Abedalá ibne Abas (; ca. - m. 687/8), também conhecido apenas como Ibne Abas e cognominado Alibre (, al-Ḥibr, "o Doutor") e Albar (, al-Baḥr, lit. "Mar"), foi um dos primos do profeta islâmico Maomé. Ele é considerado um dos maiores sábios — senão o maior — da primeira geração de muçulmanos e o fundador da exegese do Alcorão. Nasceu em 619, três anos antes da Hégira, no período em que os haxemitas viviam reclusos no chamado “Desfiladeiro”. Era filho de Alabás e de Lubaba, cuja conversão ao Islã ocorreu logo após a Hégira. Ainda recém-nascido, foi levado a Maomé, que o abençoou com uma súplica. Permaneceu em Meca com a mãe, considerada entre os isentos da emigração, e há divergências quanto ao momento exato de sua ida a Medina. Desde jovem demonstrou grande inclinação ao saber, interrogando os companheiros de Maomé e reunindo informações sobre sua vida. Por ser sobrinho de Maimuna binte Alharite, esposa de Maomé, hospedava-se por vezes na casa profética, conquistando a estima do Profeta, que rogou para que Deus lhe concedesse conhecimento do Livro e compreensão da religião.

A atuação política e militar de Ibne Abas foi relevante, embora não deva ser superestimada. Participou de campanhas no Egito, na Ifríquia, na Hircânia e no Tabaristão. Em 656, durante o cerco que levou ao assassinato do califa Otomão, encontrava-se encarregado de conduzir o Haje a Meca. De volta, prestou homenagem a Ali e passou a desempenhar missões de confiança, sendo nomeado governador de Baçorá. Lutou nas Batalhas do Camelo e de Sifim, assinou a convenção de arbitragem e depois foi enviado para dialogar com os haruraítas (futuros carijitas), conseguindo que alguns abandonassem o movimento. As relações com Ali deterioraram-se, levando-o a deixar o governo e retirar-se para Meca, em meio a acusações controversas e disputas políticas mais amplas.

Após a morte de Ali, Ibne Abas manteve papel ativo nos acontecimentos posteriores: foi nomeado comandante por Haçane, entrou em contato com Moáuia e viveu longos anos no Hejaz, frequentando a corte de Damasco para defender os interesses dos haxemitas. Participou da campanha contra o Império Bizantino e advertiu Huceine sobre os riscos de ir a Cufa. Abalado pelo massacre de Carbala, voltou à cena política após a morte de Iázide I, recusando reconhecer Abedalá ibne Azobair como califa e sofrendo prisão temporária. Libertado com a ajuda de Almoquetar Atacafi, retirou-se para Taife, onde morreu em 687/8. Paralelamente, destacou-se como grande erudito do Islã primitivo: mestre em tafsīr, fiqh e hádice, transmissor prolífico de relatos, formador de importantes discípulos e orador respeitado, tornando-se uma das figuras intelectuais mais influentes de sua geração.

Vida

Abedalá ibne Abas nasceu em 619, três anos antes da Hégira, quando os haxemitas viviam reclusos no chamado "Desfiladeiro" (Axibe). Era filho de Alabás e Lubaba Sua mãe se converteu ao Islã logo após a Hégira (622). Ao nascer, foi levado por seu pai a Maomé, que o abençoou com uma súplica. Permaneceu em Meca com a mãe, que fazia parte dos isentos da emigração (mustaḍʿaf). Há uma tradição segundo a qual mais tarde emigrou para Medina com ela; outra afirma que emigrou apenas no ano da conquista (630), juntamente com seu pai. Desde jovem, demonstrou forte inclinação para a investigação erudita rigorosa, na medida em que tal concepção era possível naquele tempo, e reunia informações sobre Maomé interrogando seus companheiros. Como sua tia materna Maimuna binte Alharite era uma das esposas do profeta, algumas noites era hospedado na casa profética. Diz-se que pelo amor, devoção e serviço sincero que demonstrava a Maomé, conquistou sua estima e foi agraciado com a famosa súplica: "Ó Deus, ensina-lhe o Livro e torna-o versado na religião!" (Albucari, ʿIlm, 17; Wuḍūʾ, 10).

A importância do papel desempenhado por Ibne Abas nos acontecimentos políticos e militares de seu tempo não deve ser exagerada, como tenderam a fazer seus biógrafos muçulmanos. Sabe-se que acompanhou os exércitos muçulmanos em várias campanhas expansionistas: ao Egito , à Ifríquia (647/8), à Hircânia e ao Tabaristão (650/1). Em 656, quando o califa Otomão foi sitiado em sua casa, em Medina, recebeu a missão de conduzir o Haje para Meca e, por isso, não se encontrava na capital no momento do assassinato de Otomão. Quando retornou alguns dias depois, Ibne Abas prestou homenagem a Ali . A partir de então, passou a ser encarregado de missões importantes e, após a ocupação de Baçorá (656/7), foi nomeado governador dessa cidade. Nas Batalhas do Camelo (656) e de Sifim (657), comandou uma ala das tropas de Ali. Foi um dos signatários da convenção de Sifim, que confiou a dois árbitros a tarefa de resolver a disputa entre Ali e Moáuia. Contudo, foi contra a destituição de Moáuia do governo da Síria e se opôs à escolha de Abu Muça Alaxari como representante de Ali no episódio da arbitragem.

Posteriormente, Ali o encarregou de dialogar com os haruritas (futuros carijitas), defendendo a validade jurídica dessa arbitragem (taḥkīm). No encontro, procurou demonstrar, com base em versículos corânicos, que não deveriam declarar Ali incrédulo nem insurgir-se contra ele. Embora haja diferenças entre fontes carijitas-ibaditas e sunitas quanto ao desenrolar desse encontro, ambas concordam que as discussões foram intensas e que alguns carijitas acabaram por abandonar o próprio grupo. Algum tempo depois, as relações entre Ibne Abas e o califa deterioraram-se subitamente, levando-o a retirar-se para Meca, abandonando o governo, e fazendo com que Ali deixasse de considerá-lo seu representante em Baçorá. Essa deserção foi datada de modo diverso pelas fontes em 658/9, 659/60 ou 660/1, sendo 658/9 a data mais plausível. Algumas fontes árabes afirmam que Ibne Abas se ofendeu porque Ali o censurara por supostos desfalques cometidos durante seu governo. À primeira vista, tais alegações têm origem em disputas políticas e no conflito xiita-sunita. Com efeito, um dos transmissores dessa notícia na cadeia citada por Atabari, , foi classificado por várias autoridades como "não confiável", "fraco", "sem valor algum" e "xiita extremado". Além disso, não se sabe ao certo quem transmitiu a notícia a partir dele, pois os demais narradores são pessoas de identidade desconhecida. Acrescente-se ainda que se afirma que , apontado como denunciante da suposta corrupção, teria tido desavenças pessoais com Ibne Abas, a quem dirigiu palavras ofensivas; também se diz que os bens levados de Baçorá correspondiam apenas a direitos pessoais acumulados e à parte que lhe cabia do fai.

Ao que parece, o verdadeiro motivo de sua renúncia ao cargo — que coincidiu com a de muitos outros partidários de Ali — deve ser relacionado a acontecimentos muito mais importantes do período: o massacre dos carijitas em Narauã (658), que Ibne Abas, segundo certas fontes, teria condenado, e a posição insustentável de Ali, que manteve sua pretensão ao califado quando, de acordo com o veredicto dos árbitros, já não era reconhecido como tal pela maioria dos muçulmanos. Mais tarde, Ibne Abas apropriou-se dos fundos provinciais de Baçorá, provavelmente quando retornou à cidade algum tempo depois de sua deserção. Após a morte de Ali em 661, Haçane nomeou-o comandante de suas tropas; contudo, Ibne Abas entrou em contato com Moáuia. Não é claro se o fez por iniciativa própria ou a convite de Haçane; talvez tenha sido ele quem conseguiu levar a bom termo o acordo entre os dois pretendentes ao califado. Ibne Abas sustentava que, como recompensa por seus bons ofícios, Moáuia reconhecera seu direito de se apropriar do dinheiro que havia tomado, isto é, de parte do tesouro de Baçorá. Todas essas manobras pareceram a certos incompatíveis com a dignidade de uma personagem tão eminente; por essa razão, transferiram-nas para seu irmão Ubaide Alá. Durante o longo reinado de Moáuia, Ibne Abas viveu no Hejaz e ia com bastante frequência à corte de Damasco, principalmente — ao que parece — para defender os interesses dos haxemitas, que eram também os seus próprios interesses.

Em 670/1, participou da campanha conduzida por Iázide, filho do então califa Moáuia I , contra o Império Bizantino, que culminou no cerco fracassado de Constantinopla, ao lado de Abedalá ibne Omar ibne Alcatabe. Em 680, após a morte de Moáuia, quando os partidários de Ali convidaram Huceine a ir a Cufa, Ibne Abas advertiu-o de que os cufanos não eram confiáveis e que não deveria aceitar o convite; sugeriu-lhe que, se insistisse em partir, escolhesse o Iêmem, caso contrário poderia enfrentar graves consequências. Diz-se que quando Ibne Abas soube do massacre em Carbala, entristeceu-se profundamente e, segundo a tradição, chorou a ponto de perder a visão. Três anos depois, com a morte de Iázide I , Ibne Abas voltou ao centro do cenário político. Embora as informações disponíveis sejam fragmentárias, delas se depreende que Abedalá ibne Azobair — após levantar o estandarte da revolta em Meca — irritou-se profundamente com Ibne Abas, que, juntamente com o filho de Ali, Maomé ibne Alanafia, recusou-se a reconhecê-lo como califa. Ambos foram banidos de Meca. Em 683, ano do cerco da cidade, retornaram, mas persistiram em sua oposição a Ibne Azobair, o que levou à prisão de ambos. Almoquetar Atacafi, informado da situação perigosa em que se encontravam, enviou de Cufa uma grande tropa de cavalaria, que os libertou por meio de um ataque surpresa. Foi graças a Ibne Abas que, nessa ocasião, se evitou o derramamento de sangue na cidade. Sob a proteção dessa tropa, os homens libertados dirigiram-se a Mina e depois a Taife, onde Ibne Abas morreu algum tempo mais tarde (687/8). Sua oração fúnebre foi conduzida por Maomé ibne Alanafia.

Erudição

Ainda jovem, Ibne Abas tornou-se um mestre em torno do qual se reuniam pessoas desejosas de aprender. Orgulhoso de seu saber — que não se baseava apenas na memória, mas também numa ampla coleção de anotações escritas —, ministrava palestras públicas segundo uma espécie de programa semanal, abordando temas diferentes a cada dia: a interpretação do Alcorão, questões judiciais, as expedições de Maomé, a história pré-islâmica e a poesia antiga. Foi devido ao seu hábito de citar versos em apoio às explicações de expressões ou palavras do Alcorão que a poesia árabe antiga adquiriu, para os estudiosos muçulmanos, a importância que lhe é reconhecida. Tendo sua competência sido reconhecida, Ibne Abas passou a ser consultado para a emissão de fátuas (é especialmente célebre sua autorização do casamento mutʿa, que mais tarde teve de defender). Suas explicações corânicas foram reunidas em coleções especiais, cujos isnades remontam a um de seus discípulos diretos (Ibne Anadim, Kitab al-Fihrist, 33); suas fátuas também foram compiladas. Atualmente existem numerosos manuscritos e várias edições de um tafsīr — ou de tafsīres — que lhe são atribuídos.