Fazenda São José (São José de Espinharas, Paraíba) foi uma antiga propriedade rural localizada às margens do rio Espinharas, na área que atualmente corresponde ao município de São José de Espinharas, no estado da Paraíba. A fazenda esteve associada ao processo de ocupação colonial do interior paraibano e à formação do núcleo populacional que deu origem à cidade. Registros documentais relacionados à região remontam ao século XVII. Ao longo do tempo, a propriedade passou por sucessivos processos de divisão, transferência de posse e integração ao crescimento urbano local.

Contexto histórico e ocupação inicial Antes da colonização europeia, o território da atual Paraíba era habitado por diferentes povos indígenas, entre eles grupos de origem Tupi, mais presentes no litoral, e Cariri, distribuídos em áreas do interior. A expansão da colonização portuguesa para o sertão ocorreu principalmente entre os séculos XVII e XVIII, período marcado pela concessão de sesmarias, sistema utilizado pela Coroa portuguesa para distribuir terras e incentivar a ocupação. O rio Espinharas tornou-se um importante ponto de referência geográfica para a demarcação territorial. Documentos coloniais mencionam a “Ribeira das Espinharas” como área de concessões de terras antes mesmo da identificação de propriedades específicas. Um dos registros mais antigos conhecidos data de 4 de fevereiro de 1670, quando diversos colonizadores receberam datas de terra na região, entre eles O capitão Francisco de Abreu de Lima, o Capitão Antônio de Oliveira Lêdo, Custódio de Oliveira Ledo e o Alferes João de Freitas da Cunha, José de Abreu, Luís de Noronha, Antonio Martins Pereira, Estevão de Abreu de Lima, Antonio Pereira de Oliveira, Sebastião da Costa e Gaspar de Oliveira.

Formação da Fazenda São José Após as primeiras concessões, parte das terras tornou-se devoluta, permitindo novas solicitações de sesmarias ao longo do século XVIII. O primeiro documento conhecido que menciona diretamente uma propriedade denominada "Fazenda São José" data de 18 de outubro de 1762.

Nesse registro, referente a um requerimento de terras por Antônio Ferreira da Silva, é citada uma "Fazenda São José" anteriormente pertencente a Domingos Siqueira e, naquele momento, sob posse de seu irmão.

Nº 588 EM 18 DE OOUTUBRO DE 1762

Antonio Ferreira da Silva, morador no Piancó, diz que descobriu terras devolutas entre o Sabugy e Espinharas, na qual ha um riacho chamado dos Bois que nasce na serra das Melancias e faz barra nas Espinharas entre a serra Negra e a "Travessia" e no dito riacho ha uma cacimba chamada "Maria Paz" e como necessita de terras pretende por sesmaria no referido logar, tres léguas de comprido e uma de largo fazendo peão na dita cacimba — Maria Paz--légua e meia para cima e légua e meia para baixo, com meia légua para cada lado, confrontando pelo nascente com os sitios "Jardim" e "Salgado", terras do defunto Domingos Siqueira e hoje de seu irmão; pelo poente com terras do "Pao a Pique" de doutor Manoel Teixeira successor do defunto João Araújo Lima e com terras do mesmo defunto Domingos Siqueira da fazenda de "S. José" e com terras da fazenda "Travessia"; pelo norte com terras da mesma Travessia e pelo sul com terras do mesmo defunto Domingos Siqueira, "fazenda de S. José". Foi feita a concessão, no governo de Francisco Xavier de Miranda Henrique.

A propriedade volta a aparecer em documentação de 6 de agosto de 1791, em requerimento do padre José Gonçalves de Melo, que menciona “sobras da fazenda São José”, indicando provável divisão territorial.

Nº 966 EM 6 DE AGOSTO DE 1791

Reverendo Padre José Gonçalves de Mello, diz que descobriu terra ma ribeira do Espinharas que estão devolutas das quaes quer sesmaria, sobras das fazendas Pão a Pique, S. José, Travessia e S. João, pegando na barra do riacho da Lagõa do Soares que faz barra no riacho do Boi, pelo mesmo riacho do Boi acima, com tres leguas de comprido e uma de largo, meia para cada banda, aguas para o Espinharas e Sabugy, testando para o nascente com terras da fazenda S. João, para o poente com a fazenda Pão a Picue, para o sul com a "fazenda S. José" e para o norte com a fazenda Travessia. Foi feita a concessão, no governo de Jeronymo José de Mello e Castro.

Um novo registro ocorre em 21 de janeiro de 1818, quando José Bezerra Leite solicitou terras próximas à fazenda, então associada a Félix César de Jesus.

Nº 1123 EM 21 DE JANEIRO DE 1818

José Bizerra Leite morador na fazenda "S. José" diz que descobriu terras devolutas no termo de Pombal que confrontam pelo sul com a data de Alagoa Nova e a de Belem pertencentes a José das Neves e Joaquim Ferreira, pelo norte com a data de Francisco da Silva, pelo nascente com a fazenda S. José pertencente ao commandante Félix César de Jesus e pelo poente com a data de sobras de Manoel Francisco, e pede por sesmaria as mencionadas terras com tres leguas de comprido e uma de largo ou como melhor for, servindo de peão o riacho do Oiti e riacho do Meio. Foi feita a concessão, no governo de Thomaz de Souza Mafra.

Consolidação fundiária e formação do povoado Durante o século XIX, a fazenda passou por sucessivas transferências e fragmentações de posse. Diversas proprietárias — entre elas Ana Maria de Melo, Francisca Maria de Lima, Maria Romana do Nascimento, Isabel Romana do Nascimento, Teresa Clara de Jesus, Ana Dornelles, Apolinária Maria de Jesus, Ana Felismina de Jesus, Francisca Maria de Jesus, Joaquina Maria de Jesus, Generosa Hermínia de Jesus e Antônia Maria de Jesus — venderam partes de suas propriedades a José Raimundo Vieira da Silva, contribuindo para a concentração fundiária sob sua administração.

A partir de 1827, José Raimundo Vieira da Silva tornou-se o principal proprietário ao reunir grande parte das terras da antiga fazenda. Já em 1826 existia no local um casarão originado de construções anteriores em taipa, posteriormente consolidado como sede da propriedade, conhecida como Casa Grande. Com o passar do tempo, o entorno da sede passou a receber moradores, formando um pequeno povoado conhecido como “São José de Zé Raimundo”.

Após a morte de José Raimundo Vieira da Silva, em meados de 1864, as terras foram herdadas por sua filha Maria Vieira da Silva, casada com Miguel Sátyro e Souza, além de outros descendentes. Entre os herdeiros esteve o padre Aquílio Sátyro de Souza, neto de José Raimundo Vieira da Silva, que se tornou grande proprietário de terras na região; em razão da extensão de suas posses, a própria povoação passou a ser também conhecida, no início do século XX, como “São José de Padre Aquílio”. Situação semelhante ocorreu com um bisneto de José Raimundo Vieira da Silva, o major Miguel Sátyro de Sousa, na cidade de Patos, que passou a ser popularmente conhecida como “Patos de Major Miguel”, denominação associada tanto às extensas propriedades fundiárias sob seu domínio quanto à sua expressiva influência política regional.

Evolução administrativa e formação do município Durante a primeira metade do século XX, o povoado permaneceu vinculado administrativamente ao município de Patos.

Nas divisões territoriais de 31 de dezembro de 1936 e 31 de dezembro de 1937, a localidade figurava oficialmente como distrito de São José. Pelo Decreto-Lei Estadual nº 520, de 31 de dezembro de 1943, ocorreu uma reorganização das denominações distritais no município de Patos: o distrito de Passagem passou a denominar-se Espinharas, enquanto o distrito de São José teve seu nome alterado para Mucunã. Essas mudanças permaneceram em vigor durante o período administrativo de 1944 a 1948. Posteriormente, a Lei Estadual nº 318, de 7 de janeiro de 1949, promoveu nova reorganização administrativa. Nessa legislação, foi criado o distrito de salgadinho com terras desmembradas do distrito de Passagem. Ao mesmo tempo, o distrito de Espinharas voltou a denominar-se Passagem, e o distrito de Mucunã passou a chamar-se de São José de Espinharas. A partir dessa reorganização, o distrito retomou sua denominação histórica e permaneceu integrado ao município de Patos.

A emancipação política ocorreu por meio da Lei Estadual nº 2687, de 26 de dezembro de 1961, que criou o município de São José de Espinharas, com sede no antigo distrito homônimo. A instalação oficial ocorreu em 30 de dezembro de 1961, e, nas divisões territoriais posteriores, como a de 31 de dezembro de 1963, o novo município era constituído apenas pelo distrito-sede.

Situação posterior Com o crescimento do núcleo urbano e as transformações fundiárias decorrentes da formação do município, a antiga Fazenda São José foi progressivamente desmembrada e incorporada à estrutura urbana e rural da região. A propriedade deixou de existir como unidade territorial identificável, restando registros históricos e remanescentes arquitetônicos, como a antiga Casa Grande, atualmente em ruínas.

Referências

Bibliografia

Categoria:Fazendas da Paraíba Categoria:História da Paraíba Categoria:Patrimônio histórico da Paraíba Categoria:São José de Espinharas Categoria:História de São José de Espinharas Categoria:Colonização do Brasil