miniaturadaimagem|300x300px|Interior do Mosteiro de Alcobaça . O Mosteiro de Alcobaça é um dos mais importantes mosteiros do gótico antigo de Portugal .
O "Protogótico" (também denominado em diversos contextos historiográficos como gótico primitivo ou estilo de transição) corresponde à fase inicial e originária da arquitetura gótica, desenvolvida maioritariamente durante a segunda metade do século XII e as primeiras décadas do século XIII. O período caracteriza-se por uma intensa experimentação arquitetónica e estrutural, marcada pela introdução e difusão sistemática de elementos como o arco apontado e a abóbada de cruzaria (ou de ogivas), frequentemente integrados em edifícios de volumetria e paramentos murais ainda de tradição românica. Na Península Ibérica, a definição e os limites concetuais do protogótico têm sido objeto de um amplo debate historiográfico, dividindo os autores entre os que o consideram a primeira etapa autónoma do estilo gótico e os que o interpretam como um "tardorromânico" ou um período transitório de adaptação formal.
Nome
Para aglutinar as obras românicas mais tardias, surgiu o termo "transição" (proposto por Arcisse de Caumont para o século XII), que chegou a ser autonomizado do próprio românico para formar um "inter-estilo" prévio ao gótico. Este conceito fundamentava-se na premissa formalista de uma evolução lógica e contínua das formas, exemplificada pela introdução do arco ogival e da abóbada de cruzaria.
Contudo, o termo sofreu duras críticas devido à aparente rutura estética entre ambos os estilos, com autores como Erwin Panofsky e Otto von Simson que sublinham que o gótico não é um mero herdeiro "lógico" do românico, mas o seu rival e a sua antítese deliberada, nascido das tendências antirromânicas e anticluniacenses por volta de 1140. Do ponto de vista morfológico, pode aceitar-se uma evolução contínua dos elementos isolados; contudo, do ponto de vista da sintaxe estrutural e da organização funcional, o gótico representa uma verdadeira revolução criativa, como defende Fernando Chueca Goitia. Atualmente, o termo "transição" (protogótico) é usado de forma restrita, não como um processo finalista, mas como a constatação de um amplo período de experimentação, mudanças e transformações onde coexistem persistências e inovações. Torres Balbás afirmou expressamente que a arquitetura gótica constituía uma «fórmula completamente nova» e que o chamado estilo de transição consistia apenas numa «mistura de elementos diferenciados e diferenciáveis».
Na década de 1970, em alternativa à visão passiva do termo "transição", começou a consolidar-se, com especial relevo na Península Ibérica através dos trabalhos de José María de Azcárate, a denominação Protogótico. Azcárate definiu o protogótico não como um mero passo intermédio, mas como a fase pré-clássica ou que dá origem ao próprio estilo gótico, desenvolvida paralelamente ao apogeu do românico (entre c. 1175 e 1225). Sob esta designação, agrupavam-se tipologias com forte personalidade, tais como as «igrejas de tipo languedociano» caracterizadas por pilares com colunas fasciculadas e cobertura de ogivas (visíveis em edifícios como as catedrais de Tarragona e Lérida, ou a Colegiata de Tudela). Atualmente, o enquadramento crítico deste período na literatura especializada permanece heterogéneo, dividindo-se essencialmente em quatro correntes de interpretação: Tardorromânico: Defendida por historiadores como Isidro Bango Torviso ou Willibald Sauerländer, esta corrente nega a existência de um verdadeiro "protogótico" na Península Ibérica. Sustenta que a arquitetura do final do século XII (incluindo as grandes construções cistercienses) pertence integralmente ao românico tardio, argumentando que a presença pontual de abóbadas de ogivas não altera a conceção espacial e estruturalmente conservadora desses edifícios. Protogótico / Gótico primitivo: A perspetiva que mantém a validade do protogótico como a fase que dá origem ao gótico, valorizando a introdução da lógica de seriação e homogeneização dos suportes e coberturas como prenúncio do novo estilo. Autonomia da Arquitetura Cisterciense: A abordagem que prefere analisar as obras do período sob o prisma da "arquitetura cisterciense" ou da "época de Císter", considerando a Ordem de Cister como a principal difusora de um "gótico severo" e funcional, desvinculado dos debates sobre o românico tradicional. Uso Restrito de "Transição": O emprego da expressão "período de transição" desprovido do valor de "estilo" autónomo, serve unicamente para constatar a realidade histórica de um período de grande tensão criativa e ecletismo, em que coexistiram tradições locais e a experimentação de influências regionais francesas (com origem em Anjou, Borgonha ou Languedoc).
Arquitetura Arquitectura de Transição na França do Século XII Arquitetonicamente, a transição ocorreu da simplicidade, severidade e basicidade estrutural do que é genericamente classificado como arquitetura românica, que caracterizou os séculos XI e XII, para o conceito estruturalmente mais complexo de arquitetura gótica. O período protogótico assistiu à introdução, dentro das paredes ainda espessas dos edifícios religiosos europeus, das primeiras galerias nas partes mais altas das naves, onde grandes janelas e vitrais se destacavam para permitir uma maior passagem de luz. Uma componente fundamental é a transição gradual, também no século XII, de sistemas simples de cobertura em treliça ou abóbadas de berço para abóbadas de cruzaria cada vez mais complexas. No interior do edifício, o elemento de inovação e grandiosidade em relação ao passado é caracterizado pelo coro, no qual todas as características arquitectónicas são enfatizadas para transmitir a natureza sobrenatural e sacrificial da Missa.
Observa-se que muitos dos elementos característicos da arquitetura gótica não apresentam sinais particulares de mudança radical em relação ao passado. As primeiras manifestações da arquitetura gótica, que podem ser interpretadas como um legado direto da arquitetura românica, baseiam-se principalmente na utilização de inovadora de elementos construtivos, em vez de o emprego de novos elementos. Já na arquitetura normanda, por volta de 1100, podem ser observados elementos anteriores ao gótico. Assim, por exemplo, na Igreja de Santo Estêvão em Caen, na Normandia, num contexto ainda românico, as abóbadas de berço preexistentes foram substituídas em 1115 por abóbadas de cruzaria.
A utilização consciente e sistemática do arco ogival e do sistema construtivo a ele associado ocorre pela primeira vez na primeira metade do século XII na região de Paris, A Catedral Gótica: Espírito e Estrutura da Maior Obra de Arte da Cidade Ocidental por Ivo Tagliaventi, Editora Alinea, 2009, Florença em particular com a reconstrução do coro da Basílica de Saint-Denis (1135-1145). Este edifício apresenta os elementos fundadores do "opus Francigenum", que representam o coração do que mais tarde seria conhecido como arte gótica: o arco ogival ou ogival, a abóbada ogival nervurada, o arcobotante, os pináculos e o sistema de engenharia que liga estes elementos para racionalizar as paredes, transferindo as cargas para o exterior e permitindo que se elevem ainda mais. Grodecki: "Gótica Architecture" Acima de tudo, destaca-se o estudo equilibrado da estática e da distribuição dos pesos, sinónimo da evolução das técnicas construtivas, que permitiu que estes elementos se apoiassem em paredes muito altas e finas, com grandes janelas, para elevar e aproximar simbolicamente a humanidade de Deus e permitir que a luz divina entrasse nas abadias da época.
Na mesma altura, foi realizada uma operação semelhante com a construção do novo coro do Priory of Saint-Martin em Paris, que tem fortes analogias com o coro de Saint-Denis. Apenas dez anos depois, por volta de 1145, iniciaram-se as obras de reconstrução da Catedral de Noyon na Picardia, severamente danificada por um incêndio. Também aqui, a parte mais antiga é a abside. Em 1185, o coro, o transepto e o último vão da nave principal estavam utilizáveis, novamente calibrados segundo as linhas inovadoras de Saint Denis.
Nesta fase, os responsáveis pelas novas construções eram os abades, que tinham promovido a construção e angariado os fundos para a custear, ou os irmãos, que tinham comunicado os desejos dos abades aos operários. Estas figuras recebiam o título de "arquiteto" e a responsabilidade pela construção de uma igreja. Os artesãos e os construtores, porém, moviam-se num mundo social diferente do dos monges, escapando muitas vezes à sua atenção. Os clientes limitavam-se geralmente a indicar as orientações gerais dentro das quais os construtores deveriam trabalhar.
As ordens religiosas e militares: do protogótico à consolidação do gótico
Ordem de Cluny A reforma monástica iniciada em 909 na Abadia de Cluny antecede em mais de dois séculos o aparecimento do gótico, mas lançou as bases institucionais — a ligação entre casa-mãe e casas-filhas, a uniformização litúrgica e arquitectónica entre mosteiros de uma mesma congregação — que a Ordem de Cister viria a herdar e a radicalizar. Foi precisamente em oposição ao fausto construtivo cluniacense, materializado sobretudo na grande igreja abacial de Cluny III, que São Bernardo de Claraval viria a definir os princípios de despojamento que marcariam a arquitectura cisterciense.
Ordem de Cister A Ordem de Cister nasceu em 1098, quando um grupo de monges liderado por Roberto de Molesme deixou a comunidade beneditina de Molesme para fundar, numa floresta isolada da diocese de Chalon, o chamado "Mosteiro Novo" de Cister. São Bernardo, nascido em 1090 numa família aristocrata da Borgonha, entrou na ordem apenas em 1112, já na sua segunda geração, e foi encarregue no ano seguinte de fundar a terceira casa-filha, Claraval, ficando por isso à frente dela apenas a partir de 1115 — quando a ordem já contava quase vinte anos de existência. É por isso discutido em que medida se pode atribuir a Bernardo, e não à primeira geração cisterciense liderada por Estêvão Harding, terceiro abade de Cister, a autoria do chamado "plano bernardino": Harding já havia definido, através da Carta de Caridade (1113/1114) e do Exordium Parvum, os ideais de pobreza e uniformidade entre casas, mas sem qualquer indicação relativa à arquitectura ou às artes plásticas.
Foi sobretudo através da Apologia ad Guillelmum Abbatem (1124-1125) — dirigida ao abade beneditino Guilherme de Saint-Thierry e cujo alvo, ao contrário do que a historiografia mais antiga sustentou, não seria apenas a Ordem de Cluny mas também a própria Ordem de Cister — que Bernardo condenou o recurso ao ouro, à prata e à decoração escultórica e pictórica nos mosteiros, sem contudo estender essa condenação às catedrais urbanas, cuja função pastoral junto de um povo maioritariamente analfabeto justificava, a seus olhos, um programa iconográfico mais rico. Estas ideias viriam a ser incorporadas nos capítulos gerais da ordem anteriores a 1134 e reforçadas no capítulo de 1152, proibindo esculturas, pinturas e vitrais coloridos nas igrejas cistercienses.