Em 26 de novembro de 2025, o presidente da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, foi preso como parte de um golpe de Estado executado pelo Chefe do Gabinete Militar da Presidência, Brigadeiro-General Dinis Incanha. Oficiais militares declararam "controle total" sobre o país e estabeleceram o Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública, liderado pelo General Horta Inta-A Na Man. O golpe ocorreu um dia antes da divulgação oficial dos resultados das eleições gerais de 2025 na Guiné-Bissau, realizadas em 23 de novembro, nas quais Embaló concorria à reeleição.

Contexto

Eleições gerais foram realizadas na Guiné-Bissau em 23 de novembro de 2025 para eleger o presidente e os membros da Assembleia Nacional Popular. A credibilidade da votação foi questionada por grupos da sociedade civil e outros observadores após o principal partido de oposição, o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), ser impedido de concorrer à eleição presidencial e ao parlamento. Outras questões que antecederam o dia da votação foram as denúncias de que o presidente Embaló estava promovendo silenciamento forçado da oposição, sessões de tortura contra opositores e proibição de manifestação política de apoio a outros candidatos de fora da coligação governista Plataforma Republicana – "Nô Kumpu Guiné".

A CEDEAO havia retirado sua missão de observação depois de ser ameaçada com expulsão vários meses antes. Observadores da União Africana, no entanto, estavam presentes. Tanto o presidente que buscava a reeleição, Umaro Sissoco Embaló, quanto o candidato da oposição, Fernando Dias da Costa, reivindicaram vitória na eleição presidencial. O golpe ocorreu enquanto os resultados oficiais da votação ainda não haviam sido divulgados, o que estava previsto para 27 de novembro.

Este é o nono golpe ou tentativa de golpe na Guiné-Bissau desde que o país conquistou a independência de Portugal em 1974: as duas tentativas mais recentes, em 2022 e 2023, também tinham Embaló como alvo, e também houve alegações de uma conspiração golpista no final de outubro de 2025. A última tentativa de golpe em 2023 levou-o a dissolver a Assembleia, embora críticos o tenham acusado de fabricar crises como desculpa para reprimir a oposição.

Golpe Em 26 de novembro de 2025, um dia antes do esperado anúncio do resultado oficial das eleições, tiros foram ouvidos fora do palácio presidencial em Bissau, e homens em uniformes militares foram vistos assumindo o controle da estrada principal que leva ao edifício. Tiroteios também foram ouvidos no ministério do interior e na Comissão Nacional Eleitoral, forçando centenas de pessoas a fugir das áreas afetadas. Um porta-voz do presidente Embaló acusou homens armados afiliados a Fernando Dias de atacarem a comissão eleitoral para impedir a liberação dos resultados das eleições. Enquanto isso, o ex-primeiro-ministro Domingos Simões Pereira, que apoiava Dias e o acompanhava em uma reunião com observadores eleitorais quando a notícia da violência surgiu, acusou Embaló de tentar simular um golpe para poder declarar estado de emergência após determinar que havia perdido a eleição.

Mais tarde naquele dia, o presidente Embaló informou à Jeune Afrique que havia sido detido sem violência em seu escritório às 13:00 GMT em um "golpe de Estado" liderado pelo chefe do Estado-Maior do Exército. Posteriormente, foi noticiado que Embaló havia sido detido no quartel-general do Estado-Maior e estava sendo "bem tratado". Vários funcionários também foram presos, incluindo o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, General Biaguê Na N'Tan, seu vice, General Mamadou Touré, e o ministro do Interior, Botche Candé. Fernando Dias da Costa e o ex-primeiro-ministro Domingos Simões Pereira também foram presos. Um observador eleitoral internacional também informou que o presidente da comissão eleitoral havia sido preso, e que a sede da comissão foi lacrada pelos militares. Soldados da guarda presidencial e de uma unidade de elite da gendarmaria asseguraram o palácio presidencial.

Na sede do exército, oficiais militares, liderados pelo porta-voz Dinis Incanha, emitiram um comunicado na televisão estatal anunciando que haviam assumido o "controle total" do país, e ordenaram a suspensão de todas as instituições políticas e veículos de mídia, a interrupção do processo eleitoral, o fechamento das fronteiras internacionais e um toque de recolher noturno por tempo indeterminado. Os oficiais anunciaram a formação do "Alto Comando Militar para a Restauração da Segurança Nacional e Ordem Pública", composto por todos os ramos das forças armadas, que lideraria o país até novo aviso e pediram calma aos cidadãos. Também foi relatado que o exército tentava cortar o acesso à internet do país. Incanha também afirmou que o golpe havia sido lançado em resposta à "descoberta de um plano em andamento", orquestrado por políticos e outras figuras domésticas e estrangeiras, juntamente com um "conhecido traficante de drogas", com o objetivo de desestabilizar o país ao tentar "manipular os resultados eleitorais".

Em 27 de novembro, o Alto Comando Militar proclamou o chefe do Estado-Maior do Exército, general Horta Inta-A Na Man, como chefe de um governo militar que supervisionaria um período de transição de um ano. Ao anoitecer, o governo do Senegal anunciou a chegada de Embaló ao país, acrescentando que havia negociado com figuras da Guiné-Bissau pela sua libertação e fretado uma aeronave para transportá-lo.

Em 28 de novembro, o Alto Comando Militar nomeou o ministro das finanças Ilídio Vieira Té como primeiro-ministro.

Reações A Frente Popular, uma coalizão da sociedade civil na Guiné-Bissau, acusou Embaló e o exército de encenarem um "golpe simulado" para impedir a divulgação dos resultados eleitorais e permanecer no poder, com o objetivo de permitir que Embaló nomeasse um novo presidente e primeiro-ministro que convocariam novas eleições, nas quais ele poderia se candidatar novamente à presidência. Crenças semelhantes foram expressas por Fernando Dias da Costa. O PAIGC convocou protestos contra o golpe e pela divulgação dos resultados das eleições.

Em uma declaração conjunta, observadores eleitorais da CEDEAO e da União Africana disseram que "deploram esta tentativa flagrante de interromper o processo democrático" e solicitaram que "a União Africana e a CEDEAO tomem as medidas necessárias para restaurar a ordem constitucional". A União Africana condenou o golpe e pediu a libertação imediata e incondicional de Embaló e de outros funcionários detidos. O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, fez um apelo para que "todas as partes interessadas na Guiné-Bissau exerçam moderação e respeitem o Estado de Direito".

O governo de Portugal, antiga potência colonial da Guiné-Bissau, instou "todas as partes envolvidas a se absterem de qualquer violência institucional ou civil" e "a restaurar o funcionamento regular das instituições para permitir a conclusão da apuração dos votos e a divulgação dos resultados eleitorais". O golpe também foi condenado pela África do Sul e pela França. O primeiro-ministro senegalês Ousmane Sonko questionou a autenticidade do golpe, chamando-o de "farsa" e exigindo a libertação de políticos da oposição presos, bem como a divulgação dos resultados das eleições. O ex-presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, ecoou essas preocupações, chamando o evento de "golpe cerimonial" e questionando por que Embaló foi o primeiro a anunciar sua própria derrubada, em vez dos líderes do golpe, em contraste com outros golpes na região. A imprensa também repercutiu o caráter pouco ortodoxo do movimento golpista, que passou a ser considerado um estratagema político de Embaló, dado que Fernando Dias da Costa, candidato independente apoiado por Pereira e sua coligação, era franco favorito à vitória presidencial, e prometia restaurar os direitos do parlamento eleito em 2023. Além disso, Embaló conseguiu fácil contato com autoridades do exterior e conseguiu também ser facilmente liberto, enquanto Domingos Simões Pereira (o alvo político preferencial de Embaló) permeneceu preso entre o dia 26 de novembro de 2025 e 30 de janeiro de 2026, permenecendo, porém, em prisão domiciliária desde então.

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