Um feijão geneticamente modificado é um feijão que passou por alterações em seu material genético por meio de técnicas da engenharia genética, conferindo características desejáveis, como resistência a pragas e doenças ou melhoria da qualidade nutricional e digestiva, podendo resultar em um feijão transgênico.

O primeiro feijão geneticamente modificado comercializado do mundo, registrado como BRS FC401 RMD, desenvolvido 100% por instituições públicas de pesquisa brasileiras, a Embrapa, foi aprovado para cultivo em 2011, iniciando comercialização em 2015 com uma variedade de feijão-carioca resistente ao vírus do mosaico dourado do feijoeiro (BGMV). Variedades de feijão-caupi geneticamente modificado foram desenvolvidas para expressar a proteína cry de Bacillus thuringiensis, que é tóxica para espécies de lepidópteros, particularmente para a broca da vagem (Maruca vitrata), uma praga que pode causar perdas de até 80% na produção. Essas tecnologias tem beneficiado os agricultores, proporcionando maior lucratividade, rendimento e menor uso de pesticidas. Exemplos de feijão transgênico Feijão RMD miniaturadaimagem|286x286px|Planta do feijão-comum infectada com o vírus do mosaico dourado do feijoeiro O feijão-comum (Phaseolus vulgaris) é um dos alimentos mais importantes no Brasil, sendo fonte de proteínas, carboidratos e micronutrientes, além de ter longa durabilidade e fácil preparo. A produção ocorre em três safras anuais, com destaque para os estados do Paraná, Minas Gerais, Bahia, São Paulo e Goiás. Contudo, pragas, doenças, seca e baixa fertilidade do solo afetam a produtividade, sendo o vírus do mosaico dourado do feijoeiro (BGMV), transmitido pela mosca-branca (Bemisia tabaci), a principal ameaça à cultura, podendo causar perdas de até 100% em áreas afetadas. O controle químico mostrou-se pouco eficaz, e programas de melhoramento convencional não obtiveram cultivares resistentes. Em 2004, a equipe de Aragão e Faria desenvolveu a primeira planta de feijão imune ao BGMV usando a estratégia de siRNA, selecionando a linhagem 5.1, que passou por testes em estufa, campo e análises de biossegurança. Os estudos confirmaram a segurança alimentar, a equivalência nutricional e a ausência de impactos ambientais, e em 2011 a CTNBio aprovou sua liberação comercial, o primeiro feijão transgênico comercializado do mundo, criado por uma instituição pública. As exigências regulatórias prolongaram a chegada ao mercado, mas em 2015 já havia cultivares comerciais da variedade carioca com produtividade média 20% maior e lucro até 78% superior em áreas afetadas, além de imunidade total ao vírus e redução no uso de inseticidas. O lançamento só ocorreu em 2020, após estratégias de multiplicação e planejamento comercial, e a aceitação inicial dos agricultores foi positiva; já para consumidores, a expectativa é de adesão semelhante à de outros produtos com OGMs no mercado. Como o feijão-carioca é destinado ao consumo interno, o processo foi facilitado, enquanto variedades exportadas, como o feijão-preto, permanecem fora do mercado.

Métodos Desde a década de 1960, a Embrapa buscava variedades de feijão resistentes ao vírus do mosaico dourado (BGMV), mas encontrou apenas cultivares com resistência parcial e pouco adaptadas ao Brasil, o que levou à aposta em biotecnologia nos anos 1990. Após tentativas sem sucesso com estratégias como RNA antissenso e transdominância letal, a solução veio no início dos anos 2000 com a interferência por RNA (RNAi), mecanismo natural de defesa das plantas que silencia genes. Inserindo no genoma do feijão um fragmento de DNA do vírus, os cientistas conseguiram fazer a planta produzir pequenas moléculas de RNA (siRNA) capazes de bloquear o gene essencial para a replicação viral, funcionando como uma “vacina” contra o BGMV. Esse processo potencializa um sistema já existente na planta, permitindo que a defesa seja acionada logo na infecção; além disso, observou-se que insetos transmissores reduzem sua carga viral ao se alimentar de feijões transgênicos, e que até lavouras convencionais vizinhas podem ser beneficiadas indiretamente. centro|miniaturadaimagem|670x670px|Processo desenvolvido pela equipe de Aragão e Faria para criar um feijão transgênico resistente ao vírus do mosaico dourado do feijoeiro pela técnica de RNA interferente.

Feijão-caupi Bt

Variedades de feijão-caupi (Vigna unguiculata) geneticamente modificado foram desenvolvidas e aprovadas para cultivo em países africanos, como a Nigéria, em 2019, e Gana, em 2024. Essas variedades vem sendo investigadas em outros países, como a Burkina Faso. Elas expressam a proteína cry de Bacillus thuringiensis, que é tóxica para espécies de lepidópteros, particularmente para a broca da vagem (Maruca vitrata), uma praga que pode causar perdas de até 80% na produção.

Controvérsia Existe um consenso científicoMas também veja:

Domingo, José L.; Giné Bordonaba, Jordi (1 de maio de 2011). «A literature review on the safety assessment of genetically modified plants». Environment International (4): 734–742. ISSN 0160-4120. doi:10.1016/j.envint.2011.01.003. Consultado em 21 de agosto de 2025 "Apesar disso, o número de estudos especificamente focados na avaliação de segurança de plantas GM ainda é limitado. No entanto, é importante observar que, pela primeira vez, foi observado um certo equilíbrio no número de grupos de pesquisa que sugerem, com base em seus estudos, que diversas variedades de produtos GM (principalmente milho e soja) são tão seguras e nutritivas quanto as respectivas plantas convencionais não-GM, e aqueles que ainda levantam sérias preocupações. Além disso, vale mencionar que a maioria dos estudos que demonstram que os alimentos GM são tão nutritivos e seguros quanto aqueles obtidos por melhoramento convencional foram realizados por empresas de biotecnologia ou associadas, que também são responsáveis ​​pela comercialização dessas plantas GM. De qualquer forma, isso representa um avanço notável em comparação com a falta de estudos publicados nos últimos anos em periódicos científicos por essas empresas."

Krimsky, Sheldon (1 de novembro de 2015). «An Illusory Consensus behind GMO Health Assessment». Science, Technology, & Human Values (em inglês) (6): 883–914. ISSN 0162-2439. doi:10.1177/0162243915598381. Consultado em 22 de agosto de 2025 "Comecei este artigo com depoimentos de cientistas respeitados de que não há literalmente nenhuma controvérsia científica sobre os efeitos dos OGMs na saúde. Minha investigação na literatura científica conta outra história."

Hilbeck, Angelika; Binimelis, Rosa; Defarge, Nicolas; Steinbrecher, Ricarda; Székács, András; Wickson, Fern; Antoniou, Michael; Bereano, Philip L; Clark, Ethel Ann (dezembro de 2015). «No scientific consensus on GMO safety». Environmental Sciences Europe (em inglês) (1). ISSN 2190-4707. doi:10.1186/s12302-014-0034-1. Consultado em 22 de agosto de 2025 "Na declaração conjunta a seguir, o consenso alegado é demonstrado como uma construção artificial que tem sido falsamente perpetuada por diversos fóruns. Independentemente das evidências contraditórias na literatura arbitrada, conforme documentado abaixo, a alegação de que agora existe um consenso sobre a segurança dos OGM continua a ser amplamente e frequentemente divulgada de forma acrítica."

E contraste:

Panchin, Alexander Y.; Tuzhikov, Alexander I. (17 de fevereiro de 2017). «Published GMO studies find no evidence of harm when corrected for multiple comparisons». Critical Reviews in Biotechnology (2): 213–217. ISSN 0738-8551. PMID 26767435. doi:10.3109/07388551.2015.1130684. Consultado em 22 de agosto de 2025 "Aqui, demonstramos que diversos artigos, alguns dos quais influenciaram forte e negativamente a opinião pública sobre os cultivos transgênicos e até mesmo provocaram ações políticas, como o embargo aos transgênicos, compartilham falhas comuns na avaliação estatística dos dados. Considerando essas falhas, concluímos que os dados apresentados nesses artigos não fornecem nenhuma evidência substancial de danos causados ​​pelos transgênicos.Os artigos apresentados, sugerindo possíveis danos causados ​​pelos transgênicos, receberam grande atenção pública. No entanto, apesar de suas alegações, eles, na verdade, enfraquecem as evidências dos danos e a falta de equivalência substancial dos transgênicos estudados. Ressaltamos que, com mais de 1.783 artigos publicados sobre transgênicos nos últimos 10 anos, espera-se que alguns deles tenham relatado diferenças indesejadas entre transgênicos e cultivos convencionais, mesmo que tais diferenças não existam na realidade."

Yang, Y. Tony; Chen, Brian (abril de 2016). «Governing GMOs in the USA: science, law and public health». Journal of the Science of Food and Agriculture (em inglês) (6): 1851–1855. ISSN 0022-5142. doi:10.1002/jsfa.7523. Consultado em 22 de agosto de 2025 "Portanto, não é surpreendente que os esforços para exigir rotulagem e proibir OGMs tenham sido uma questão política crescente nos EUA (citando Domingo e Bordonaba, 2011). De modo geral, um amplo consenso científico sustenta que os alimentos transgênicos atualmente comercializados não apresentam riscos maiores do que os alimentos convencionais... As principais associações científicas e médicas nacionais e internacionais declararam que nenhum efeito adverso à saúde humana relacionado a alimentos transgênicos foi relatado ou comprovado na literatura revisada por pares até o momento.Apesar de várias preocupações, hoje, a Associação Americana para o Avanço da Ciência, a Organização Mundial da Saúde e muitas organizações científicas internacionais independentes concordam que os OGMs são tão seguros quanto outros alimentos. Comparada às técnicas convencionais de melhoramento genético, a engenharia genética é muito mais precisa e, na maioria dos casos, menos propensa a gerar um resultado inesperado." de que os alimentos atualmente disponíveis derivados de culturas geneticamente modificadas não representam um risco maior para a saúde humana do que os alimentos convencionais, o feijão transgênico desenvolvido pela Embrapa demonstrou ser seguro para consumo humano e ao meio-ambiente, sendo substancialmente equivalente ao feijão convencional. No entanto, os membros do público são muito menos propensos do que os cientistas a perceber os alimentos geneticamente modificados como seguros, o status legal e regulatório dos alimentos geneticamente modificados varia de país para país, com algumas nações proibindo-os ou restringindo-os, e outras permitindo-os com graus de regulamentação amplamente diferentes.

Segundo a Embrapa e parte da comunidade científica, o feijão RMD representa um avanço tecnológico nacional e uma alternativa sustentável ao uso de inseticidas. Estima-se que o uso de pesticidas para combater a mosca-branca exija de 15 a 20 aplicações por safra, com alto custo e grave impacto ambiental. Os testes exigidos pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) demonstram que o feijão é seguro para o consumo humano e para o meio ambiente, já que o transgene apenas produz pequenas moléculas de siRNA, rapidamente degradadas no processamento do alimento, não introduzindo genes “estranhos” na planta. Os produtores demonstram disposição e interesse em cultivar o feijão transgênico, porém carecem de conhecimento tanto sobre o evento de feijão RMD quanto sobre a própria tecnologia de transgênese.