A ética cristã também conhecida como teologia moral, é um sistema ético multifacetado. É uma ética da virtude, que se concentra na construção do caráter moral, e uma ética deontológica, que enfatiza o dever de acordo com a perspectiva cristã. Outros aspectos da ética cristã, representados por movimentos como o Evangelho Social e a teologia da libertação, podem ser combinados numa quarta área, por vezes designada por ética profética.

Definição e fontes A ética cristã, também conhecida como teologia moral, foi um ramo da teologia durante a maior parte de sua história. Tornando-se um campo de estudo separado durante o Iluminismo dos séculos XVIII e XIX, para a maioria dos estudiosos do século XXI e tornou-se uma "disciplina de reflexão e análise que se situa entre a teologia, de um lado, e as ciências sociais, de outro", afirma o eticista cristão Waldo Beach. Embora a ética da virtude baseada no caráter e a ética deontológica baseada em regras sejam normalmente vistas como contrastantes entre si, elas são combinadas na ética cristã.

No século XXI, formaram-se tradições adicionais na ética cristã, baseadas em diferentes interpretações dos atributos divinos, na forma como Deus comunica o conhecimento moral, em diferentes conclusões antropológicas e em diferentes ideias sobre como o crente deve se relacionar com a comunidade cristã e com o mundo exterior. O anabatismo é uma incorporação precoce do modelo profético que remonta à Reforma Radical. Eles se diferenciavam de outros grupos da Reforma por enxergarem a igreja como um tipo único de organização humana e seus problemas não como teológicos, mas como falhas éticas enraizadas no envolvimento com a política. O anabatismo surgiu entre os despossuídos e perseguidos com tendências isolacionistas, enquanto versões modernas, como o movimento do Evangelho Social, voltaram-se para o engajamento cultural. O pensamento pós-colonial e as teologias negras, feministas e de libertação são exemplos desta ética cristã que aborda a "pecaminosidade da ordem social".

A ética cristã extrai da Bíblia suas regras normativas com foco na conduta, sua compreensão básica da lei natural, seus padrões de raciocínio moral com foco no caráter e os ideais de uma comunidade construída sobre a justiça social. Philip Wogaman escreve que a ética cristã também teve uma relação "às vezes íntima, às vezes desconfortável" com a filosofia grega e romana, absorvendo alguns aspectos de seus princípios de Platão, Aristóteles e outros filósofos helênicos.

Fundamentos metafísicos A metafísica cristã está enraizada na metafísica bíblica de Deus como "Criador do céu e da terra" sendo que o filósofo Mark Smith explica que, na Bíblia, uma ontologia fundamental está incorporada na linguagem sobre o poder, onde o mundo e seus seres derivam sua realidade do poder de Deus. O professor de teologia e filosofia Jaco Gericke afirma que a metafísica é encontrada em qualquer lugar onde a Bíblia tenha algo a dizer sobre "a natureza da existência". Segundo Rolf Knierim, a metafísica da Bíblia é uma "ontologia dinâmica" que afirma que a realidade é um processo dinâmico contínuo. Nesta visão, Deus “dá ao universo a sua ordem básica” e os seus “padrões estatísticos formais”, geralmente referidos como leis naturais, mas também permite que se desenvolvam organicamente com interferência mínima.

Segundo Roger E. Olson, a visão cristã da natureza da realidade também pode ser chamada de "teísmo bíblico" ou "personalismo bíblico": a crença de que "a realidade última é um Deus pessoal que age, mostra e fala..." Mark Smith explica que, na linguagem metafísica, o poder dos seres inferiores participa do próprio Poder, que é identificado como Deus. A humanidade é o nível mais elevado de desenvolvimento na criação, mas os humanos ainda são criaturas. Esta visão afirma que os humanos refletem a natureza relacional de Deus. Na metafísica cristã, os humanos têm livre-arbítrio, mas é uma liberdade relativa e restrita. Beach afirma que o voluntarismo cristão aponta para a vontade como o núcleo do eu e que, na natureza humana, "o núcleo de quem somos é definido pelo que amamos", e isso determina a direção da ação moral. Os seres humanos refletem a natureza da realidade última, portanto são vistos como possuidores de dignidade e valor básicos e devem ser tratados, como disse Immanuel Kant, como "um fim em si mesmos" e não como um meio para um fim.

Paulo Alguns estudiosos mais antigos consideravam a instrução moral de Paulo separada de sua teologia, afirmando que sua ética foi adotada da filosofia helenística. A erudição moderna rompeu com esses antigos paradigmas. “O cristianismo começou a sua existência como uma entre várias seitas ou movimentos judaicos concorrentes. O judaísmo não era uma coisa só, nem na Judeia e Galileia nem na Diáspora, nem as fronteiras entre as variedades do judaísmo eram fixas ou impermeáveis”. Os escritos de Paulo refletem essa mistura.

Ele se autodenominava um "hebreu dos hebreus", mas o fazia em grego fluente, sendo que evitava o estilo retórico grego aticista elevado, mas inventou o seu próprio, utilizando as estratégias dos oradores greco-romanos. Ele empregou estratégias judaicas de interpretação e utilizou as tradições judaicas para a leitura das escrituras apocalípticas, incluindo as sectárias e o que mais tarde seriam as rabínicas e ele também estava ciente das discussões filosóficas greco-romanas de sua época, misturando coisas que os estudiosos modernos consideram indissociáveis, alterando e transformando elementos-chave dentro do paradigma judaico/helenista em algo exclusivamente cristão.

As visões teológicas e apocalípticas de Paulo formam o fundamento de suas visões éticas, e o fundamento da teologia de Paulo é a cruz de Cristo. Quando a igreja de Corinto começa a ter conflitos internos, Paulo responde dizendo que eles abandonaram seus ensinamentos fundamentais: a cruz e a centralidade de Deus que eram os temas que formavam a base de toda a pregação de Paulo. A cruz influencia a ética de Paulo teológica, escatológica e cristologicamente, reconciliando as pessoas com Deus, mas também convocando-as ao serviço.

"Paulo tem mais a dizer sobre a natureza humana do que qualquer outro autor cristão primitivo", e Paulo apresenta a cruz como motivação para a conduta ética. Praticar a cruz, vivendo com o eu crucificado, está associado em 1 Coríntios e Efésios à unidade cristã, ao autossacrifício e à esperança futura do cristão. "A cruz é cada vez mais reconhecida como um fundamento geral para a ética cristã".

Epistemologia A ética cristã afirma que é possível aos seres humanos conhecer e reconhecer a verdade e o bem moral através da aplicação tanto da razão quanto da revelação. A observação, a dedução racional e as experiências pessoais, incluindo a graça, são os meios desse conhecimento.

O evidencialismo na epistemologia, defendido por Richard Swinburne (1934–), afirma que uma pessoa deve ter alguma consciência de evidências para uma crença para que esteja justificada em sustentá-la. As pessoas têm muitas crenças difíceis de justificar por meio de evidências, então alguns filósofos adotaram uma forma de fiabilismo em que uma pessoa pode ser considerada justificada em uma crença, desde que a crença seja produzida por meios confiáveis, mesmo quando ela não conhece todas as evidências.

Alvin Plantinga (1932–) e Nicholas Wolterstorff (1932–) defendem a epistemologia reformada baseada no ensinamento do reformador João Calvino (1509–1564) de que as pessoas são criadas com um senso de Deus e mesmo quando esse senso não é aparente para a pessoa por causa do pecado, ele ainda pode levá-la a crer e a viver uma vida de fé, significando que a crença em Deus pode ser vista como uma crença fundamental, semelhante a outras crenças humanas básicas, como a crença de que outras pessoas existem e o mundo existe, assim como acreditamos que nós mesmos existimos pois tal crença fundamental é o que Plantinga chama de crença "justificada", mesmo na ausência de evidências.

Princípios éticos básicos A ética cristã afirma a natureza ontológica das normas morais provenientes de Deus, mas também responde por padrões de racionalidade e coerência; deve encontrar o seu caminho tanto no que é ideal como no que é possível.

A diversidade da Bíblia significa que ela não possui uma única perspectiva ética, mas sim uma variedade de perspectivas; isso deu origem a divergências sobre a definição dos princípios fundamentais da ética cristã. Por exemplo, a razão tem sido um fundamento da ética cristã juntamente com a revelação desde os seus primórdios, mas Wogaman salienta que os eticistas cristãos nem sempre concordaram sobre "o significado da revelação, a natureza da razão e a forma adequada de empregar as duas em conjunto". Ele afirma que existem pelo menos sete princípios éticos que os eticistas cristãos têm reinterpretado perpetuamente.

Bem e mal

A ética cristã oferece três respostas principais ao problema do mal e de um Deus bom. A defesa do livre-arbítrio, proposta por Alvin Plantinga, pressupõe que um mundo contendo criaturas significativamente livres é inerentemente mais valioso do que um mundo sem criaturas livres, e que Deus não poderia ter criado tal mundo sem incluir a possibilidade do mal e do sofrimento. Os eticistas cristãos, como David Ray Griffin, também produziram teodiceias processuais que afirmam que o poder e a capacidade de Deus de influenciar os eventos são, necessariamente, limitados por criaturas humanas com vontades próprias. Geralmente, os eticistas cristãos não afirmam saber a resposta para o "Porquê?" do mal. Plantinga destaca que é por isso que ele não oferece uma teodiceia, mas apenas uma defesa da lógica da crença teísta.

Direito, graça e jusnaturalismo A ética cristã enfatiza a moralidade. A lei e os mandamentos são estabelecidos no contexto da devoção a Deus, mas são padrões deontológicos que definem o que é essa moralidade sendo que os profetas do Antigo Testamento mostram Deus rejeitando toda injustiça e elogiando aqueles que vivem vidas morais. Em contraposição a isso, há também “uma profunda expressão do amor de Deus pelos pecadores que não o merecem”. Na convergência de opiniões entre católicos, luteranos, reformados e outros, isso levou a que o apoio aos direitos humanos se tornasse comum a todas as vertentes da ética cristã. Cristãos e não cristãos têm, ao longo de grande parte da história, enfrentado questões morais e legais significativas relativas a esta tensão ética. A ética cristã está, e tem estado repetidamente, dividida sobre esta interação entre a obediência à autoridade e o poder da autoridade para impor essa obediência em contraste com a responsabilidade pessoal de amar e perdoar. Existem diversas visões cristãs sobre pobreza e riqueza. Em um extremo do espectro, há uma visão que considera a riqueza e o materialismo como um mal a ser evitado e até mesmo combatido e o outro extremo, há uma visão que considera a prosperidade e o bem-estar como uma bênção de Deus sendo que a ética cristã não se opõe à pobreza, visto que Jesus a acolheu, mas sim à miséria resultante da injustiça social.

Autoafirmação e autonegação