Clarice Ribeiro Chaves Herzog (São Paulo, 1941) é uma socióloga e ativista brasileira, reconhecida por sua atuação em defesa dos direitos humanos e da democracia no Brasil. Tornou-se uma das principais vozes na busca por justiça no caso do assassinato de seu marido, o jornalista Vladimir Herzog, morto em 1975 pela Ditadura Militar Brasileira.
Biografia Clarice Ribeiro Chaves formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) na década de 1960. Durante o período universitário, conheceu Vladimir Herzog, então estudante de Filosofia, com quem se casou em fevereiro de 1964, pouco antes do golpe militar que depôs o presidente João Goulart. Após o casamento, o casal mudou-se para Londres, onde nasceram seus dois filhos, Ivo Herzog e André Herzog. Durante o período em que viveu no Reino Unido, Clarice participou de um programa no Center of Information do Foreign and Commonwealth Office (FCO). O casal retornou ao Brasil em 1968, quando Clarice iniciou carreira na área de pesquisa e publicidade.
Assassinato de Vladimir Herzog Em 25 de outubro de 1975, Vladimir Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura, apresentou-se voluntariamente ao DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo, para prestar depoimento. Horas depois, foi encontrado morto nas dependências do órgão. O regime militar declarou oficialmente que Herzog havia cometido suicídio, versão posteriormente refutada por diversas investigações e testemunhos.
Clarice Herzog foi uma das primeiras a contestar publicamente a versão oficial, declarando que seu marido havia sido assassinado sob tortura. O enterro de Vladimir, realizado no Cemitério Israelita do Butantã, tornou-se um ato simbólico de resistência: contrariando a tradição judaica que reserva áreas específicas para suicidas, Clarice e familiares decidiram sepultá-lo na parte central do cemitério. Poucos dias depois, a cerimônia inter-religiosa na Catedral da Sé, em São Paulo, reuniu mais de oito mil pessoas e marcou um dos maiores atos públicos contra a repressão militar. Lideranças religiosas de diferentes credos, como o Cardeal D. Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel e o pastor James Wright, foram fundamentais na organização do evento.
Ação judicial e reconhecimento oficial Durante a ditadura, Clarice ingressou com uma ação declaratória contra o Estado Brasileiro, responsabilizando-o pela morte do marido. Décadas depois, Clarice continuou buscando o reconhecimento internacional do caso. Em 2009, com apoio do Centro pela Justiça e o Direito Internacional (CEJIL), levou o Caso Herzog à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Em 2018, a Corte condenou o Brasil por omissão na investigação e punição dos responsáveis, reconhecendo o assassinato de Vladimir Herzog como crime contra a humanidade. Em 2013, o atestado de óbito de Vladimir Herzog foi retificado, passando a constar oficialmente como “morte decorrente de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército – DOI-CODI”, substituindo a versão anterior de suicídio.
Atuação e legado miniaturadaimagem|A presidenta Dilma Rousseff entregando o Prêmio Direitos Humanos 2011 para a Clarice Herzog na categoria Direito a Memória e a Verdade, ao Instituto Vladmir Herzog Clarice Herzog manteve-se ativa nas causas de direitos humanos e democracia ao longo de mais de quatro décadas. Desde 2009, atua como presidente do Instituto Vladimir Herzog, organização da sociedade civil voltada à promoção da memória, justiça e defesa dos direitos humanos.
Em 2025, aos 83 anos, Clarice foi diagnosticada com Alzheimer. No mesmo ano, recebeu o direito a uma pensão vitalícia concedida pela Justiça Brasileira, calculada com base na remuneração que Vladimir Herzog teria direito se estivesse vivo, em reconhecimento à responsabilidade do Estado em sua morte.
Referências
Categoria:Sociólogas do Brasil Categoria:Nascidos em 1941 Categoria:Vladimir Herzog Categoria:Opositores da ditadura militar no Brasil (1964–1985)