O Cine São Martinho foi um cinema de Rua localizado no município de Tatuí, no interior do estado de São Paulo, considerado um dos principais espaços culturais da cidade ao longo do século XX. Situava-se na Praça da Matriz, no local onde atualmente funciona uma agência bancária. Sua trajetória está diretamente ligada ao desenvolvimento dos cinemas de rua no interior paulista e à consolidação de Tatuí como polo cultural regional.
História Nos anos 1910, Tatuí já apresentava uma vida cultural significativa, marcada por exibições teatrais e pela presença de exibidores de cinema itinerante, que movimentavam a cidade e atraíam o público local. Nesse contexto, Manoel Guedes Pinto de Melo, idealizador do projeto, decidiu investir na ampliação da infraestrutura cultural do município, contando com o apoio do cônego Demétrio Leopoldo Machado, responsável pela doação do terreno destinado à construção do edifício.
Dessa iniciativa surgiu o Theatro São Martinho, inaugurado em 1º de abril de 1913. O edifício foi concebido inicialmente como um espaço voltado ao teatro e a eventos sociais, recebendo peças teatrais, bailes, formaturas e apresentações musicais. esquerda|miniaturadaimagem|Theatro Sao Martinho em 1912 A partir da década de 1920, o teatro passou a abrigar também exibições de cinema mudo, acompanhando o processo de difusão do cinema no interior do estado de São Paulo. Nesse período, os filmes eram exibidos com acompanhamento musical ao vivo, executado por músicos locais. Em 1926, o prédio sofreu um incêndio, sendo posteriormente reconstruído.
Em 24 de dezembro de 1930, o espaço registrou um marco tecnológico ao exibir O Pagão, da Metro-Goldwyn-Mayer, considerado o primeiro filme sonoro exibido em Tatuí.
Fundação do Cine São Martinho Em meio ao crescimento urbano e cultural da cidade, o empresário Alberto Stape investiu na criação de uma sala dedicada exclusivamente ao cinema. O Cine São Martinho foi inaugurado em 5 de janeiro de 1939, marcando a transição definitiva do antigo modelo de cine-teatro para uma casa de exibição cinematográfica moderna.
A sessão inaugural exibiu o longa-metragem Branca de Neve e os Sete Anões, da Walt Disney Productions. O cinema contava com aproximadamente 200 poltronas do tipo Pullman, estofadas e numeradas, oferecendo um padrão de conforto considerado elevado para uma cidade do interior naquele período.
O principal marco de sua história ocorreu em 1º de abril de 1943, quando o Cine São Martinho foi reinaugurado após ampla reforma estrutural e técnica. As obras incluíram modernização da sala de projeção, instalação de cortinas de veludo, melhoria do sistema de ventilação, renovação do saguão e atualização dos equipamentos de exibição.
A reinauguração foi amplamente noticiada pela imprensa local e contou com grande presença de público, “consolidando o cinema como um dos principais equipamentos culturais da região, segundo a imprensa local. A partir desse período, o Cine São Martinho passou a disputar lançamentos nacionais e internacionais com salas de outras cidades do interior paulista.
Período áureo do cinema em Tatuí miniaturadaimagem|Cine São Martinho em 1958 Durante as décadas de 1940, 1950 e 1960, o cinema integrou o chamado período áureo do cinema em Tatuí, onde a cidade chegou a contar com 3 cinemas ativos concorrendo entre si e dinamizando as atividades culturais da cidade. Essa dinâmica contribuiu para uma programação diversificada, com exibição de produções hollywoodianas, filmes nacionais, épicos históricos, faroestes, comédias e sessões específicas, como matinês infantis e sessões voltadas ao público feminino.
Além da exibição de filmes, o Cine São Martinho desempenhou papel central na vida social e urbana de Tatuí. Localizado em área central, tornou-se ponto de encontro da população, influenciando hábitos culturais, práticas de lazer e a sociabilidade da cidade. As sessões organizavam o ritmo urbano, especialmente nos fins de semana, e atraíam público também de municípios vizinhos.
O cinema foi igualmente relevante para a formação cultural e artística local, exercendo influência sobre gerações de espectadores e futuros realizadores audiovisuais, entre eles o cineasta Expedycto Lyma, considerado o primeiro produtor de ficção cinematográfica do município.
Declínio e encerramento das atividades A partir da década de 1970, o Cine São Martinho passou a enfrentar dificuldades em decorrência das transformações no mercado exibidor brasileiro, especialmente com a popularização da televisão e, posteriormente, do videocassete e das locadoras de filmes. Esse contexto contribuiu para a redução gradual do público e comprometeu a viabilidade econômica das salas de cinema de rua. Nesse período, o Cine São Martinho encerrou suas atividades de forma progressiva, e seu edifício permaneceu em estado de abandono por quase uma década.
Em 1977, o imóvel foi vendido e posteriormente demolido. O terreno passou a abrigar um empreendimento comercial, marcando o encerramento definitivo de um ciclo de mais de seis décadas de relevância cultural na cidade.
Embora não exista mais fisicamente, o Cine São Martinho permanece como referência significativa na história cultural de Tatuí. Sua trajetória tem sido objeto de pesquisas acadêmicas, projetos culturais e iniciativas voltadas à preservação da memória, incluindo estudos realizados com apoio de editais públicos municipais.
Categoria:Tatuí Categoria:Salas de cinema do estado de São Paulo