thumb|300px|Soldados venezuelanos carregando bandeiras vermelhas com os olhos de Chávez estampados e o texto Chavez vive. La lucha sigue ("Chávez vive. A luta continua") Desde 2 de fevereiro de 1999, a Venezuela tem passado por mudanças amplas e radicais em sua política social, afastando-se da adoção oficial de uma economia de livre mercado e de princípios de reformas de liberalização do governo anterior, e caminhando em direção à redistribuição de renda e programas de bem-estar social.
O então presidente Hugo Chávez mudou de forma significativa o alinhamento tradicional da política externa da Venezuela. Em vez de continuar com o alinhamento histórico com os Estados Unidos e os interesses estratégicos europeus, Chávez promoveu políticas alternativas de desenvolvimento e integração voltadas para o Sul Global.
Chávez morreu no cargo em 5 de março de 2013 e foi sucedido por seu vice-presidente Nicolás Maduro, que obteve uma estreita maioria na eleição especial de 14 de abril de 2013 e governou por decreto durante a maior parte do período entre 19 de novembro de 2013 e 2018.
Contexto histórico: 1970–1992 A atividade política de Hugo Chávez começou nas décadas de 1980 e 1990, um período de crise econômica e agitação política na Venezuela. O bem-estar econômico da Venezuela oscilava conforme a demanda instável por sua principal mercadoria de exportação, o petróleo. O petróleo representa três quartos das exportações da Venezuela, metade da receita fiscal do governo e um quarto do PIB nacional.Venezuela Information Office, "A More Just Foreign Policy?" (see Sources section) p 67.
Os anos 1970 foram de boom do petróleo, durante os quais o padrão de vida material de todas as classes na Venezuela melhorou. Isso se deveu em parte ao investimento dos partidos AD e COPEI em projetos de bem-estar social, que, devido à renda do petróleo, podiam ser realizados sem taxar fortemente a riqueza privada."The upper and middle classes did not see their ever-increasing levels of consumption and cosmopolitan cultural orientation as threatened by popular demands, since state income continued to rise. Expanded education, health, and public works expenditure did not depend on taxing private wealth." – Lander, p 21. Os trabalhadores venezuelanos desfrutavam dos salários mais altos da América Latina e de subsídios para alimentação, saúde, educação e transporte. No entanto, "no final da década de 1970, essas tendências começaram a se reverter".Lander, p 22. A renda per capita do petróleo e a renda per capita geral caíram, levando a uma crise da dívida externa e à desvalorização forçada do bolívar em 1983. A tendência negativa continuou durante os anos 1990. "A renda per capita em 1997 era 8% menor que em 1970; a renda dos trabalhadores nesse período foi reduzida em aproximadamente metade".
Junto com essas mudanças econômicas vieram várias transformações na sociedade venezuelana. A divisão de classes se intensificou, como resumiu Edgardo Lander:Lander, p 22
Uma sensação de insegurança se generalizou em toda a população, constituindo "uma cultura emergente de violência [...] muito distinta da cultura de tolerância e paz que dominava a sociedade venezuelana no passado." (Briceño León et al., 1997: 213). Junto com o desemprego, a segurança pessoal tornou-se o principal problema percebido pela população. Entre 1986 e 1996, o número de homicídios por 10.000 habitantes saltou de 13,4 para 56, um aumento de 418%, sendo a maioria das vítimas jovens do sexo masculino (San Juan, 1997: 232–233). Inúmeras ruas em bairros de classe média e alta foram fechadas e privatizadas; cada vez mais, casas e edifícios nessas áreas eram cercados por grades e cercas elétricas. A ameaça representada pela "classe perigosa" passou a ocupar um lugar central na mídia – junto com demandas por medidas drásticas, incluindo pena de morte ou execução direta pela polícia.
Durante esse período, a perspectiva de uma vida razoavelmente confortável para a maioria dos venezuelanos, que parecia alcançável na década de 1970, tornou-se cada vez mais remota; a pobreza e a exclusão tornaram-se inevitáveis para muitos. Segundo Lander:Lander, p 23
Essas condições de crise passaram a ser características permanentes da sociedade. Não se trata aqui da exclusão de uma minoria categorizada como "marginal" em relação ao conjunto da sociedade, mas das condições de vida e da reprodução cultural da grande maioria da população. O resultado foi o desenvolvimento do que Ivez Pedrazzini e Magalay Sánchez (1992) chamaram de "cultura da urgência". Eles descrevem uma cultura prática de ação em que a economia informal, a ilegalidade, a ilegitimidade, a violência e a desconfiança da sociedade oficial são comuns. Alejandro Moreno (1995) caracteriza esse outro universo cultural como o mundo da vida popular que é outro, diferente da modernidade ocidental – organizado em termos de uma estrutura familiar matriarcal, com diferentes concepções de tempo, trabalho e comunidade, e uma racionalidade relacional (orientada para a comunidade) distinta da racionalidade abstrata da sociedade dominante. Esse contexto cultural é pouco compatível com o modelo de cidadania associado às democracias liberais do Ocidente.
Logo após assumir o cargo, Pérez, diante de uma grave crise de reservas internacionais, déficits fiscais, comerciais e de balanço de pagamentos e uma dívida externa (34 bilhões de dólaresThe Militant, 21 December 1998.) que nessas condições não podia ser paga, assinou uma carta de intenções com o Fundo Monetário Internacional estipulando que realizaria um programa de ajuste de liberalização.Lander, p 25. O acordo não foi submetido a consulta parlamentar e foi tornado público apenas após ter sido assinado.Lander, p 25 Em 25 de fevereiro de 1989, o governo anunciou um aumento nos preços da gasolina e, dois dias depois, o aumento das tarifas do transporte público precipitou o Caracazo, uma série de manifestações e distúrbios em massa em Caracas e nas outras principais cidades da Venezuela.Lander, p 25, says "the principal cities of the country." Pérez suspendeu os direitos civis e impôs lei marcial. A repressão militar resultou, segundo o próprio governo, em 300 mortes; outras estimativas colocam o número em mais de 1000.Mc Caughan, p 34; Lander, p 25; The Militant, 21 December 1998.
1992 e depois Chávez, que desde o início dos anos 1980 participava de um grupo de esquerda no Exército chamado Movimento Bolivariano Revolucionário 200 (MBR 200), ganhou notoriedade nacional como líder de uma tentativa de golpe contra Pérez em fevereiro de 1992. Embora a tentativa tenha falhado, antes de ser preso Chávez pôde falar em rede nacional de televisão, ocasião em que pediu desculpas pela perda de vidas e convocou suas forças a cessar o combate, mas também defendeu seus objetivos de reforma e declarou, de forma famosa, que estava depando suas armas "por ahora" – por enquanto – dando a entender que poderia um dia retornar. Essa breve aparição televisiva deu a Chávez reconhecimento nacional.The Militant, 21 December 1998: "Both Democratic action and COPEI were completely discredited after those events, while Chávez was elevated to hero status. For weeks after the coup, slum residents rallied in support of the arrested officers."
Pérez sobreviveu a outra tentativa de golpe em novembro de 1992, mas foi destituído pelo Congresso em 1993 por usar 17 milhões de dólares para financiar a campanha de Violeta Chamorro na Nicarágua e sua própria festa de posse. Rafael Caldera o sucedeu ao vencer as eleições de dezembro de 1993 com 30% dos votos, contra 23% do segundo colocado. Cumprindo uma de suas promessas de campanha, ele perdoou Chávez e outros dissidentes do Exército em março de 1994. Como Pérez, ele adotou programas do FMI em 1996 e 1997 que estipulavam ajustes de liberalização e abriram a indústria petrolífera estatal ao investimento privado. Em novembro de 1996, cerca de 1,3 milhão de trabalhadores entraram em greve geral do setor público; e no final de agosto de 1998, Caldera obteve do Congresso legislação que lhe permitiu governar por decreto.On the strike: Workers World 9 December 1996. On the legislation to govern by decree: BBC World Service, 28 August 1998.
Durante esse período, no final da década de 1990, os principais partidos de esquerda eram La Causa Radical (LCR), que conquistou 48 cadeiras no Congresso em 1993, e o Movimiento al Socialismo (MAS). Hugo Chávez e o MBR 200 também permaneceram ativos. Na assembleia nacional do MBR 200, em dezembro de 1996, seus membros votaram por participar das eleições presidenciais de 1998 e parlamentares de 1998, criando uma nova organização, o Movimento Quinta República (Movimiento Quinta República, MVR), destinada a unir grupos contrários aos principais partidos. A candidatura de Chávez à presidência foi apoiada por uma coalizão chamada Polo Patriótico (PP) que, além do MVR de Chávez, incluía o PPT e partes significativas do MAS, LCR, Movimento Primeiro de Maio e Partido Bandeira Vermelha. As principais promessas na plataforma eleitoral enunciadas por Chávez durante sua campanha de 1998 incluíam o seguinte: Reorientação da indústria petrolífera: Cessar a privatização da companhia estatal de petróleo, Petróleos de Venezuela. Revisar as concessões que o Estado havia concedido a companhias petrolíferas estrangeiras(New York Times, 2 September 1998, section A, page 11). Redistribuir a renda da indústria petrolífera para beneficiar mais as classes econômicas mais baixas(BBC World Service, 9 November 1998). Seguir um curso econômico independente das diretrizes do capitalismo global, especialmente dos Estados Unidos; ele caracterizou isso como uma "terceira via", uma alternativa ao "neo-liberalismo selvagem", "savage neo-liberalism"(La Jornada, Mexico, 3 December 1998; also The Militant, 21 December 1998). Reescrever a constituição de 1961. Ele propôs realizar um referendo para buscar aprovação para dissolver o Congresso e convocar uma "assembleia constituinte" eleita cuja tarefa seria redigir uma nova constituição(New York Times, 8 December 1998, section A, page 26; The Militant, 21 December 1998). Combater a corrupção, que ele disse consumir 15% das receitas públicas(New York Times, 2 September 1998, A 11; El Nuevo Diario, Managua, 8 October 1998; La Jornada, Mexico, 3 December 1998; New York Times, 8 December 1998, A 26). Reprimir a epidemia de evasão fiscal por grandes contribuintes(El Nuevo Diario, Managua, 8 October 1998; La Jornada, Mexico, 3 December 1998; New York Times, 8 December 1998, A 26). Aumentar o salário mínimo, fornecer uma bolsa de 30.000 bolívares (US$ 53) aos desempregados, melhorar a segurança no emprego e garantias de aposentadoria, aumentar os gastos com criação de empregos e educação.(The Militant, 21 December 1998; U.S. News & World Report, 13 December 1998).
1999: Crise econômica e nova constituição Com muitos venezuelanos cansados da política no país, as eleições de 1998 tiveram a menor participação de eleitores da história venezuelana, com Chávez vencendo a presidência em 6 de dezembro de 1998 com 56,4% do voto popular. Seu oponente mais próximo foi Henrique Salas Römer com cerca de 40%.López Maya, p 12. Ele prestou o juramento presidencial em 2 de fevereiro de 1999. Os pontos principais de seu mandato eram reformar a constituição, desmontar o que seus apoiadores percebiam como uma oligarquia entrincheirada, reverter o declínio econômico da Venezuela, fortalecer o papel do Estado na economia e redistribuir a riqueza aos pobres. Os primeiros meses de Chávez no cargo foram dedicados principalmente à reforma constitucional, enquanto seu foco secundário foi alocar imediatamente mais fundos governamentais para novos programas sociais.