A Irmandade de São Lucas foi uma associação de pintores, escultores e outros artistas ativos em Lisboa entre os séculos XVII e XVIII. Constituída c. 1602 sob a invocação de São Lucas Evangelista — padroeiro dos pintores —, teve a sua sede na igreja do Convento da Anunciada, onde os artistas adquiriram uma capela para o culto e reuniões. Representou um dos primeiros esforços de organização profissional e mutualista dos pintores portugueses, funcionando como espaço de sociabilidade, assistência e afirmação do ofício artístico.
História A data da fundação da Irmandade é incerta, mas remonta pelo menos a 1602, quando os pintores lisboetas, entre os quais Simão Rodrigues, Luís Álvares, Manuel da Costa, Fernão Gomes e Domingos Vieira, compraram às freiras do Convento da Anunciada uma capela dedicada a São Lucas. O contrato previa que as religiosas colaborassem na manutenção da capela e nos serviços litúrgicos, inicialmente sem remuneração.
Em 1609 foi redigido o Compromisso da Irmandade, documento estatutário que regulava as obrigações religiosas e sociais dos irmãos. Este texto, decorado com um frontispício pintado pelo arquiteto Eugénio Frias Serrão, definia normas de ajuda mútua — incluindo auxílio a irmãos pobres, viúvas e presos — e determinava o caráter religioso da confraria. O alvará régio de aprovação foi emitido por Dom Miguel de Castro no mesmo ano.
Durante o século XVII, a Irmandade prosperou, adquirindo bens artísticos e litúrgicos, como o retábulo de São Lucas, pintado por Amaro do Vale, e mantendo intensa vida devocional. As freiras da Anunciada, além de zelarem pela capela, integraram a própria Irmandade como irmãs, tendo algumas sido eleitas mordomas e presidentes — um caso singular de cooperação entre religiosos e artistas leigos.
Em 1712, foi assinado novo contrato com o convento, fixando o pagamento anual de 3.000 réis pelo serviço das freiras. Após o Terramoto de 1755, a Irmandade entrou em declínio, mas foi reerguida a partir de 1777 sob a liderança do pintor e tratadista Cyrillo Volkmar Machado. Teve como sede provisória a antiga Igreja de Santa Justa. Em 1793, reinstalou-se no Convento de Santa Joana, onde retomou o culto e as atividades associativas, com a instalação de um painel de São Lucas, assim como bustos, retratos e epitáfios dos seus Artistas mais ilustres.
As Invasões Francesas (1807–1808) precipitaram o fim da Irmandade, cuja atividade cessou definitivamente em 1808. O seu espólio documental foi preservado por Cyrillo Volkmar Machado e, mais tarde, integrado nos acervos da Academia Nacional de Belas-Artes, do Museu Nacional de Arte Antiga e da Biblioteca Nacional de Portugal.
Estrutura e membros A Irmandade agrupava pintores de óleo, têmpera e azulejo, escultores, arquitetos e “amantes da pintura”. Entre os seus membros destacaram-se Pedro Alexandrino de Carvalho, Vieira Lusitano, André Gonçalves, e Cyrillo Volkmar Machado. A associação mantinha um tesoureiro, juízes, escrivães e mordomos, com eleições anuais e reuniões registadas em livros próprios.
Funções e atividades A Irmandade promovia missas e festas em honra de São Lucas, auxiliava os irmãos em dificuldades e contribuía para a avaliação da qualidade artística das obras. Teve também um papel importante na representação pública dos pintores em Lisboa, participando em celebrações religiosas e eventos régios, como a entrada de Filipe II em 1619.
Fontes documentais O espólio documental da Irmandade inclui o Livro do Compromisso (1609), o Livro de todas as Memórias (1637–1700), o Livro dos Assentos (1712) e vários canhenhos e livros de acórdãos datados do final do século XVIII. Estes documentos constituem uma das principais fontes para o estudo das artes visuais em Portugal antes da criação da Academia de Belas-Artes de Lisboa (1836).
Ver também
Pintura de Portugal Academia Nacional de Belas-Artes Cyrillo Volkmar Machado
Bibliografia
Ligações externas
Tese de Maria do Céu Mendonça – Universidade de Lisboa Livro Pintores de Lisboa, séculos XVII–XVIII: A Irmandade de S. Lucas
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