O desabamento do restaurante Jamile, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, ocorreu em 8 de outubro de 2025, por volta do meio-dia, horário local, cerca de 10 minutos antes da abertura da casa. O estabelecimento tem o cardápio assinado pelo chef Henrique Fogaça, jurado do talent show Masterchef Brasil, da Band.
O mezanino de madeira do restaurante, estrutura que dividia o térreo e o primeiro andar, sofreu um colapso. O Corpo de Bombeiros chegou a informar inicialmente que o mezanino havia cedido após explosão provocada por vazamento de gás. No entanto, após constatação de que não houve incêndio ou explosão no local, a hipótese foi descartada pela corporação. A concessionária responsável pela distribuição de gás, cujas equipes foram preventivamente enviadas ao local, também não estabeleceu qualquer correlação entre a substância e o acidente.
O estabelecimento não estava aberto ao público no momento do acidente. No total, o acidente provocou oito vítimas, todas elas funcionárias do restaurante, e não clientes. Seis foram soterradas, sendo que cinco ficaram feridas e uma acabou falecendo. Outras duas pessoas precisaram receber atendimento devido a abalo psicológico. As causas reais do desabamento estão sob investigação.
Contexto Localizado na rua 13 de Maio, no bairro da Bela Vista, região central de São Paulo, em um quarteirão ocupado apenas apenas por restaurantes e cantinas, o Jamile é um restaurante especializado em gastronomia contemporânea, que foi inaugurado em setembro de 2015 e estava instalado em um prédio antigo de três andares, local onde anteriormente funcionava uma agência bancária, e que foi totalmente reformado pelo arquiteto Rafic Farah. Os sócios responsáveis por sua fundação são Alberto Hiar, dono da grife Cavalera e ex-deputado estadual, e Anuar Tacach, que fundou a agência Out Out Office. O nome "Jamile" foi uma homenagem à mãe de Alberto Hiar. A estrutura societária e a marca do restaurante foram posteriormente alvo de investigação judicial, acusadas de serem usadas para blindar o patrimônio da grife, que se encontra em processo de recuperação judicial.
Apesar de não ser sócio do restaurante, todo o marketing da inauguração foi realizado com base na assinatura do chef Henrique Fogaça, que havia acabado de participar de sua segunda temporada como jurado do talent show Masterchef Brasil. Em 2025, o Jamile passou a figurar na lista de estabelecimentos recomendados pelo Guia Michelin, que concede estrelas aos restaurantes mais conceituados do mundo.
As mesas do Jamile ficam no salão principal, com capacidade para 120 pessoas, localizado no primeiro andar, onde divide o espaço com uma cozinha de finalização aberta, que pode ser vista por todos os clientes. Este mesmo andar conta com uma área externa, com teto de vidro, e é onde ficava o mezanino que desabou, sustentado por vigas de aço. O segundo andar do restaurante é dedicado à cozinha, ao depósito e áreas administrativas. Um terraço, localizado no último piso, pode ser usado para a realização de festas e eventos.
O Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros do restaurante, documento que comprova o cumprimento das normas de segurança exigidas para funcionamento regular, estava válido. O Jamile também possuía licença de funcionamento válida, emitida em 2022, e licença sanitária vigente da Secretaria Municipal da Saúde. Apesar disso, o imóvel acabou sendo interditado pela Defesa Civil por apresentar risco de colapso estrutural. Os prédios vizinhos não foram afetados. Embora o AVCB e a licença de funcionamento estivessem válidas, o imóvel onde o Jamile estava instalado constava como irregular no Cadastro de Edificações do Município (Cedi) desde março de 2022, cerca de dois anos após o arquivamento definitivo de três pedidos de reforma realizados pelo restaurante, todos indeferidos.
Colapso
Em 8 de outubro de 2025, por volta do meio-dia, a estrutura de madeira do mezanino do restaurante desabou, em uma área exclusiva para funcionários. O Jamile ainda não estava aberto ao público no momento do acidente e, dentre os nove funcionários presentes — justamente para abrir o estabelecimento para o dia —, oito ficaram feridos.
Ao todo, dez viaturas e de 40 bombeiros, além de equipes da Polícia Militar, Polícia Civil e da Superintendência de Polícia Técnico-Científica foram mobilizados para o atendimento à ocorrência. Cinco pessoas soterradas foram resgatadas com vida pelos bombeiros, e encaminhadas a hospitais da região. Outras duas pessoas precisaram receber atendimento psicológico, prestado no próprio local do acidente.
A cozinheira Suênia Maria Tomé Bezerra, que tinha 51 anos de idade e trabalhava há dois no restaurante, foi atingida pelos escombros do mezanino e sofreu uma parada cardiorrespiratória. Apesar das manobras de reanimação executadas pelos membros do Corpo de Bombeiros, ela acabou não resistindo, e morreu no local.
A Defesa Civil e outras autoridades apuram possíveis causas para o desabamento, que podem incluir problemas nas instalações de gás, sobrecarga na construção do edifício que abrigava o restaurante, ou outras falhas estruturais.
Peritos da Polícia Técnico-Científica da Polícia Civil do Estado de São Paulo entraram no restaurante Jamile no dia seguinte ao acidente, 09 de outubro, acompanhados de representantes do estabelecimento. Os peritos apreenderam ao menos um computador, que pode conter imagens das câmeras de segurança do lado de dentro do restaurante e ajudar a entender o que de fato aconteceu. Um drone foi utilizado para avaliar algumas regiões internas específicas, mas inicialmente, não foi possível avançar significativamente com o trabalho, devido à grande quantidade de entulho ainda presente no imóvel e ao risco de novos desabamentos.
A equipe tem até dez dias para entregar o laudo da perícia, embora o prazo possa ser ser prorrogado.
Na mesma data, fiscais do CREA também estiveram presentes ao imóvel, fazendo avaliações para contribuir com a identificação de possíveis causas para o acidente. A Polícia Civil será responsável pela identificação das eventuais responsabilidades pelo desabamento.
Teorias Inicialmente, os bombeiros informaram que uma explosão causada por vazamento de gás poderia ter causado o desabamento, mas tal hipótese foi posteriormente descartada. Relatos dos funcionários deram conta de que a estrutura "simplesmente desabou". Testemunhas disseram que não sentiram cheiro de gás no local, e a concessionária responsável pelo fornecimento de gás, que enviou equipes ao local, também não constatou relação entre a substância e o acidente. A polícia, no entanto, ainda não terminou de ouvir as testemunhas do caso, uma vez que nem todos os funcionários estavam em condições de prestar depoimento nas horas seguintes à tragédia, e parte deles ainda passa por acompanhamento médico.
O arquiteto Rafic Farah, responsável pelo projeto arquitetônico e visual do restaurante Jamile, disse, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, acreditar que o desabamento pode ter sido causado pela estrutura antiga do prédio, originalmente uma agência bancária, e pela fixação inadequada do mezanino em uma parede possivelmente comprometida. Farah relatou que sua impressão era de que "o lado direito da estrutura se desprendeu da parede, onde estava fixada por parafusos". Ele foi outro a descartar a hipótese de explosão de gás como causa do acidente, e mencionou ainda que a construtora original foi substituída por outra empresa durante a obra, após a identificação de problemas técnicos.
Após nova perícia realizada em 10 de outubro, uma testemunha que solicitou permanecer anônima declarou à Agência Pública que a principal hipótese para o desabamento é o colapso da viga principal do mezanino, devido a uma solda realizada fora das especificações.
Controvérsias miniaturadaimagem|Pedidos de reforma do restaurante Jamile, indeferidos pela Prefeitura de São Paulo
Licença para reformas Apesar das confirmações, por parte da Subprefeitura da Sé, de que o Jamile possuía licença de funcionamento válida, emitida em 2022, e também licença sanitária e Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros regularizados, tais documentações se referem apenas ao funcionamento comercial do restaurante.
Segundo registros da Secretaria de Licenciamento da Prefeitura de São Paulo, três pedidos de reforma do imóvel onde o Jamile funcionava foram protocolados desde 2012, incluindo a solicitação de instalação do mezanino que desabou. Todos os pedidos foram indeferidos, sendo as razões a falta de apresentação de documentação exigida pelos engenheiros do município e a existência de pendências de acessibilidade e itens de segurança no imóvel.
O processo de solicitação de reforma do espaço começou em dezembro de 2012, quando uma proposta de "reforma com acréscimo de área" foi aprovada no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, que precisou deliberar pelo fato da obra envolver uma "área envoltória" de imóveis tombados, e de precisar atender a toda a legislação aplicável nestas situações. Apesar disso, o alvará de aprovação e execução de reforma foi negado pela primeira vez em julho de 2015, mesmo ano em que o restaurante Jamile foi inaugurado. Em dezembro de 2019, a Subprefeitura da Sé solicitou uma série de esclarecimentos sobre a obra, incluindo divergência na metragem do mezanino, altura e acessibilidade. Já em janeiro de 2020, um representante do restauante requereu uma "reconsideração de despacho" do alvará, que foi novamente indeferida. Após essa sucessão de indeferimentos pela área técnica da Secretaria de Urbanismo e Licenciamento, o alvará de reforma do espaço foi arquivado em 2023, tornando necessária a abertura de novo processo antes da realização de qualquer obra no local. O processo de reforma do imóvel corria em paralelo com a recuperação judicial da Cavalera — principal controladora de Alberto Hiar —, onde a Justiça isentou a primeira dona do restaurante da acusação de fraude patrimonial nove dias antes do desabamento ocorrido no local.
A polícia investiga se a falta de autorização para construção e reforma do mezanino está diretamente relacionada ao desabamento ocorrido, e se tal constatação configuraria crime.
Em seu alvará de funcionamento, o Jamile estava categorizado como microempresa, modalidade de negócio em que o faturamento não pode ultrapassar R$360 mil anuais, apesar de outros documentos apontarem que a receita do restaurante era muito superior a isso.
Verdadeiros donos do Jamile miniaturadaimagem|Os empresários Alberto Hiar e Anuar Tacach, em foto de divulgação do restaurante Jamile, aparecem ao lado do chef Henrique Fogaça, que assina o cardápio do estabelecimento. Apesar dos nomes do chef Henrique Fogaça e dos empresários Anuar Tacach e Alberto Hiar terem sido amplamente veiculados pela imprensa como proprietários do restaurante Jamile, uma investigação detalhada na Junta Comercial revelou que, na verdade, outras pessoas são as responsáveis legais pelo estabelecimento. Embora Fogaça tenha se autodeclarado sócio da empresa em entrevistas passadas, após o desabamento ele passou a negar vínculo societário e limitou sua colaboração à "identidade culinária" e questões de afinidade. Oficialmente, o nome de Mislaine Monteiro Silva consta como sócia administradora da empresa Studio Bar e Restaurante Ltda, cobrada judicialmente por dívidas de impostos do Simples Nacional totalizando mais de R$ 700 mil em 2023. A família de Mislaine nega qualquer envolvimento dela com o estabelecimento, o que levanta a suspeita de que ela pode ter sido usada como "laranja" para blindar os verdadeiros controladores.