thumb|Cazuza, cantor brasileiro, ícone de contestação, liberdade e provocação dos anos 1980. Rebelião adolescente é uma parte do desenvolvimento social em adolescentes com o objetivo de desenvolverem uma identidade independente dos pais ou da família e uma capacidade para tomada de decisões independentes. A rebelião adolescente geralmente começa por volta dos 13 anos, embora em alguns casos possa começar 1–2 anos antes da puberdade. Ela costuma terminar entre os 18 e os 24 anos. Os adolescentes podem experimentar diferentes papéis, comportamentos e ideologias como parte desse processo de desenvolvimento de identidade. A rebelião adolescente é reconhecida pela psicologia como um conjunto de traços comportamentais que transcendem classe social, cultura ou raça; alguns psicólogos, no entanto, contestam a universalidade do fenômeno. De acordo com a Teoria do gerenciamento do terror, a lealdade da criança à autoridade parental e às visões de mundo pode enfraquecer após a descoberta de que os pais, assim como ela própria e todos os outros, são mortais. Essa percepção cria uma necessidade inconsciente de segurança mais ampla do que aquela fornecida apenas pelos pais. Isso pode levar a novas lealdades culturais, na busca por um sentido de significado mais duradouro. Os adolescentes buscam se perceber como contribuintes valiosos para aspectos da cultura que, de forma mais convincente, sobrevivem ou transcendem a vida do indivíduo mortal individual. No entanto, como os pais também incutem suas crenças culturais na criança, se a criança não associar a mortalidade dos pais às suas crenças culturais, as chances de rebelião diminuem.

Natureza Permanece o debate sobre se as causas da rebelião adolescente são completamente naturais ou necessárias. Alguns defendem que a falha do adolescente em alcançar um senso de identidade pode resultar em confusão de papéis e incapacidade de escolher uma vocação, e/ou que essas pressões podem surgir do fato de serem vistos como adultos. De fato, no mundo ocidental, a idade em que alguém é considerado adulto (tanto no sentido cultural quanto legal) avançou dos primeiros anos da adolescência em séculos anteriores para o final da adolescência — ou mesmo, na sociedade atual, o início dos vinte anos. Contudo, concentrar-se apenas em culturas ocidentais contemporâneas ou influenciadas pelo Ocidente não responde à questão da “universalidade”. Por exemplo, se nossos ancestrais caçadores-coletores ou culturas agrárias históricas apresentavam padrões de comportamento diferentes, isso sugeriria que a “rebelião adolescente” não é “totalmente natural”.

Na revista Scientific American, o psicólogo de Harvard Robert Epstein criticou a noção do “cérebro imaturo que supostamente causa problemas adolescentes” como em grande parte um mito, afirmando que a turbulência frequentemente vista como típica desses anos não é “um fenômeno desenvolvimental universal”. Epstein argumenta que fatores externos — notadamente “tratar pessoas cada vez mais velhas como crianças enquanto as isola dos adultos e aprova leis para restringir seu comportamento” — são mais provavelmente responsáveis pela angústia observada entre muitos adolescentes americanos. Da mesma forma, em artigo de Robin Lustig para a BBC, a acadêmica Cynthia Lightfoot afirma que o que hoje se considera cultura juvenil foi criado pelo advento do ensino obrigatório nos Estados Unidos, devido à separação sem precedentes entre jovens e mais velhos que resultou dele. Lustig observa que a florescência de atitudes rebeldes em adolescentes de outros países coincidiu com a introdução da cultura ocidental nesses países.

Rebelião contra normas dos pares Embora a rebelião adolescente possa envolver violação da lei ou de outras regras, ela pode limitar-se à violação de normas sociais, inclusive aquelas estabelecidas pelos próprios adolescentes. Segundo Rebecca Schraffenberger, seus colegas viam seu gosto por livros e timidez “como vulnerabilidade e ... fizeram um jogo de explorá-la. Perdi alguns anos tentando me esforçando para me conformar, usar roupas da Benetton e comprar jeans ultra-na-moda da Guess. Aos quinze anos, desisti”.Schraffenberger, Rebecca. (2007) "This Modern Goth (Explains Herself)", Goth Undead Subculture. New York: Duke UP, 2007. Assim, Schraffenberger abandonou as normas majoritárias em favor da minoria alternativa da subcultura gótica. Grande parte da cultura gótica desafia as normas adolescentes majoritárias por seu interesse em temas como morte, música sombria, depressão e demonstração emocional.

A rede socioemocional O psicólogo da Universidade Temple Laurence Steinberg sugere que “sistemas de parada no cérebro tornam os adolescentes mais suscetíveis a comportamentos de risco ou perigosos”. Steinberg afirma que “a pesquisa não apoia o estereótipo de adolescentes como indivíduos irracionais que se acreditam invulneráveis e que desconhecem, não prestam atenção ou não se importam com os danos potenciais de comportamentos de risco”.Temple University (2007). Risk Taking in Adolescence: New Perspectives From Brain and Behavioral Science. Current Directions in Psychological Science pg. 55-59 Ele argumenta que a tomada de risco diminui entre a adolescência e a vida adulta,Steinberg L. (2008). “A Social Neuroscience Perspective on Adolescent Risk-Taking”. Developmental review. devido à maturação do sistema de controle cognitivo, que fortalece a capacidade de inibir comportamentos impulsivos. A tomada de risco adolescente é produto da interação entre as redes socioemocional e de controle cognitivo,Drevets W, Raichle M. (1998) "Reciprocal suppression of regional cerebral blood flow during emotional versus higher cognitive processes: implications for interactions between emotion and cognition". Cognition and Emotion. 12:353–385 e a adolescência é o período em que a primeira se torna mais assertiva na puberdade enquanto a segunda ganha força ao longo de um período mais longo. Contudo, grande parte do tempo essa rede não está altamente ativa.Lambert, A. E., Simons-Morton, B. G., Cain, S. A., Weisz, S., & Cox, D. J. (2014). "Considerations of a Dual-systems Model of Cognitive Development and Risky Driving". Journal of research on adolescence. Assim, quando a rede socioemocional não está altamente ativada (por exemplo, quando os indivíduos não estão emocionalmente excitados ou estão sozinhos), a rede de controle cognitivo é forte o suficiente para impor controle regulatório sobre comportamentos impulsivos e de risco. Na presença de pares ou em condições de excitação emocional, porém, a rede socioemocional se ativa suficientemente para diminuir a eficácia regulatória da rede de controle cognitivo. Durante a adolescência, a rede de controle cognitivo amadurece, de modo que na vida adulta, mesmo sob condições de excitação elevada na rede socioemocional, as inclinações ao risco podem ser moduladas.

Um estudo da Universidade Cornell de 2006 concluiu que adolescentes são mais propensos a considerar risco ao tomar decisões, e por mais tempo, do que adultos. Na verdade, eles tendem a superestimar os riscos. Também assumem riscos porque consideram a recompensa — como gratificação instantânea ou aceitação pelos pares — mais valiosa. Para aprofundar essa teoria, Cowan verificou que a aptidão acadêmica de futuros universitários e a realidade de sua experiência universitária real são negativamente correlacionadas. Muitos adolescentes têm expectativas idealizadas e exageradas sobre a experiência universitária, esperando um período interminável de felicidade, excitação e realização, o que os leva a assumir riscos ao valorizar mídia popular e aceitação pelos pares. Casey discute o desequilíbrio entre os sistemas socioemocional e límbico durante a adolescência, em comparação com a infância e a vida adulta. Segundo Casey, adolescentes tomam escolhas e ações subótimas devido à incapacidade, ou falta dela, de considerar “mudanças não lineares”. Isso ocorre porque o desenvolvimento atrasado do sistema de controle cognitivo (córtex pré-frontal) faz com que lutem para pesar completamente as consequências potenciais de suas ações. Teoriza-se que isso ocorra devido ao desenvolvimento mais rápido do sistema límbico, que desempenha papéis vitais em emoções, memórias e excitação, influenciando indivíduos dessa idade a agir mais por emoção do que por pensamento crítico.

Cultura popular O fenômeno foi categorizado pela mídia de massa e pela cultura popular, sendo tema muito comum em música e cinema.Harris, Darryl. B. (1998). "The Logic of Black Urban Rebellions". Journal of Black Studies. 28 (3): 368–385. A cultura popular permite que grandes e diversos grupos de pessoas se identifiquem de forma indiscriminada e se sintam representados. Ela não só funciona como forma de inclusão na sociedade ao unir as massas em padrões aceitáveis de comportamento, mas também forja um senso de identidade, significado e propósito que conecta os indivíduos de uma sociedade.Delaney, T. (2007). “Pop Culture: An Overview”. Retrieved from https://philosophynow.org/issues/64/Pop_Culture_An_Overview Muitos historiadores analisaram como o cinema influenciou a geração adolescente. Thomas Doherty afirmou que o cinema foi uma das primeiras mídias a evoluir da cultura de massa para a cultura adolescente, e que graças ao cinema começou a febre dos ídolo adolescentes. Um exemplo de filmes que projetaram imagens da juventude é Rebel Without a Cause (no Brasil, Juventude Transviada), que foi extremamente influente na época e criou uma nova ideia de juventude.Ebert, R. (2005). “The young and the restless”. Retrieved from https://www.rogerebert.com/reviews/great-movie-rebel-without-a-cause-1955 O filme reflete a delinquência juvenil juntamente com confusão, incerteza e medo tanto de adolescentes quanto de adultos. Da mesma forma, Blackboard Jungle (no Brasil, Sementes da Violência) é um filme que foca na delinquência juvenil e explica as razões pelas quais adolescentes se comportam dessa forma, bem como os problemas pedagógicos que afetam professores e alunos em um sistema educacional muito frágil. Além da indústria cinematográfica, os The Beatles influenciaram enormemente uma mudança social e cultural. A banda desenvolveu liberdade pessoal expressa pela aparência física e experimentação com drogas, o que induziu comportamento introspectivo e passivo, em oposição ao álcool. Sua música desafiou as gerações de pais ultrapassados e favoreceu diversão e aventura entre adolescentes. Os Beatles tornaram-se uma força libertadora para milhões de adolescentes que depois se tornariam ativistas, hippies e participantes de protestos por mudanças sociais e culturais.Corry, J. (2010). “The Beatles and the Counterculture”. TCNJ Journal of Student Scholarship, Volume XII. Muitos psicólogos viram a Beatlemania como uma rebelião e reação contra seus pais conservadores.Hirsch, A. (2018). “How BeatleMania Came Exactly When the Teenage Generation Needed It Most”. Retrieved from https://uwarchive.wordpress.com/2018/04/22/how-beatlemania-came-exactly-when-the-teenage-generation-needed-it-most/ Outro exemplo na música foi "Rock Around the Clock", que não só foi uma das primeiras gravações americanas de rock and roll, mas também foi considerada o hino nacional adolescente.Doyle, J (2016) “Rock Around The Clock – Bill Haley: 1951-1981” Retrieved from https://www.pophistorydig.com/topics/rock-around-the-clock-bill-haley/ Considerando as indústrias cinematográfica e musical, o especialista John Storey define cultura popular como algo que surge do povo e não é imposto a ele. Em outras palavras, a cultura popular é moldada e projetada pelos seus consumidores, e é por isso que, sem exceção, está entrelaçada com a rebelião adolescente.

Contexto histórico