Almoquetar ibne Abi Ubaide Atacafi (; – ) foi um revolucionário árabe pró-álida sediado em Cufa, que liderou uma rebelião contra o Califado Omíada em 685 e governou a maior parte do Iraque por dezoito meses durante a Segunda Guerra Civil Islâmica. Nascido em Taife, Almoquetar mudou-se ainda jovem para o Iraque e cresceu em Cufa. Após a morte de Huceine ibne Ali, neto do profeta islâmico Maomé, às mãos do exército omíada na Batalha de Carbala em 680, aliou-se ao califa rival Abedalá ibne Azobair em Meca, mas a aliança foi breve. Almoquetar retornou a Cufa, onde proclamou Maomé ibne Hanafia, filho do califa Ali e irmão de Huceine, como o mádi e o imame, conclamando ao estabelecimento de um califado álida e à vingança pela morte de Huceine. Ele tomou Cufa em outubro de 685, após expulsar seu governador zobaírida, e posteriormente ordenou a execução dos envolvidos na morte de Huceine. Relações hostis com ibne Azobair culminaram na morte de Almoquetar pelas forças do governador zobaírida de Baçorá, Muçabe ibne Azobair, após um cerco de quatro meses.
Embora derrotado, o movimento de Almoquetar teve consequências duradouras. Após sua morte, seus seguidores formaram uma seita xiita radical, mais tarde conhecida como , que desenvolveu doutrinas inovadoras e influenciou a ideologia xiita posterior. Almoquetar elevou o status social dos maulas (convertidos locais não árabes ao islã), que se tornaram uma importante força política. Os maulas e os caissanitas desempenhariam papel significativo na Revolução Abássida sessenta anos depois. Almoquetar foi importante como um dos primeiros defensores da igualdade entre muçulmanos árabes e não árabes. É figura controversa entre os sunitas; condenado por eles como falso profeta, mas reverenciado pela maioria dos xiitas por seu apoio aos álidas. As avaliações de historiadores modernos variam entre considerá-lo um revolucionário sincero ou um oportunista ambicioso.
Antecedentes thumb|Ali transferiu a capital do califado de Medina para Cufa
Almoquetar ibne Abi Ubaide ibne Maçude ibne Anre ibne Omair ibne Aufe ibne Afra ibne Omaira ibne Aufe ibne Taquife Atacafi nasceu em Taife em 622 EC (ano em que o profeta islâmico Maomé migrou para Medina) como filho de , comandante militar muçulmano da tribo dos taquifitas, e Dauma binte Anre ibne Uabe ibne Muatibe. Após a morte de Maomé em 632, Abu Becre tornou-se o primeiro califa. Ele morreu dois anos depois e foi sucedido por Omar , que prosseguiu com a expansão califal iniciada por Abu Becre e enviou o pai de Almoquetar, Abu Ubaide, para o fronte iraquiano. Abu Ubaide foi morto na Batalha da Ponte em novembro de 634. Almoquetar, então com treze anos, permaneceu no Iraque após a conquista muçulmana da região e foi criado por seu tio . Omar foi assassinado pelo escravo persa em 644, e seu sucessor, Otomão , governou por doze anos antes de ser assassinado por rebeldes em 656.
Após a morte de Otomão, Ali , primo e genro de Maomé, tornou-se califa e transferiu a capital para Cufa, onde Almoquetar ocupou um cargo menor sob seu governo, e seu tio tornou-se governador de Almadaim. Os apoiadores de Otomão, incluindo Moáuia ibne Abi Sufiane, governador da Grande Síria, recusaram-se a reconhecer a autoridade de Ali, levando ao início da Primeira Fitna. A Batalha de Sifim (julho de 657) terminou em impasse quando os iraquianos recusaram-se a continuar a luta diante do pedido sírio de arbitragem. Ali aceitou relutantemente negociar, mas um grupo de seus partidários, mais tarde chamado carijitas, separou-se em protesto. A arbitragem não resolveu o conflito, e Ali foi assassinado pelo dissidente carijita Abederramão ibne Muljame em janeiro de 661.
O filho mais velho de Ali, Haçane, tornou-se califa, mas Moáuia desafiou sua autoridade e invadiu o Iraque com seu exército sírio. Enquanto Haçane mobilizava suas tropas, foi ferido por um carijita perto de Almadaim e levado para a casa do tio de Almoquetar. Ali, Almoquetar teria recomendado que Haçane fosse entregue a Moáuia em troca de favores políticos, mas foi rechaçado por seu tio. Em agosto de 661, Haçane abdicou do califado em favor de Moáuia por meio de um tratado de paz, e a capital foi transferida para Damasco. Alguns anos antes de sua morte, Moáuia nomeou seu filho Iázide como sucessor, fundando assim o Califado Omíada. A nomeação de Iázide irritou os partidários álidas (apoiadores políticos de Ali e de sua família), pois foi vista como violação do tratado de paz, que estipulava que Moáuia não indicaria um sucessor. Existem poucas informações sobre a juventude de Almoquetar, e ele só ganhou proeminência quando já tinha cerca de sessenta anos.
Revolta Com a ascensão de Iázide em abril de 680, os cufanos pró-álidas instaram Huceine ibne Ali, irmão mais novo do já falecido Haçane, a liderar uma revolta contra Iázide. Huceine enviou então seu primo Muslim ibne Aquil para avaliar o ambiente político em Cufa. Almoquetar hospedou Ibne Aquil em sua casa antes da chegada de . Este foi nomeado para substituir o sogro de Almoquetar, Anumane ibne Baxir, como governador, devido à atitude benevolente de Ibne Baxir para com Ibne Aquil e seus seguidores. Como resultado da repressão e das manobras políticas de Ibne Ziade, o apoio a Ibne Aquil começou a se dissipar, e ele foi forçado a declarar a revolta prematuramente. Almoquetar não estava na cidade naquele momento. Ao saber das notícias, tentou reunir apoiadores nos arredores de Cufa, mas a revolta de Ibne Aquil foi derrotada e ele foi executado antes que Almoquetar retornasse à cidade. Almoquetar foi preso e levado ao governador, mas negou envolvimento na revolta. Enquanto estava preso, Huceine foi morto pelas forças de Ibne Ziade na Batalha de Carbala em 10 de outubro de 680. Almoquetar foi posteriormente libertado por intervenção de Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe, influente filho do segundo califa e cunhado de Almoquetar, e recebeu ordem de deixar Cufa.
Exílio em Meca Nesse período, Abedalá ibne Azobair, filho do companheiro próximo de Maomé, Azobair ibne Alauame, começou secretamente a receber juramentos de lealdade em Meca e passou a controlar todo o Hejaz (Arábia Ocidental). Após deixar Cufa, Almoquetar dirigiu-se a Meca e ofereceu lealdade a ibne Azobair sob a condição de ser consultado sobre assuntos importantes e receber um alto cargo, o que ibne Azobair recusou. Almoquetar então partiu para Taife e, após um ano, ibne Azobair, persuadido por seus conselheiros, aceitou sua homenagem nos mesmos termos. Quando Iázide enviou um exército para retomar Meca em 683, Almoquetar participou da defesa da cidade. Após a morte de Iázide em novembro, o exército omíada recuou e ibne Azobair proclamou abertamente seu califado. Almoquetar foi informado por pessoas vindas de Cufa de que a cidade havia passado ao controle de ibne Azobair, mas muitos cufanos buscavam um líder independente próprio. Ele afirmou ser o homem que procuravam. Enquanto estava em Meca, buscou permissão do filho de Ali, Maomé ibne Hanafia, para vingar a morte de Huceine e assegurar o poder para Ibne Hanafia. Este respondeu que não aprovava nem desaprovava tal ação, mas que o derramamento de sangue deveria ser evitado. Anteriormente, ele fizera a mesma proposta ao filho de Huceine, Ali Açajade, mas fora recusado. Cinco meses após a morte de Iázide, retornou a Cufa sem informar ibne Azobair, que considerava não ter cumprido sua promessa. Alguns relatos afirmam que o próprio ibne Azobair o enviou a Cufa como governador com instruções para reunir uma força capaz de resistir às tentativas omíadas de reconquistar o Iraque. Isso é considerado improvável por historiadores modernos.
Retorno a Cufa thumb|300px|Vista da Cufa atual, sede de Almoquetar, e sua Grande Mesquita, onde seu túmulo estaria localizado.
Em Cufa, Almoquetar começou a recrutar pessoas para vingar os assassinos de Huceine, prometendo-lhes vitória e fortuna. Ao mesmo tempo, , companheiro de Maomé e partidário álida, reunia um grupo de cufanos que se autodenominavam para combater os omíadas e expiar sua falha em apoiar Huceine na Batalha de Carbala. O movimento tauabinita criou dificuldades para Almoquetar. A maioria dos partidários álidas em Cufa apoiava Ibne Surade por ele ter sido companheiro de Maomé, e, como resultado, Almoquetar não conseguiu atrair muitos recrutas. Ele criticou as ações dos tauabinitas como prematuras e fadadas ao fracasso, argumentando que Ibne Surade era idoso, fraco e inexperiente militarmente. Em seguida, afirmou ser representante de Ibne Hanafia, a quem chamava de Mádi. Convenceu muitos partidários álidas, incluindo cerca de quinhentos maulas (convertidos locais ao islã), de que agia sob ordens do Mádi.
Desconfiando da autenticidade das alegações de Almoquetar, um grupo de partidários álidas de Cufa foi a Meca buscar confirmação junto a Ibne Hanafia. Ele respondeu de modo ambíguo que estava satisfeito com qualquer pessoa que Deus utilizasse para vingar os inimigos da família do Profeta. Interpretaram isso como confirmação das alegações de Almoquetar e retornaram para unir-se a ele. Para conquistar o ainda não convencido Ibraim ibne Alastar, influente partidário álida e chefe da tribo dos , Almoquetar apresentou-lhe uma carta que alegava ter sido escrita por Ibne Hanafia. Nela, Ibne Hanafia supostamente se declarava o Mádi e instava Ibne Alastar a apoiar Almoquetar. Após expressar dúvidas, Ibne Alastar acabou aderindo a ele. A carta provavelmente foi forjada, e Ibne Hanafia parece não ter tido envolvimento na revolta. Ele, contudo, tolerou o uso de seu nome e não desaprovou as atividades de Almoquetar. Ainda assim, quando quis visitar seus seguidores em Cufa, foi dissuadido por um rumor, espalhado por Almoquetar ao saber da notícia, de que o verdadeiro Mádi não morreria se fosse atingido por uma espada. ibne Azobair nomeou Abedalá ibne Iázide como governador de Cufa em 684. Temendo Almoquetar, Ibne Iázide o prendeu. Algum tempo depois, Abedalá ibne Omar intercedeu por Almoquetar, que prometeu abster-se de atividades antigovernamentais e foi libertado.
Derrubada do governador zobaírida
Após sua libertação, Almoquetar retomou suas atividades revolucionárias. Os tauabinitas foram derrotados pelos omíadas na Batalha de Aine Aluarda em janeiro de 685, e a maioria dos cufanos pró-álidas transferiu sua lealdade para Almoquetar. ibne Azobair substituiu Ibne Iázide por Abedalá ibne Muti como governador para conter a agitação esperada, mas sem sucesso. Almoquetar e seus seguidores planejaram derrubar o governador e tomar o controle de Cufa na quinta-feira, 19 de outubro de 685. Na noite de 17 de outubro, os homens de Almoquetar confrontaram as forças zobaíridas. Almoquetar sinalizou a declaração antecipada da revolta acendendo fogueiras. Na noite de quarta-feira, 18 de outubro, as forças zobaíridas foram derrotadas. Ibne Muti escondeu-se e depois, com ajuda de Almoquetar, escapou para Baçorá. Na manhã seguinte, Almoquetar recebeu a lealdade dos cufanos na mesquita com base no “Livro de Deus, na Suna do Profeta, na vingança pela família do Profeta, na defesa dos fracos e na guerra contra os pecadores”.
Governo sobre o Iraque
thumb|upright=1.5|Almoquetar controlou grande parte do Iraque de outubro de 685 até o final de 686.