O povo romano era a etnia e o corpo de cidadãos romanos (; ) durante o Reino Romano, a República Romana e o Império Romano. Este conceito sofreu mudanças consideráveis ao longo da longa história da civilização romana, à medida que as suas fronteiras se expandiam e contraíam. Originalmente incluindo apenas os latinos da própria Roma, a cidadania romana foi estendida ao resto dos povos itálicos no século I a.C. e a quase todos os súbditos do Império Romano no final da Antiguidade. No seu auge, os romanos governaram grandes partes da Europa, do Oriente Próximo e do Norte da África por meio de conquistas feitas durante a República Romana e o subsequente Império Romano. Embora definida principalmente como uma cidadania, a "romanidade" também foi descrita de várias formas como uma identidade cultural, uma nacionalidade ou uma multietnia que eventualmente abrangeu uma vasta diversidade regional.

Concessões de cidadania, crescimento demográfico e colónias de colonos e militares aumentaram rapidamente o número de cidadãos romanos. O aumento atingiu o seu pico com a Constituição Antonina do Imperador Caracala em 212 d.C., que estendeu os direitos de cidadania a todos os habitantes livres do império. A identidade romana proporcionou um maior sentido de identidade comum e tornou-se importante ao distinguir como não romanos colonos e invasores bárbaros. A cultura romana estava longe de ser homogénea; embora houvesse um idioma cultural comum, um dos pontos fortes do Império Romano também era a sua capacidade de incorporar tradições de outras culturas, notavelmente, mas não exclusivamente, da Grécia. miniaturadaimagem|Mudanças nas fronteiras do Estado Romano do século VI a.C. ao século XV d.C O colapso do Império Romano do Ocidente no século V pôs fim à dominação política do Império Romano na Europa Ocidental, mas a identidade romana sobreviveu no Ocidente como um importante recurso político. Devido aos fracassos do Império Romano do Oriente, também chamado de Império Bizantino, em reconquistar e manter o controlo do Ocidente e à supressão dos novos reinos germânicos, a identidade romana desapareceu no Ocidente, praticamente desaparecendo nos séculos VIII e IX. No Oriente de língua grega, ainda sob controlo imperial, a identidade romana sobreviveu até a queda do Império Bizantino em 1453 e além.

Enquanto que a identidade romana desapareceu na maioria das terras onde antes era proeminente, para algumas regiões e povos ela mostrou-se consideravelmente mais tenaz. Na Itália, "romanos" (Romani em latim e italiano) tem sido contínua e ininterruptamente o gentílico dos cidadãos de Roma desde a fundação da cidade até aos dias atuais. Durante o Império Romano do Oriente e por algum tempo após a sua queda, os gregos identificaram-se como Romioi, ou nomes relacionados. Na Suíça, vários nomes são referências romanas: os Romandos e o povo Romanche. Vários nomes derivam do latim Romani (como os romenos, aromenos e istro-romenos ), ou do germânico walhaz (um termo que originalmente se referia aos romanos; adotado na forma Vlach como a autodesignação dos megleno-romenos).

Romanidade

Significado de "romano"

esquerda|miniaturadaimagem|Seis retratos de múmias de Faium, retratos contemporâneos de pessoas no Egito Romano do século I a.C. ao século III d.C. miniaturadaimagem|Frescos da Vila dos Mistérios em Pompéia, Itália, obra de arte romana datada de meados do século I a.C.

Não-romanos

Muitos estudiosos consideram inadequado aplicar o conceito moderno de racismo à Roma Antiga sob a justificativa de que suas hierarquias eram fundamentadas em critérios culturais e não biológicos, porém a historiografia recente demonstra que os romanos elaboraram representações hierarquizadas dos povos estrangeiros e subjugados. Mais do que preconceitos, eram discursos que atribuíam características morais, políticas e culturais, contribuindo para reforçar a identidade romana como superior e legitimar sua expansão imperial. Autores como Benjamin Isaac defendem que, embora não existisse um racismo biológico nos moldes modernos, eram formas de pensamento proto-racial e etnocêntrico que naturalizavam a inferioridade de determinados povos.

As representações não eram homogêneas, mas variavam conforme o grupo em questão e o contexto político. Os gregos eram retratados como excessivamente sofisticados, moralmente decadentes e pouco afeitos às virtudes romanas; os persas apareciam como símbolo do luxo, despotismo e submissão ao poder absoluto; os judeus eram frequentemente caracterizados como obstinados, exclusivistas e resistentes à integração aos costumes romanos; gauleses e germânicos eram frequentemente representados pelos autores romanos como "barbari", guerreiros corajosos e fisicamente vigorosos, mas também impulsivos e associados à ausência dos costumes e da disciplina considerados próprios da civilização de Roma.

A distinção entre romanos e bárbaros não decorria da língua ou da origem étnica, mas dos costumes e do caráter. Ser bárbaro não constituía uma condição biológica, mas um modo de vida inferior ao romano. Essa concepção permitia que povos conquistados fossem progressivamente incorporados ao Império por meio da adoção dos costumes romanos, processo frequentemente apresentado como uma missão civilizadora, ignorando costumes diferentes e pré-estabelecidos.

Autores como Estrabão apresentavam a expansão de Roma como um empreendimento capaz de levar estabilidade e civilização aos povos considerados inferiores, enquanto Tácito, ao descrever os germanos na Germania, oscilava entre reconhecer determinadas virtudes e reafirmar sua condição de bárbaros. Assim, os discursos romanos sobre os povos estrangeiros não constituíam apenas descrições etnográficas, mas integravam uma ideologia imperial que reforçava a legitimidade da dominação romana e construía diferentes formas de alteridade para cada povo submetido ou vizinho do Império.

Gregos A relação entre romanos e gregos foi marcada por profunda ambivalência. Após a conquista da Macedônia (consolidada entre 168 e 148 a.C., com sua anexação oficial em 148 a.C.) e, posteriormente, da Grécia (146 a.C.), Roma incorporou intensamente elementos da cultura grega, como a filosofia, a literatura, a retórica e a educação, que se tornaram referências para as elites romanas. A conhecida expressão de Horácio, “Graecia capta ferum victorem cepit” ("A Grécia conquistada conquistou seu feroz vencedor"), resume a percepção de que, embora Roma tenha submetido a Grécia militarmente, acabou por assimilar grande parte de sua cultura. Essa admiração, contudo, coexistia com críticas aos gregos contemporâneos. Muitos autores distinguiam o prestígio da Grécia clássica do comportamento atribuído aos gregos de sua própria época. Enquanto atenienses e espartanos do período clássico eram frequentemente lembrados como modelos de excelência intelectual, política e, em certa medida, militar, os gregos contemporâneos aos romanos eram retratados como menos virtuosos, mais inclinados ao luxo, à retórica excessiva e à instabilidade política.

Essa ideia também era aplicada às comunidades gregas estabelecidas fora da Grécia continental, frequentemente descritas como tendo degenerado ao assimilar costumes locais e se afastar das virtudes atribuídas aos seus antepassados. Todavia, os macedônios constituíram uma exceção parcial a essa percepção, pois, antes de sua conquista por Roma, eram vistos como importantes adversários militares, e somente após sua derrota passaram gradualmente a ser associados, na literatura romana, ao Oriente helenístico e à decadência atribuída a essa região, muitas vezes atribuindo o fracasso macedônico à decadência asiática, pois voltaram corrompidos e “afeminados” de suas campanhas militares.

A partir do século II a.C., tornou-se recorrente entre autores romanos a ideia de que o contato com o Oriente helenístico havia corrompido os costumes tradicionais de Roma. Salústio, escrevendo na metade do século I a.C, atribuiu às campanhas de Lúcio Sula na Ásia a introdução da luxúria, da ganância e da perda da disciplina militar entre os romanos. Discursos preservados por Tito Lívio também opunham povos considerados guerreiros, como macedônios, trácios e ilírios, aos gregos da Ásia Menor, descritos como naturalmente servis e pouco aptos à guerra. Essa tradição literária apresentava uma gradação geográfica da ideia de corrupção da moral romana por influências externas: inicialmente atribuída ao sul da Itália, depois à Grécia continental e, por fim, à Ásia Menor e ao Oriente Próximo, considerados os espaços de maior luxo e decadência.

Segundo o historiador Benjamin Isaac, essas representações estavam ligadas à ideia de que o ambiente e os costumes influenciavam o caráter dos povos, constituindo uma forma de proto-racismo, isto é, um conjunto de concepções que antecederam o desenvolvimento do racismo moderno. Assim, o contato prolongado com o Oriente passou a ser frequentemente apresentado como capaz de corromper o próprio povo romano, tornando o luxo oriental um símbolo da decadência moral e do afastamento da tradicional virtude de Roma, seguindo também a associação comum da contraposição entre o homem romano viril, másculo e forte contra o homem oriental afeminado e sem vigor.

Autores romanos também distinguiam, em certa medida, os gregos da Grécia continental daqueles estabelecidos na Ásia Menor e em outras regiões orientais, estes que eram frequentemente associados ao luxo, à decadência e à servilidade em grau ainda maior. Essa diferenciação, contudo, nem sempre era mantida. Juvenal, por exemplo, ao criticar a presença grega em Roma, afirma que apenas uma pequena parcela dessa "escória" provinha da Grécia propriamente dita, atribuindo a maior parte à imigração oriunda da Síria e de outras regiões orientais. Já Tácito, ao descrever uma guarnição de origem grega em Trapezo, na região do Ponto, atribuiu-lhe a "indolência" e a "licenciosidade dos gregos", sem distinguir entre gregos continentais e orientais. De acordo com Benjamin Isaac, isso pode refletir um processo pelo qual, após a integração das províncias orientais ao Império Romano, a distinção entre gregos "asiáticos" e outros gregos tornou-se, por vezes, menos significativa.

Apesar dessas críticas, a cultura grega permaneceu como a principal referência intelectual e artística para as elites romanas ao longo de todo o período imperial. Vegécio e Cícero convergiam ao reconhecer a superioridade artística e intelectual dos gregos, admitindo que os romanos eram superados nesses aspectos, embora reivindicassem para seu povo outras formas de excelência como a organização militar e a religião.

Germânicos