grande sobreposição entre a comunidade de plantas fósseis dessas duas formações e a da Floresta Petrificada de Chemnitz, na Alemanha, datada de cerca de 278 ± 5 milhões de anos, no Kunguriano. Essa conclusão é reforçada pela descoberta do condrictio Itapyrodus tanto nessa formação quanto na Formação Irati, da porção sul da Bacia do Paraná, datada de cerca de 278,4 ± 5 milhões de anos, além da descoberta do réptil Captorhinus aguti, posteriormente identificado como Captorhinikos, cuja última ocorrência no registro fóssil da América do Norte data do Kunguriano médio.

A presença de Prionosuchus foi proposta por alguns autores como indicativa de uma idade mais jovem, do Guadalupiano ao Lopingiano (Permiano Médio a Superior). Contudo, essa interpretação foi rejeitada por autores posteriores por se basear na história evolutiva de apenas um táxon, e não em dados biostratigráficos mais amplos.

Paleoambiente

No momento de sua deposição, há cerca de 278 milhões de anos, a Formação Pedra de Fogo estava localizada muito mais ao sul do que hoje, com o Trópico de Capricórnio passando pela região. A formação foi depositada em mares interiores rasos e restritos, além de ambientes costeiros e continentais, predominantemente sob clima quente.

As porções setentrionais da formação apresentam táxons de origem continental; a porção intermediária apresenta mistura de táxons continentais e marinhos; e a porção meridional mostra predominância de táxons marinhos. Algumas regiões fossilíferas foram interpretadas como de origem flúvio-lacustre, depositadas em diferentes subambientes aquáticos e terrestres nas margens e zonas costeiras de grandes lagos continentais, em planícies de inundação sazonais, canais e pequenos lagos.

A flora descrita nessa formação não é muito diversa e é composta por poucas espécies endêmicas conhecidas a partir de madeira petrificada e material comprimido. Apesar da grande área ocupada pela Formação Pedra de Fogo, ainda existem lacunas significativas no conhecimento paleobotânico dessa unidade. Além disso, frequentemente há incerteza sobre a posição estratigráfica exata e o ambiente sedimentar em que esses fósseis vegetais foram depositados.

Entre essas plantas fósseis estão a samambaia arbórea Psaronius, a cícada duvidosa Teresinoxylon e a licófita Cyclostigma, entre outras. Igualmente rica é a assembleia de vertebrados, majoritariamente aquáticos, encontrada na formação, embora alguns répteis também tenham sido registrados. Entre a fauna aquática estão numerosos condrictes, como tubarões ctenacantos e xenacantos, além de eugeneodontes, petalodontes, o paleonisciforme Brazilichthys e alguns peixes pulmonados e celacantos ainda não descritos. Também há diversos anfíbios temnospôndilos na região, sendo o mais notável Prionosuchus, além dos dvinossauros Timonya anneae e Procuhy nazariensis, bem como um rhinesuchídeo ainda não nomeado. Estromatólitos também estão presentes.

Categoria:Formações geológicas da Paraíba