A campanha da Itália de 1813-1814 foi a série de operações militares travadas durante a Guerra da Sexta Coligação, principalmente na Itália setentrional, entre as forças franco-italianas e as da Coligação antifrancesa, representadas neste teatro principalmente por austríacos e britânicos. A partir da , representou a última vez durante o chamado "período francês" em que um exército francês e um austríaco se enfrentaram pelo controle da península italiana.

Após a desastrosa campanha da Rússia, o Exército do Reino da Itália estava fortemente enfraquecido. Seus remanescentes tiveram um bom desempenho durante a campanha da Alemanha de 1813, mas quando o Império Austríaco entrou em guerra em agosto, não houve outra escolha senão reconstruí-lo do zero. O exército franco-italiano era comandado pelo vice-rei da Itália, Eugênio de Beauharnais, enteado de Napoleão Bonaparte, enquanto o exército aliado neste teatro de operações foi colocado sob o comando dos marechais austríacos Johann von Hiller e, posteriormente, Heinrich Bellegarde, além do general britânico William Bentinck. Ao lado dos austríacos e britânicos estavam novamente o Reino da Sicília de Fernando III de Bourbon e o Reino da Sardenha de Vítor Emanuel I de Saboia, embora sua contribuição para a guerra tenha sido bastante pequena.

Inicialmente, os franco-italianos conseguiram retardar o avanço da Coligação nas Províncias Ilírias, mas já nos primeiros dias de outubro tiveram que recuar para a linha do Isonzo, fronteira oriental do Reino da Itália; em meados do mês começou a invasão do reino. A desproporção de forças foi agravada pela deserção da aliança com a França do Reino da Baviera de Maximiliano I José primeiroNa realidade, os bávaros não conduziram nenhum tipo de luta armada contra as forças franco-italianas. Sua deserção teve sobretudo notáveis consequências estratégicas, culminadas com a retirada para o Adige de outubro de 1813. e, principalmente, do Reino de Nápoles de Joaquim Murat posteriormente.

Em geral o conflito foi caracterizado por poucas grandes batalhas, como as de Caldiero e do Mincio, e por longos períodos de relativa inércia, pontuados por pequenos confrontos e negociações diplomáticas entre os vários lados envolvidos. O fim da campanha foi selado pela Convenção de Mântua, assinada por Eugênio em 23 de abril de 1814, após a qual o vice-rei se retirou para o exílio na Baviera, onde permaneceu pelo resto de sua vida. A rendição, contudo, não se deveu à situação militar das forças napoleônicas na Itália, agravada pelas derrotas em San Maurizio e no Taro, mas sim à abdicação de Napoleão e à consequente rendição da França diante das forças da Coligação, que ao final de uma extenuante campanha chegaram a ocupar Paris.

Contexto histórico

A Itália na era napoleônica miniaturadaimagem|esquerda|A Itália em 1810, em seu arranjo político-territorial no momento da invasão da Coligação antifrancesa em 1813-1814 Desde os primeiros atos das Guerras Revolucionárias Francesas, a Itália havia sido teatro de numerosos confrontos entre as forças francesas, republicanas e depois imperiais, e os exércitos coligados. Em particular, a havia trazido as primeiras mudanças drásticas no arranjo político da península: a República de Veneza havia desaparecido, absorvida pelo Arquiducado da Áustria, enquanto todo o resto da Planície Padana havia sido dividido entre Repúblicas Jacobinas, aliadas e dependentes da França.. Pouco depois, a parte continental do Reino da Sardenha também desapareceu, absorvida pela França..

A ascensão ao trono de Napoleão, com o título de Imperador dos franceses, alimentou a tensão política na Europa, causando uma segunda série de guerras:. em 1805, o imperador enviou o marechal Masséna para empreender uma campanha na Itália contra as tropas austríacas do arquiduque Carlos,. enquanto quatro anos depois esta mesma tarefa foi confiada ao príncipe Eugênio, em sua primeira verdadeira experiência como comandante, que teve que enfrentar os exércitos do arquiduque João.. Os sucessos em Austerlitz e Wagram de Napoleão levaram a uma maior expansão da França e do Reino da Itália, que entretanto havia substituído a República Italiana, que por sua vez havia sucedido a República Cisalpina,. em detrimento da Áustria: com a paz de Pressburg, a maior parte do Vêneto e Friul passou ao Reino da Itália,. enquanto com a paz de Schönbrunn a Dalmácia foi anexada diretamente ao Império napoleônico..

A Itália centro-meridional também foi sujeita a profundas mudanças: Toscana e Lácio, similarmente ao Piemonte, foram absorvidos pela França. enquanto a parte meridional da península, após uma expedição em 1806, foi conquistada pelo marechal Masséna, que expulsou da península a dinastia no poder dos Bourbon.. Seu lugar no trono do Reino de Nápoles foi primeiro confiado a um irmão de Napoleão, José Bonaparte,. e depois, após a partida deste último para a Espanha, ao marechal Joaquim Murat..

Assim, a Itália continental estava toda sob o controle de Bonaparte. Ao contrário, as duas ilhas da Sardenha e Sicília não foram jamais afetadas pelas mudanças que haviam atingido o resto da Europa, permanecendo a primeira em posse da família Saboia, a segunda nas mãos dos Bourbon..

Antecedentes

Em 1812, após as violações do bloqueio continental por parte da Rússia, a Grande Armée dirigiu-se ao império czarista, com o objetivo de derrotar o exército russo e restabelecer pela força o regime econômico antibritânico que os Estados aliados dos franceses haviam sido obrigados a adotar.. Apesar de uma parte inicial da campanha com moderados sucessos, Bonaparte nunca conseguiu enfrentar os russos em uma batalha campal decisiva: as contínuas retiradas das forças de Kutuzov levaram o exército francês ao coração do país,. onde, no início de novembro, foi forçado a enfrentar, despreparado, o frio intenso típico do inverno russo. Forçados a uma longa retirada e atacados pelos exércitos russos, os soldados de Napoleão conseguiram quase milagrosamente atravessar o Beresina e chegar em segurança ao território polonês.. As perdas sofridas durante a campanha foram imensas: dos 600.000 soldados que partiram, estima-se que menos de um décimo retornou.

esquerda|miniaturadaimagem|Napoleão na Batalha de Borodino

Percebendo a fraqueza dos franceses, as outras nações europeias não hesitaram em atacar Bonaparte em um momento de dificuldade... Apenas o Império Austríaco, momentaneamente, manteve-se neutro...A neutralidade da Áustria era uma questão de pura conveniência: Metternich e o imperador Francisco guardavam rancor de Napoleão e queriam vingar-se da França mas, recordando os eventos das últimas duas guerras, decidiram que aguardar e observar o curso dos eventos lhes traria uma vantagem. Permanecendo fora do conflito, poderiam agir como mediadores e alinhar-se do lado mais conveniente no momento oportuno. Apesar das dificuldades iniciais, sobretudo devido à falta de veteranos e à inexperiência dos novos recrutas, Napoleão conseguiu transformar o que parecia ser uma derrota inevitável em um impasse. Após as batalhas de Lützen e de Bautzen, os diplomatas austríacos conseguiram que um cessar-fogo fosse imposto por ambas as partes, o qual foi posteriormente transformado em um armistício dois dias depois, em 4 de junho de 1813....Após uma mobilização em massa, os franceses e seus aliados conseguiram, ainda que ao custo de pesadas perdas, deter o avanço dos coligados e repeli-los. No momento do armistício de Pleiswitz, as outras potências estavam reconsiderando sua situação, descontentes com os resultados obtidos até aquele momento. A esperança deles, ou melhor, a esperança de Metternich, era que o imperador francês se desse conta que não poderia prosseguir a guerra almejando uma vitória final e concedesse uma paz, ainda que em posição desfavorável, para manter vivo seu império.. Logo ficou claro que o orgulhoso Bonaparte não se curvaria às condições das forças da Coligação, que ele havia derrotado várias vezes ao longo dos anos.. Além disso, era bastante evidente que a Áustria, em caso de fracasso das negociações, estaria inclinada a entrar em guerra contra seu inimigo histórico.. e que buscaria vingar as humilhantes derrotas sofridas nas últimas duas guerras.

As forças em campo

O exército do Reino da Itália miniaturadaimagem|Eugênio de Beauharnais, vice-rei da Itália

Antecipando a entrada da Áustria na guerra, Napoleão, que detinha ainda o título de Rei da Itália, enviou ao país seu enteado, o vice-rei Eugênio de Beauharnais, para mobilizar as forças do reino e preparar suas defesas.. O vice-rei, que havia brevemente substituído em dezembro de 1812 Napoleão no comando da Grande Armée. e depois permanecera na Alemanha junto com o grosso do exército imperial francês, partiu para a Itália em 12 de maio de 1813, logo após a batalha de Lützen,. e chegou a Milão em 18 de maio, onde imediatamente convocou todas as tropas disponíveis.. Poucos compareceram à convocação: a maior parte das tropas do Reino da Itália havia partido sob seu comando para a expedição à Rússia, onde se distinguiram pela boa preparação e capacidades militares, como demonstrado nas batalhas de Krasnoi e sobretudo de Malojaroslavec, recordada justamente como "a batalha dos italianos".L. Ratti, Russia, 1812 Malojaroslavets, "la battaglia degli italiani", p. 9. Infelizmente, o fracasso da expedição havia arrastado consigo centenas de milhares de soldados, e o corpo expedicionário de Eugênio certamente não havia ficado alheio à tragédia.

Quase todas as tropas regulares do Reino da Itália, junto com os instrutores e grande parte dos oficiais, haviam morrido na Rússia: Eugênio teve que reconstruir o exército do Reino do zero. Napoleão havia solicitado que fosse reunido um exército de 80.000 homens, recrutando os veteranos restantes na Itália, novas levas de conscritos recrutados localmente e nos departamentos vizinhos, aos quais se uniriam também forças chamadas de volta do teatro de guerra na Espanha. O pedido do imperador era irrealizável, mas Eugênio fez o possível para satisfazê-lo: ele conseguiu reunir, em três meses, cerca de 45.000 homens,. 1.500 cavaleiros e 130 canhões. Essas forças foram organizadas em seis divisões de infantaria, três batalhões de reserva e doze esquadrões de cavalaria.

Eugênio escolheu como seu chefe de estado-maior o general Martin Vignolle, e dividiu o exército em três corpos:

o primeiro corpo, composto pelas brigadas de Quesnel (7.777 homens) e de Gratien (8.200 homens),. foi colocado sob o comando do general Paul Grenier, com quem Eugênio já havia colaborado na campanha de 1809; o segundo corpo era composto pelas divisões de Marcognet (7.189 homens) e Verdier (7.486 homens); o terceiro corpo, composto pelos italianos, foi colocado sob o comando de Domenico Pino, com Palombini (9.562 homens) e Lechi (7.891 homens) no comando das divisões que o compunham.

A cavalaria, 1.800 homens, estava sob o comando do general Mermet enquanto as reservas, 2.469 homens, sob o general Bonfanti. Em 10 de agosto, o quartel-general foi estabelecido na cidade de Údine. Defendendo a linha que ligava Trieste e Tarvisio, Eugênio posicionou Grenier em Cividale, Verdier no centro e Pino entre Palmanova e Gorizia. A reserva foi posicionada em Pordenone, a cavalaria em Pádua e Treviso. Dessa forma, o vice-rei esperava conseguir defender ambas as entradas na planície, tanto a de Pontebba quanto a de Liubliana.

O exército austríaco esquerda|miniaturadaimagem|Johann von Hiller