A Batalha de Di Car ou Dia de Di Car () foi um confronto travado no início do entre uma coalizão de tribos árabes, principalmente dos becritas e xaibanitas, e uma força enviada pelo Império Sassânida sob o comando geral de , governador de Hira. O combate ocorreu junto às águas de Di Car, entre as posteriores cidades de Cufa e Uacite, mas sua data exata permanece incerta; com base na deposição de em 602 e no governo de Ias até 611, costuma ser situado entre 604 e 611. As fontes árabes atribuem ao exército pró-sassânida cerca de dois mil soldados persas e três mil auxiliares árabes, enquanto não permitem estabelecer com segurança o efetivo da coalizão becrita.

O confronto ocorreu no contexto da extinção do Reino Lácmida, tradicional intermediário dos sassânidas junto às tribos árabes da fronteira. Após entrar em conflito com o xainxá , Anumane III foi preso e morto, e Hira passou a ser submetida a controle sassânida mais direto. Segundo uma das principais tradições, antes de dirigir-se à corte de Cosroes, Anumane confiou sua família, armas e outros bens ao chefe xaibanita ; a recusa posterior de Hani em entregar o depósito, ou, segundo outra versão, a família do antigo rei, teria contribuído para precipitar a expedição sassânida. Os becritas reuniram então diversos de seus ramos e derrotaram as tropas persas e seus aliados árabes. A escala real do combate, contudo, é difícil de determinar: Vaglieri admite que pode ter sido apenas uma escaramuça engrandecida pela tradição, enquanto Rezakhani o interpreta como um confronto fronteiriço pequeno e limitado posteriormente romantizado pelas fontes.

Apesar de sua provável importância militar limitada, Di Car adquiriu grande significado na memória árabe. A tradição passou a apresentá-la como a primeira grande vitória dos árabes sobre os persas e como demonstração de que o poder sassânida não era invencível, embora estudos modernos rejeitem a ideia de que o confronto tenha representado uma ruptura duradoura entre as tribos becritas e o império. Ao longo dos séculos, uma vitória inicialmente associada sobretudo aos becritas e xaibanitas foi progressivamente reinterpretada como triunfo coletivo dos árabes sobre os persas e incorporada à tradição dos Dias Árabes. Essa memória também foi relacionada retrospectivamente às conquistas muçulmanas e continuou a ser reelaborada na literatura e no discurso político até a época contemporânea.

Contexto

O Reino Lácmida foi fundado e governado pela dinastia homônima de a 602. Estendendo-se pela Arábia Oriental e pela Mesopotâmia Meridional, existiu como dependência do Império Sassânida, embora os lácmidas mantivessem Hira como sua capital e dali exercessem ampla autonomia sobre as tribos árabes da fronteira. Durante séculos, os sassânidas confiaram aos lácmidas a defesa de sua fronteira sudoeste contra incursões de tribos árabes, utilizando-os também como intermediários políticos entre o império e os grupos beduínos do nordeste da Arábia. Essa política envolvia o estabelecimento de vínculos com chefes das principais tribos fronteiriças. Entre os xaibanitas, por exemplo, membros do influente ramo hamamita (Hamame ibne Murra) mantinham estreitas relações com os lácmidas e os sassânidas: comandou a força policial lácmida, exerceu grande influência junto ao rei e havia vínculos matrimoniais entre os dulitas (Dul ibne Xaibane) e a casa reinante de Hira. No início do , recebeu ainda de Cosroes II benefícios territoriais nas proximidades de sob a condição de manter sua tribo sob controle. Essa posição, contudo, não impediu conflitos periódicos: forças lácmidas eram ocasionalmente derrotadas por outras tribos, enquanto caravanas e territórios submetidos aos persas sofriam ataques de grupos árabes. A posição dos lácmidas enfraqueceu ao longo do , ao mesmo tempo que aumentava a pressão dos gassânidas e do Império Bizantino sobre a fronteira ocidental.

O último soberano lácmida, , acabou entrando em conflito com o xainxá . A tradição árabe relaciona o rompimento às intrigas que se seguiram à execução, por Anumane, do poeta cristão e funcionário sassânida , que havia servido na corte de Ctesifonte como secretário e tradutor de documentos procedentes de Hira. Segundo essa tradição, Adi havia desempenhado papel na própria ascensão de Anumane ao trono, mas intrigas cortesãs acabaram levando o soberano lácmida a aprisioná-lo e executá-lo. Seu filho, , que posteriormente ocupou a posição do pai junto à corte sassânida, teria então explorado sua proximidade com Cosroes para indispor o xainxá contra Anumane. Uma das narrativas associa a ruptura final à recusa de Anumane em atender a uma exigência matrimonial de Cosroes, que pretendia obter mulheres da casa lácmida para sua corte, enquanto outras tradições a relacionam a divergências políticas, fiscais ou dinásticas. As fontes, portanto, preservam explicações distintas para o conflito. Bosworth considera mais provável que Cosroes tivesse se tornado progressivamente hostil à autonomia lácmida e decidido assumir diretamente a defesa e a administração da fronteira árabe. Rezakhani insere a deposição de Anumane num processo mais amplo de fortalecimento do controle sassânida sobre a fronteira meridional e sobre os contingentes árabes nela mobilizados. Segundo sua interpretação, a narrativa posterior, ao explicar a ruptura sobretudo como resultado de rivalidades pessoais e cortesãs, retirou o episódio desse contexto de política imperial de fronteira. Rezakhani adverte ainda contra a interpretação retrospectiva da supressão dos lácmidas como um erro estratégico que teria simplesmente eliminado a zona-tampão do império diante da Arábia: do ponto de vista da política sassânida do período, a substituição da dinastia por um controle mais direto podia representar uma tentativa de submeter mais estreitamente os recursos militares árabes da fronteira à autoridade imperial.

Percebendo a hostilidade do soberano sassânida, Anumane procurou apoio entre diferentes tribos árabes. Segundo a tradição, depois de não conseguir assegurar proteção suficiente entre os taiítas e outros grupos, confiou sua família, suas armas e outros bens a , um dos principais chefes dos xaibanitas, ramo dos becritas, e dirigiu-se à corte sassânida. Foi preso e morto em 602, embora as fontes divirjam sobre as circunstâncias de sua execução. Cosroes então extinguiu a monarquia lácmida e colocou Hira sob administração mais diretamente controlada pelos sassânidas, nomeando o taiíta governador, acompanhado por um oficial persa referido nas fontes como . As consequências da eliminação do sistema lácmida para a segurança da fronteira são interpretadas de maneiras distintas. Segundo Bosworth, a ausência do antigo intermediário árabe deixou a borda do Sauade mais exposta às incursões das tribos do nordeste da Arábia, ao passo que Vaglieri observa que a prisão e morte de Anumane ou a própria sensação de enfraquecimento do controle fronteiriço podem ter incentivado os becritas a intensificar seus ataques aos territórios sassânidas.

Após a morte de Anumane, Cosroes ordenou a Ias ibne Cabiça que recuperasse os bens e equipamentos militares que o antigo rei havia confiado a Hani. Hani recusou-se a entregá-los, alegando que não poderia restituir o depósito a ninguém além de seu proprietário. Segundo a tradição preservada pelas fontes árabes, a recusa levou Cosroes a jurar a destruição dos becritas, aos quais pertenciam os xaibanitas, e a preparar uma expedição contra eles. O soberano sassânida obteve informações dos taglibitas e decidiu realizar o ataque durante o verão, quando os diferentes grupos becritas se reuniam em torno das águas de Di Car. Antes do início das hostilidades, enviou o taglibita aos becritas, oferecendo-lhes como alternativas a submissão ou o abandono de suas terras; caso recusassem ambas, seriam atacados. Os becritas decidiram permanecer e combater. Outras versões diferem quanto ao motivo imediato da ruptura. Rezakhani, seguindo a narrativa de Atabari, observa que a reação inicial da corte sassânida à deposição de Anumane parece ter sido relativamente moderada e que seus protetores xaibanitas continuaram a circular livremente; nessa versão, foi a recusa de Hani em entregar a família do antigo rei a Cosroes que finalmente precipitou o confronto. Donner adverte, contudo, que os relatos posteriormente romantizados da batalha não permitem determinar com segurança qual questão ou conjunto de questões provocou a ruptura momentânea entre os sassânidas e seus antigos aliados xaibanitas. Cosroes colocou então Ias ibne Cabiça à frente do exército enviado contra eles.

A força reunida combinava tropas sassânidas, contingentes procedentes do Sauade e tribos árabes aliadas. Segundo as cifras preservadas pelas fontes árabes, o exército pró-sassânida reunia cerca de dois mil soldados persas e três mil auxiliares árabes sob Ias ibne Cabiça. Além dos iaditas e taglibitas mencionados por outras fontes, registram-se os anamiritas, segmentos dos taiítas, tamimitas e outros grupos árabes. Segundo Mishin, os baraítas, da confederação dos cudaaítas, estiveram do lado persa. Os becritas, por sua vez, reuniram uma coalizão de seus diferentes ramos, formada pelos xaibanitas, ijelitas, dulitas, caicitas, taimalatitas e iascuritas. Segundo Vaglieri, todos os clãs becritas participaram da coalizão, com exceção dos hanifaítas. A eles juntaram-se ainda cerca de duzentos prisioneiros tamimitas que se encontravam em poder dos becritas, em sua maioria pertencentes aos riaítas (Banu Ria ibne Iarbu). Segundo a tradição transmitida por Abu Ubaida, os prisioneiros pediram para ser libertados a fim de combater ao lado dos becritas, afirmando que dessa forma defendiam a si próprios. Diante das dúvidas dos becritas quanto à sua lealdade, dispuseram-se a ser identificados para que sua atuação no combate pudesse ser reconhecida. A posse das armas e cotas de malha anteriormente confiadas por Anumane aos xaibanitas também teria contribuído para seu equipamento militar.

Batalha

A batalha ocorreu em Di Car, um ponto de abastecimento de água situado entre as posteriores cidades de Cufa e Uacite, na direção da primeira. Sua data permanece incerta. As tradições árabes situam o confronto em momentos muito diferentes, desde o ano do nascimento de Maomé até alguns meses depois da Batalha de Badre, em 2–3 A.H. (623–625), enquanto Maomé ibne Habibe o datou de algum momento entre 606 e 622. A cronologia histórica permite restringir consideravelmente esse intervalo: como Anumane III foi deposto e morto em 602 e Ias ibne Cabiça governou Hira até 611, Vaglieri e Bosworth colocam Di Car entre 604 e 611, enquanto alguns estudiosos propuseram especificamente 610 ou 611. Do lado sassânida, Ias ibne Cabiça exercia o comando geral de uma força composta por tropas regulares persas, contingentes procedentes do Sauade e aliados árabes. Entre estes, Anumane ibne Zura, que anteriormente atuara como emissário de Cosroes junto aos becritas, comandava os contingentes dos taglibitas e anamiritas, enquanto comandava um destacamento de iaditas e baraítas; a composição desse destacamento sugere que os iaditas presentes eram relativamente pouco numerosos e ocupavam posição secundária dentro das forças pró-sassânidas. Entre as tropas persas, e comandavam, cada um, mil cavaleiros dos , sendo ambos descritos nas fontes como asvares e marzobãs. Iacute Alhamaui descreve Hamarze como o grande marzobã de Cosroes e situa-o à frente da ala direita do exército, enquanto Fanabarzim comandava a ala esquerda. Durante o combate, Hamarze foi morto em duelo pelo iascurita , enquanto Fanabarzim também foi morto durante a derrota sassânida.